As Grandes Navegações marcaram um dos períodos mais transformadores da história mundial, ocorrendo entre os séculos XV e XVI. Esse movimento foi impulsionado principalmente por países europeus, como Portugal e Espanha, em busca de novas rotas comerciais. A necessidade de contornar o domínio otomano sobre as rotas terrestres para o Oriente estimulou a exploração marítima. Além disso, havia o interesse na obtenção de especiarias, metais preciosos e outros produtos de alto valor.
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quarta-feira, 6 de maio de 2026
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Arqueologia do Paraná
Ponta. Altamirado Paraná.
Arqueóloga
Dra. Claudia Inês Parellada
Museu
Paranaense
A atual
exposição do Museu Paranaense podem ser observados vestígios relacionados a
diferentes ocupações humanas, a partir de 12.000 anos atrás, no atual território paranaense. Na visita
faz-se uma grande viagem no tempo e no espaço por cerca de mil peças
arqueológicas dispersas em vitrines, dioramas e contextualizadas com painéis e
maquetes.
São
peças provenientes de diversas regiões do Paraná, e que procuram iluminar ainda
mais o passado. Trata-se de uma exposição resultante de um grande
quebra-cabeças científico, no qual as pesquisas possibilitam a incorporação de
novos materiais, e que o visitante pode percorrer e viajar pelo tempo...
Os
primeiros povos, os paleoíndios, chegaram ao Paraná há mais de doze mil anos,
vindas das terras altas do centro e oeste sul-americano: áreas andinas e
amazônicas, encontrando aqui um clima diferente do atual, mais frio e seco, com
a vegetação predominante de campos e cerrados.
Estes
povos conviveram com animais da megafauna, como a preguiça gigante, o
mastodonte e o tigre dente-de-sabre, fazendo grandes pontas de projéteis, e
caçando também aves, pequenos mamíferos e roedores, além de praticarem a pesca.
Há
dez mil anos, com o clima tornando-se
cada vez mais quente e úmido, outros grupos caçadores e coletores migram para o
Paraná, ocupando em momentos diversos tanto o vale de grandes rios, tais como o
Iguaçu, o Ivaí, o Tibagi e o Paraná, como topos de morros e montanhas,
inclusive abrigos rochosos, e o litoral. São povos relacionados ao período
arcaico, e no sul do Brasil denominados Umbu, Humaitá e Sambaquieiros.
Os
sambaquis são aterros elaborados por diferentes populações pré-coloniais,
principalmente de conchas de moluscos e gastrópodos, e em menor escala de ossos
de animais, alguns menores compostos por
restos alimentares e outros, os maiores com altura de até 25 metros, planejados
e construídos como grandes centros cerimoniais, com muitos sepultamentos
associados. Deve ser destacado que parte dos sambaquis é formada por diversas
camadas arqueológicas, originadas por ocupações de culturas muitas vezes
distintas.
Abrigo Pontão.
Ao
lado está um sepultamento fletido, semelhante à posição fetal, evidenciado a 3,20m de profundidade junto ao
sambaqui do Poruquara, no litoral norte paranaense. A conservação de ossos
humanos, mesmo que possam ter mais de dois mil anos, acontece em ambientes
específicos, como os ricos em cálcio, devido à grande quantidade de valvas de
moluscos e gastrópodos.
No
planalto, como no vale do Ribeira, existem também os chamados sambaquis
fluviais, onde ocorrem vestígios associados a gastrópodos terrestres nas
proximidades de grandes rios.
Os
povos Umbu e Humaitá eram nômades que permaneciam tempos curtos em cada
acampamento, caçando animais, coletando frutos e raízes, e muitas vezes
deixando representações simbólicas de seus mitos e histórias através de
gravuras, pinturas e esculturas nas rochas. As pinturas, geralmente vermelhas
ou pretas, são figuras de animais associadas a seres geométricos, seres humanos
e plantas.
A
maior parte das pinturas rupestres no Paraná está concentrada em abrigos e
cavernas nos Campos Gerais, apesar da arte rupestre se distribuir por todo o
território paranaense.
Esqueleto encontrado no Sambaqui de Poruquara.
Para
caçar usavam armadilhas, arpões e flechas com pontas de osso, madeira e pedra,
e preparavam os alimentos com auxílio de talhadores, raspadores e facas
lascadas em rochas ou minerais. Testemunhos
desse período recuado foram encontrados em um dos sítios arqueológicos mais
antigos do Paraná: Ouro Verde, situado no sudoeste paranaense, no vale do rio
Iguaçu, e onde foram identificados vestígios de caçadores-coletores Umbu com
mais de nove mil anos.
Os
primeiros povos ceramistas e agricultores chegaram ao Paraná há quatro mil
anos, vindos do planalto central brasileiro. Eram os Itararé-Taquara,
ancestrais de índios da família linguística Jê como os Kaingang e Xokleng, que
vivem até hoje no sul do Brasil, e que tiveram intensa miscigenação com os
antigos caçadores-coletores aqui estabelecidos.
Os
agricultores Itararé-Taquara moravam em aldeias, com 200 a 300 pessoas,
divididas em 4 a 6 casas comunitárias. Em áreas próximas plantavam roças de
milho, amendoim, feijões e abóboras. No período em que aguardavam o crescimento das plantações dividiam-se em
pequenos grupos, para a coleta de mel, pinhão e diversos frutos. Assim,
contribuíram bastante para a expansão de áreas com pinheiro araucária, pitanga,
jaboticaba, araçá, jerivá e palmito, realizando o manejo dessas espécies.
Os
Itararé-Taquara usavam flechas, algumas com ponta-virote, que serviam para
caçar animais e derrubar pinhas, além de grandes pilões de pedra, lâminas de
machado polidas petalóides e semi-lunares.
Enterravam
os mortos construindo aterrros, algumas vezes na forma de grandes estruturas
circulares, com pedras ou não, ou cremavam os mortos. Alguns cemitérios, com
sepultamentos estendidos e fletidos, ficavam junto a abrigos rochosos, em áreas
consideradas sagradas, onde eram feitas pinturas e gravuras, geométricas ou
figurativas.
A
cerâmica Itararé-Taquara possui geralmente forma cilíndrica e espessura fina,
algumas vezes recoberta por engobo negro ou vermelho. A decoração externa da
cerâmica era feita com impressão de carimbos ou malha grossa, e também
incisões, antes da queima dos vasilhames. As técnicas de manufatura eram o
acordelado, o paleteado e o modelado.
Há
dois mil anos chegaram ao Paraná populações da família linguística
Tupi-Guarani, os Tupiguarani, ancestrais de índios Tupi e Guarani, cujos
descendentes vivem até hoje no Brasil e em países vizinhos. Vieram
provavelmente da Amazônia, ocupando primeiro o norte e oeste paranaense, para
depois fundarem aldeias no planalto curitibano e litoral.
Agricultores,
plantavam especialmente mandioca, milho, batata-doce e feijão, e moravam em
aldeias com 300 a 400 pessoas em grandes casas comunitárias. A cerâmica é
diagnóstica para compreender aspectos do cotidiano dos índios Tupi e Guarani, a
pintura em linhas vermelhas e pretas sobre engobo branco é muito comum e revela
parte da cosmologia desses povos. A forma carenada, assemelhada a quilha de um
navio, de algumas panelas cerâmicas é característica de povos Tupi e guarani.
Maquete de Villa Rica.
Vasilhame
GuaraniOs Tupiguarani costumavam sepultar os mortos acondicionados em grandes
vasilhames cerâmicos, no interior das habitações, que em seguida eram queimadas
e reconstruídas. O recipiente usado para enterrar geralmente pertencia ao
morto, e tinha como funções básicas anteriores armazenar grãos, fermentar
bebidas e preparar alimentos.
Os
principais artefatos em pedra encontrados em sítios arqueológicos
Tupiguarani são lâminas de machado
polidas ou lascadas, adornos labiais em forma de "T" (tembetás),
raspadores, talhadores, polidores em canaleta e adornos polidos perfurados.
Nesta
exposição ainda são mostrados materiais relativos a ocupação espanhola no
Paraná, afinal o Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e Espanha em
1494, colocava o atual território paranaense, a oeste de Paranaguá, como sendo
espanhol.
Nesta
área, denominada Província del Guairá, povoada por grupos indígenas das
famílias linguísticas Tupi-Guarani e Jê,
a Coroa espanhola fundou, a partir de 1554, cidades, inicialmente Ontiveros,
depois entre 1556 e 1557, Ciudad Real
del Guairá, cujas ruínas atualmente estão localizadas no município paranaense
de Terra Roxa.
A
terceira cidade espanhola fundada foi Villa Rica del Espiritu Santo, em 1570,
nas proximidades do rio Cantu. Em 1589, depois de epidemias de varíola e gripe
no local da primeira fundação, Villa Rica foi transferida para as proximidades
da foz do rio Corumbataí no Ivaí. Lá, no atual município paranaense de Fênix,
existe o Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo, com um museu
arqueológico aberto a visitantes.
Pinturas rupestres. Abrigo Floriano no Parque Guartela.
A
partir de 1610, numa tentativa de conquistar o Guairá com menor número de
conflitos com os grupos indígenas Guarani e Jê, foram criadas quinze missões
jesuíticas, que tiveram apoio da Coroa espanhola.
As
datas das fundações, algumas controversas, e os nomes das missões coordenadas
por padres jesuítas no Guairá
foram:
-
1610: Nuestra Señora de Loreto e San Ignacio Mini
-
1624: San Francisco Xavier
-
1625: San Joseph, Nuestra Señora de Encarnación
-
1626: Santa Maria
-
1627: San Pablo del Iniaí, Santo Antonio, Los Angeles, San Miguel, San Pedro,
Concepción de Nuestra Señora de Guañaños
-
1628: San Thomas, Ermida de Nuestra Señora de Copacabana
-
1630: Jesus-Maria
Os
ataques dos bandeirantes paulistas, para capturar indígenas para trabalhar em
áreas agrícolas de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, eram contínuos desde o final do século XVI, e
assim até 1631 todas as missões foram destruídas ou simplesmente abandonadas.
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
O escravo no Rio Grande do Sul
O escravo e o trabalho com a cana de açúcar. Fonte: Arquivo Pessoal CHH.
Autor:
Leandro Claudir
Para
a historiografia sulina durante décadas o escravo africano inexistiu, sendo
esse um consenso entre os historiadores a pouca importância que teria tido o
escravo na formação do Rio Grande do Sul. Avaliavam ser o homem livre o fator
preponderante na formação de nosso Estado. Acreditavam que os escravos eram
pouco utilizados, e quando se falava neles era para ressaltar que aqui, se
houve escravismo, ele foi paternal, benigno. Pelo conceito vigente acreditavam
que havia sido pequena a contribuição de sangue africano na etnia
rio-grandense.
Diante
desses fatos cria-se então o difuso mito da Província libertária, obra do braço
livre, inocente, ou quase, da pecha da escravidão. Mas os primeiros escritos
sérios sobre o assunto irão provar o contrário. Participando do amplo movimento
da década de 30, que reiniciará o estudo mais sistemático da “africanologia”
brasileira, aparecerão os primeiros trabalhos do advogado Dante de Laytano que
procurará, nos documentos, relatos e mapas estatísticos do século XVIII e XIX,
o traço da passagem da escravidão pelo Rio Grande do Sul. Tece duras palavras
sobre a benignidade do tratamento aos escravos, pois enquanto os negros estavam
no pastoril do Rio Grande tiveram um tratamento mais humano, mas ao habitar a
senzala dos granjeiros ou as charqueadas esse tratamento foi modificado pelas
chicoteadas do feitor e pela barbárie escravagista.
Na
verdade, a história do escravo no sul está, ainda, por escrever-se. Isso
deve-se a resistência dos historiadores gaúchos a escrever a história como ela
é, pois tornará pouco simpático os heróis aparecerem como senhores-de-escravos.
Junta-se a esse problema a raridade das fontes históricas, pois muitas foram
propositalmente destruídas. A saga do escravo no Rio Grande do Sul não deve ser
esquecida, pois ali nas fétidas e úmidas senzalas das charqueadas, nos
suicídios do escravo desesperado, no negro aquilombado, nas tentativas de fuga
e insurreições está o passado do nosso povo. No fim do século XVII, Portugal
funda a Colônia de Sacramento e uma das mercadorias procuradas que mais
chegavam à mesma colônia era o negro. Era um gigantesco mercado de mão-de-obra
servil devido a sua posição geográfica que facilitava tanto o recebimento como
a distribuição pela região. O comercio com o homem escravizado será uma
realidade cotidiana na Colônia. Outra atividade importante para a Colônia de
Sacramento além do contrabando era o couro, sebos carnes salgadas e os escravos
africanos como citados anteriormente. A caça ao gado da Banda Oriental, pelo
seu couro, será permanentemente, um dos pilares econômicos da Colônia.
Conseguindo o couro, era ele secado e exportado para o Brasil, ou para o
exterior. Com a abertura do ciclo mineiro, com o descobrimento dos campos auríferos
em Minas Gerais. As “vacarias” do sul serão agora valorizadas não somente pelo
couro que se podia extrair. O gado vale como animal de carga, como fonte de
suprimento.
Nos
primeiros anos do novo século, começarão a descer, em direção ao sul, tropeiros
vicentinos em busca do valorizado e abundante gado. Isso possibilita a fixação
do homem: as primeiras “estâncias”, os primeiros povoados. A ocupação do sul,
que vinha dando-se em função da Colônia de Sacramento, torna-se independente
desta, toma uma razão em si. Mas isso não significa que a ocupação do Rio
Grande do Sul tenha-se dado baseada essencialmente sobre o braço livre. Mesmo
sendo obvio que a caça ao gado selvagem não se combinava com o trabalho
compulsório. Os peões que trabalhavam na courama eram senhores de seus
destinos, pois se encontravam com boas montarias e armados. Coisas que não se
encaixavam com o homem escravizado. Alguns escravos que participavam dessas
atividades transformavam-se em acompanhantes de seus senhores como guarda-costas
e pajens. A escravidão era meramente jurídica. A abundância de mão de obra para
estas atividades estava relacionada com a dificuldade de obter terras e o
orgulho impedia os colonos de competir com os escravos índios e negros pela
agricultura, pois isso os faria manchar a honra espanhola. O negocio do gado
era diferente. Era “Sport”, não trabalho. O mesmo era válido para o lusitano.
Cicatrizes dos açoites dos feitores. Fonte: Arquivo Pessoal CHH.
Desse
modelo social nasce o gaudério, changador ou gaúcho. Em regra homens de má
índole, vagabundos e fugitivos. O gaúcho foi parte fundamental de nossa
história que esqueceu do eterno presente : o escravo. Embora, até quase o
início do século XIX não tivéssemos um regime social de produção escravista a
presença do homem escravizado era constante e significativa. O nosso território
começa a ser ocupado durante um período aonde a sociedade brasileira esta toda
alicerçada sobre a exploração do trabalho servil. A posse de um escravo
significava status social. A presença do escravo em nossas primeiras estâncias
e algo pouco estudado, mas seu papel importante esta presente na analise de
mapas estatísticos da Capitania. A agricultura ocupará, também, nesses
primeiros anos o braço escravo. Não o fará porém com exclusividade. O regime
social de escravidão se estrutura com a expulsão dos espanhóis e a fundação da
primeira charqueada, ao nível industrial, que teremos uma atividade produtiva
de primeira ordem, baseada na exploração do trabalho escravo. Iniciando a
introdução sistemática de escravos para a exploração na atividade produtiva. O ato
de charquear era uma pratica artesanal e o próprio peão podia preparar o couro
e carneá-lo, estender as carnes. O começo da produção industrial de charque no
Rio Grande do Sul deve-se as secas do final do século XVIII, no nordeste que
até então era o produtor da carne seca.
Desse
modo o mercado do produtor; o Rio Grande do Sul o substituirá. O ciclo da
charqueada inaugura a definitiva estruturação do escravismo como modo social de
produção dominante de uma ampla região de nosso território. As conseqüências e
determinação que isso trará para a nossa história não foram, ainda, nem mesmo
delineadas. Por mais de cem anos, a classe economicamente mais dinâmica viverá
da exploração direta do trabalho escravo. Teremos então nossas senzalas,
feitores, tronco, nossas “casas grandes” e nelas frente a frente, o senhor e o
escravo. Pode-se dizer que o limite da jornada de trabalho na charqueada era a
resistência física do escravo. A violência na charqueada era extrema, o escravo
mau trabalhador era na maioria das vezes castigado e torturado. Era um nodo de
coerção muito eficiente para os senhores das charqueadas. Com a supressão
“Legal” da entrada de novos escravos em 1850, pressionado pela marinha inglesa,
o império começa efetivamente a reprimir o tráfico negreiro. Teremos porém
ainda os desembarques clandestinos.
O
contrabando de escravos que desembarcaram em Montevidéu no Uruguai era comum
até a abolição da escravatura no mesmo. Outro problema a ser abordado pela
historiografia era a origem dos escravos que chegavam ao Rio Grande do Sul,
pois no máximo o que aparecia nos registros era o porto em que eram embarcados
no continente africano. Para esboçar a origem e tradição histórico-cultural do
afro-gaúcho seria necessário dois grandes processos. Identificar as correntes
escravistas do continente africano e definir suas conexões com o nosso tráfico.
O escravo era ensinado a obedecer e acreditar na superioridade de seu senhor.
Porém incessantemente, o escravo resistiu. Quando resiste e retoma das mãos do
senhor sua vida, reassume sua essência, é homem.
O
ápice da resistência ao escravismo foi a insurreição mesmo rara e os quilombos,
sociedades livres para homens livres. Eram insurgências sociais, coletivas. De
modo individual o escravo, fazia corpo mole, fugia, ajustiçava eu senhor e sua
família, feitor e o suicídio como o limite máximo da busca por liberdade. O
suicídio será uma constante na história do escravismo. As concepções religiosas
africanas, a brutalização e desumanização a que era lançado, as duras condições
de sua vida, tudo apontava ao suicídio como possível alternativa. Podia assumir
esse ato proporções verdadeiramente endêmicas. O suicídio não era só um perda
material, mas uma sansão moral. A fuga de escravos para alcançar liberdade era
comum, pois fugiam para aquilombar-se em um retirado ermo, para construir uma
cabana afastada no campo, para procurar um novo senhor. No Rio Grande do Sul
fugia em direção a fronteira castelhana, raia da liberdade.
Engenho colonial de cana de açúcar. Fonte: Arquivo Pessoal CHH.
A
fuga do escravo atravessará toda a história do escravismo gaúcho. A mais comum
era a fuga para a constituição de “quilombos”. O escravo não só procurava
conquistar sua liberdade através da fuga. São constantes, na documentação do
Império, referências a insurreições ou tentativas de insurreições servis. As
conspirações libertarias dos escravos gaúchos, no entanto,foram sempre
reprimidas antes de eclodirem. E isso não era de estranhar devido a várias
barreiras como: comunicação, línguas distintas, repressão e delação entre
outras. O envelhecimento da escravaria, a escassez crescente de braços servis,
assim como outros fatores, obrigou aos senhores-de-escravos a procurarem outro
tipo de trabalhador para suas fazendas, plantações, etc. A escravidão no
Brasil, prolongou-se até o apodrecimento. O apego constante dos historiadores
gaúchos, em manter sob sua tutela a presença imaculada dos heróis de nosso
estado tem impedido que a luz de fatos que construíram nossa sociedade atual
venham a tona. Protegendo os heróis de receberem também o titulo de
senhores-de-escravos, estão obstruindo o avanço do nosso encontro com nossas
origens. No decorrer do texto o autor demonstra uma clara preocupação em situar
o leitor dentro do contexto internacional e nacional que levaram a escravatura
no Rio Grande do Sul e de forma objetiva demonstra o uso do instrumento servil
desde o inicio da colonização no Estado.
A
única mudança foi devido à maior necessidade de produção e capital com a vinda
das charqueadas. Com as charqueadas os escravos começaram a trabalhar como
máquinas em uma linha de produção, sendo cobrados para trabalharem mais por
muito pouco (custo-benefício). Para que desse modo seus senhores viesse a
lucrar muito. Podemos observar que o escravo era um objeto de uso para seus
senhores, pois se ficasse desgastado (muito doentes e velhos) depois de muito
trabalho eram substituído como um maquinário obsoleto por um mais atual, no
caso um negro mais jovem. Mas pior que a escravidão é alguns historiadores
terem o interesse de excluir esse evento dos anais da história de nosso Estado.
Isso é como se mantivéssemos escravizados até hoje todos os escravos que aqui
em nosso Estado chegaram e com sangue ajudaram a construir nossa economia e
desenvolvimento. Diante de todos os fatos presentes no texto fica clara a luta
permanente do humano de pele negra procurando constantemente a liberdade, pois
é um grito presente dentro da própria alma do individuo. Essa luta estava
presente nas fugas mesmo que sem rumo, nos quilombos como uma luta organizada
de estabelecer uma sociedade construída por eles e para eles, aonde fossem
aceitos. Uma luta que levava a natureza de liberdade presente na alma humana ao
extremo, de sentir-se em saída e como última saída à vingança contra seus
algozes ou o suicídio baseado em suas crenças na esperança de retornar a sua
terra.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Geoglifos gaúchos: Marcas na terra seriam vestígios da colonização ou da pré-história?
Com
até 120 metros de diâmetro, centenas de anéis de terra no Rio Grande do Sul
intrigam pesquisadores. Confira as imagens de satélite e tire suas próprias
conclusões.
Visíveis até do espaço,
centenas de anéis de terra no sul do país guardam um mistério sobre suas
verdadeiras origens e funções. Com até 120 metros de diâmetro e presentes em
diversas cidades do Rio Grande do Sul, segundo alguns moradores locais, estas
estruturas seriam cercas de terra feitas por escravos no início da colonização.
Nas mesmas rotas onde elas estão localizadas, entre Pelotas e Dom Pedrito (RS),
também existem currais de pedra circulares com as mesmas proporções, velhas
conhecidas da cultura gaúcha. Mas mesmo assim há quem cogite a possibilidade
destas construções, apelidadas de geoglifos por serem melhor visualizadas do
alto, terem raízes mais profundas, remontando à pré-história.
Construções usando taipas de
pilão, feitas com argila, galhos e varas prensados, eram comuns no Brasil
colonial. Currais de pau-a-pique parecidos também costumavam ser utilizados
para marcação de gado, conforme conta o autor uruguaio Aníbal Barrios Pintos em
seu livro “De las vaquerias al alambrado” (Ediciones Del Novo Mundo, 1967). No
Uruguai e em Santa Vitória do Palmar (RS), alguns desses círculos cercados de
árvores, já citados em 1820 por Auguste Saint-Hilaire, foram documentados como
“currais de palmas”.
Segundo Pintos e os
historiadores André Oliveira e Cláudia Teixeira, depois de cavadas as valas,
eram transplantadas mudas de palmeiras, que tinham os espaços entre elas
fechados com tiras de couro. Ao ver imagens das supostos cercados, Oliveira
concordou com a versão contada pelos moradores: “Essas estruturas se parecem
com os currais de palmas encontrados nesta região onde é peculiar a palmeira
Butiá capitata. Realmente devem ser encerras, ou seja, currais. No caso de
serem de terra deve-se analisar melhor as elevações, provavelmente realizadas
por escravos”. O pesquisador estima a idade dessas construções em
aproximadamente 200 anos, mesma opinião do professor Joaquim Dias, formado em
História e expert no passado de Capão do Leão, que diz que “a época pode se
situar desde 1780 até 1900, ou seja, é muito tempo”.
Os arames de metal só
chegaram ao estado na década de 1870. Antes disso, as cercas eram feitas com
muros de pedra ou com outros materiais como valas cavadas no chão, madeira
beneficiada, ananás, bananeiras, pessegueiros e outras árvores frutíferas,
bromélias, espinheiros, cana, cactus e até de pau-a-pique. Diferentes fontes
falam das rotas usadas para transporte de vacas, cavalos e mulas passando por
essa região já a partir do século XVIII, e foi encontrada em um antigo
inventário menção a uma Estrada Real passando pelo local no século XIX. Além
dos relatos de diversos moradores que chamam a Estrada do Passo dos Carros
entre Capão do Leão e Pelotas, onde estão localizados alguns desses enormes
círculos, de “Corredor das Tropas”.
Existem também inúmeras citações
dos currais sendo usados pelos colonizadores da região durante o século XVIII,
na época da preia do gado cimarrón, antes pertencente aos jesuítas. Segundo
mapas antigos e outras referências, os tropeiros que transportavam esses
animais realmente passavam por ali, além de fotos e textos situarem algumas
desses currais de pau-a-pique e de pedra nos atuais municípios gaúchos de
Pelotas, Capão do Leão, Aceguá, Bagé e em outras cidades próximas. Porém, mesmo
sendo tão falados, é raro encontrar referências visuais sobre os tais cercados,
o que mantém o assunto misterioso.
Apesar de tudo isto bater
com a teoria dos anéis de terra como antigas encerras, eles também podem ter
sido construídos por povos nativos. Nesse caso a tradição popular que fala das
estruturas anelares no Rio Grande do Sul poderia estar equivocada ou
simplesmente incompleta, assim como aconteceu com os geoglifos do Acre. Lá,
pensava-se que eles seriam “trincheiras da Revolução Acreana”, porém a hipótese
ficou defasada quando arqueólogos descobriram que foram povos pré-históricos os
autores daquelas construções.
Diferente do que sustentam
algumas correntes mais tradicionais da arqueologia, defensoras dos indígenas
pré-colombianos como “pequenos grupos nômades que quase não causavam impacto no
ambiente onde viviam”, essas pessoas podem ter mobilizado suas sociedades para
a construção de fortificações, caminhos elevados, currais de pesca, monumentos
funerários e centros cerimoniais, entre outras funções atribuídas pelos
especialistas a essas estruturas de terra. É o que conta Charles Mann em seu
livro “1491: Novas revelações das Américas antes de Colombo” (Ed. Objetiva,
2005). Exemplos disso são os mounds da América do Norte, os geoglifos do Acre,
os cerritos e sambaquis do litoral sul/sudeste do Brasil, as elevações
artificiais existentes no estado boliviano de Beni, e as antigas estradas e
aldeias cercadas de fossos nas proximidades do rio Xingu, em Mato Grosso, entre
outros.
Rodrigo Aguiar, co-autor do
livro “Geoglifos da Amazônia - Perspectiva Aérea” (Faculdades Energia, 2005),
fala sobre o método de construção das formas geométricas do Acre: “cortes são
escavados, e a terra extraída é, cuidadosamente, depositada ao lado do sulco,
formando figuras em alto e baixo relevo”. Aguiar viu imagens dos anéis de terra
do extremo-sul gaúcho e disse estar convencido de que alguns deles também podem
ser pré-históricos. Assim como o arqueólogo Fábio Vergara Cerqueira: “Pensei
muito nesta hipótese quando vi as fotografias. Na medida em que se descobrem geoglifos
no Acre, existe igualmente a possibilidade de geoglifos em nossos campos”.
André Prous relatou em seu
livro “O Brasil antes dos brasileiros” (Jorge Zahar Editor, 2006) que as formas
geométricas escavadas no território acreano, “muito parecidas com as
assinaladas no Rio Grande do Sul, associadas à Cultura Taquara/Itararé, são em
geral interpretadas pelos arqueólogos como estruturas defensivas e apresentam
um fosso largo”, referindo-se àquelas já estudadas no norte/nordeste do estado.
Esses sítios arqueológicos classificados como “estruturas anelares” têm entre
20 e 170 metros de diâmetro e também existem no Paraná, em Santa Catarina e até
na Argentina.
É possível acreditar que
eles sejam similares aos de Capão do Leão e outras cidades próximas se os compararmos
a uma ilustração reproduzida por Letícia Morgana Müller em sua dissertação de
mestrado “Sobre ossos e índios” (PUC/RS, 2008). O desenho mostra um dos anéis
de terra citados por Prous com uma borda idêntica às dos geoglifos do
extremo-sul. Mas Ana Maria Rüthschlling apimenta ainda mais a discussão ao
relembrar em “Pesquisas arqueológicas no baixo rio Camaquã” (UNISINOS, 1989)
que a cultura Taquara seria intrusiva na região de Pelotas. Isso poderia
enfraquecer a hipótese dos geoglifos em questão serem resquícios desse povo, já
que seria necessário mobilizar um bom número de pessoas para se produzi-los.
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Civilizações perdidas da Amazônia
Há 2.000 anos, essas cidades de até 50 hectares eram dotadas de muros, praças e centros cerimoniais, e estavam ligadas por uma densa rede de estradas.
Os primeiros relatos dos
colonizadores europeus que navegaram pela região amazônica davam conta da
existência de cidades douradas e de mulheres guerreiras. Falavam também de
grandes tribos ao longo dos rios. Gaspar de Carvajal, padre que integrou a
primeira expedição ao Amazonas, chefiada, em 1542, por Francisco Orellana,
descreveu-as assim: “Não há distância de um tiro de balestra entre a última construção
de uma aldeia e a primeira de outra. E nossos barcos navegam 5 léguas entre o
início e o fim de cada aldeia”. O capitão Altamiro, da expedição de Aguirre, em
1559, arriscou um cálculo para estimar a população local. “Fomos recebidos por
não menos que 300 canoas e em cada uma vinham dez índios.” Durante séculos
esses relatos foram tomados como pura fantasia, até pela ciência.
De duas décadas para cá,
porém, descobertas arqueológicas não deixam dúvidas de que a região abrigou
cidades muito maiores do que as que foram descobertas pelos europeus, que
mantinham entre si relações de poder e hierarquia, faziam alianças,
comercializavam e, é claro, guerreavam. O indício mais recente dessas
civilizações foi descoberto pelo arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade
da Flórida. Em seu trabalho, publicado em outubro na revista americana Science,
Heckenberger conta que localizou no Alto Xingu, nordeste do Mato Grosso,
vestígios de grandes agrupamentos ligados por estradas e com construções
sofisticadas, como pontes e barragens defensivas. “A complexa rede de
comunicação entre as aldeias comprova a existência de uma grande civilização”,
diz.
Carlos Fausto, antropólogo
do Museu Nacional do Rio de Janeiro, co-autor do estudo, conta que foram
mapeados 19 sítios arqueológicos da época pré-Cabral. “Algumas aldeias chegavam
a ter 500 metros quadrados e abrigavam entre 7500 e 15000 habitantes”, afirma.
Com o auxílio de satélites GPS (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento
de Global), o trabalho mapeou os caminhos que ligavam as aldeias. Eles tinham
entre 10 e 50 metros de largura e até 5 quilômetros de extensão. “Pudemos
localizar intervenções na paisagem original, como aterros, valas, barreiras de
contenção”, afirma o pesquisador Heckenberger.
As cidades se pareciam com
as aldeias atuais: as residências ficavam em torno de uma praça central, que
servia como área para práticas religiosas. “No entorno dos povoamentos,
encontramos fossos com até 3 metros de profundidade que, provavelmente, serviam
para proteger os habitantes.” A conclusão derruba a teoria de que a Amazônia
foi uma floresta virgem, intocada.
A pesquisa no Alto Xingu
mostra apenas uma das várias sociedades complexas daquela região. “Elas
existiam em outras partes da Amazônia, na Bolívia, no trecho do rio Amazonas
quase inteiro, no médio e baixo Orinoco e em outras áreas”, afirma Michael
Heckenberger. “Em 1492, a Amazônia era provavelmente uma área de enorme
variabilidade cultural, com grupos regionalmente interligados.”
Berço
do Brasil
Provas das complexas
sociedades amazônicas não são propriamente novidade. A civilização marajoara,
que prosperou entre os séculos 2 e 12, na ilha de Marajó, e a tapajônica, que
ocupou a região de Santarém (ambas no Pará) até o século 16, são dois exemplos conhecidos.
No geral, em todas houve grandes intervenções humanas na paisagem.
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segunda-feira, 19 de agosto de 2013
A historiografia e a memória social
Veremos
no seguinte texto a ação da memória social dentro da historiografia e as
implicações de seu emprego e as marcas da memória social nos eventos
históricos. Diante da discrepância que emerge do confronto da historiografia
com as fontes e vestígios produzidos pelos acontecimentos na história e as
fontes e vestígios memoriais produzidos pelo evento em si. Buscando desse modo
uma perspectiva de uma história social da lembrança. Essas disputas pelas
representações do passado no âmbito da memória procedem pelas reflexões
sociológicas, a memória tornou-se um conceito central na área das humanidades. Os
historiadores, por seu turno, transformaram-a em fonte, submetendo-a a crítica
e desconfiando de seu apelo à verdade em função da imensa subjetividade que ela
carrega. Na historiografia, a reflexão sobre a memória social.
Mas,
como podemos estudar existem outros diálogos possíveis, os quais nos apontam
para a referida história social da lembrança, ou seja:
“O
modo como cada sociedade organiza e reflete sobre o seu passado torna-se objeto
de reflexão para o historiador.”
Noé
Freire Sandes
As afirmações de Maurice Halbwachs nos
faz compreender o quão importante é para nosso estudo, de que “a lembrança é,
em larga medida, uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados
do presente e, além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas
anteriores e de onde a imagem de outrora se manifestou já bem alterada.” Desse
modo abandona-se aqui a perspectiva da lembrança bergsoniana (Doutrina do filósofo francês Henri Bergson, conhecido principalmente por Ensaios sobre os dados imediatos da
consciência, matéria e memória.) como conservação
total do passado, para concebê-la como um refazer e não um reviver. Mas, como
afirma Halbwachs a representação da memória coletiva como um trabalho coletivo
de construção da lembrança. Ele propôs uma definição sociológica da noção de
memória coletiva em que assegurou que o indivíduo não se lembra sozinho, o que
implica afirmar que o indivíduo volta-se para o passado sempre de acordo como
olhar de seu grupo, ou melhor, de seus grupos, pois o indivíduo está inserido
num contexto familiar social, nacional, político etc. Desse modo toda a memória
é, por definição, coletiva e, portanto, ela impor-se-ia ao pensamento
individual. Nessa direção, o sentido ativo do sujeito na história é diluído ou
mesmo anulado pelas forças coletivas que passam a subsistir por si mesmas,
reflexão marcadamente anti-histórica. Daí não podermos mais referendar sem
restrições as posições durkheimianas (Émile Durkheim é considerado um dos pais da Sociologia tendo sido o
fundador da escola francesa, que combinava a pesquisa empírica com a teoria
sociológica.)
da sociologia da memória de Halbwachs. De todo modo, vale ressaltar que o
próprio texto de Halbwachs contém recursos de uma crítica que pode ser voltada
contra ele. Trata-se do uso quase leibniziano
(Gottfried Wilhelm Leibniz foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário
alemão.)
da ideia de ponto de vista, de perspectiva, pois ele assevera:
“Se a
memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de
pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. De
bom grado, diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a
memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e
que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantendo com outros
ambientes.”
Maurice
Halbwachs
Assim
o próprio Halbwachs, ao afirmar a ideia de perspectiva individual, já dá margem
para que a noção de quadro social não se estabeleça tão rigidamente.
Através das críticas antropológicas da memória avaliamos
de modo mais delimitado alguns problemas que os usos do conceito memória
coletiva apresenta, quais sejam provocar a confusão entre as lembranças
memorizadas e as lembranças narradas; reduzir a existência da memória coletiva
com base em atos como comemoração, construção de museus, mitos, etc.
Semelhantes atos não são suficientes para atestar a existência de uma memória
coletiva.
“Ao
afirmar que, se uma teoria é uma proposição em que há certo valor explicativo
do real, não podemos verdadeiramente falar em teoria da memória coletiva, posto
que ela não explica de que maneira as memórias individuais, que são as únicas
atestadas biologicamente, podem se aglomerar para constituir uma memória
coletiva.”
Joël
Candau
Ainda
que a perspectiva antropológica perceba a memória como uma faculdade
individual, é possível distinguir duas formas de memória em que ela seja
compartilhada: a protomemória
e a metamemória.
Protomemória: é o que podemos chamar de
memória hábito, que são saberes do corpo que se adquirem em ações cognitivas ao
longo do mais precoce processo de socialização. É mais uma presença do passado
que uma memória do passado. É um sistema inteiro de conhecimento que se revela
automaticamente em determinados momentos.
Metamemória: é a
representação que cada indivíduo faz de sua própria memória. É uma memória
reivindicada. E, como ela é reivindicada, é a dimensão essencial da construção
da identidade individual. Ao se tratar de usa forma coletiva, ela será por nós
brevemente analisada neste estudo como a memória reivindicada pelo grupo, a
memória que o grupo supõe ter. Ainda seguindo a abordagem da antropologia da
memória nos estudos de Joël Candau, supomos que a metamemória coletiva ajuda o
grupo a pensar-se como uma comunidade e contribui para modelar um mundo onde o
compartilhamento da memória faz-se ontológico. É a partir dela que os
representantes de um grupo creem compartilhar de um passado comum. É nesse
sentido que ela estabelece a unidade simbólica do grupo, uma vez que ela
representa o grupo como pertencente a um todo homogêneo e integrado.
Memória Social:
para
entendermos esta categoria, partimos da ideia de que existe um passado espacial
e historicamente distante que se impõe à sociedade como memória social. Nessa
direção, formula-se um projeto narrativo capaz de orientar o cidadão acerca do
sentido temporal de sua comunidade. Nesse sentido adotamos o conceito de
Memória Social atentos a, sobretudo, duas de duas propriedades:
a) Ela é medida por leituras do passado disponibilizadas no espaço público por ampla rede discursiva.
b) Lida com vetores de memória, em que se destacam a grande mídia e os textos destinados ao ensino de História. Como vetor, a memória transforma-se em meio capaz de ordenar a diversidade da experiência social.
a) Ela é medida por leituras do passado disponibilizadas no espaço público por ampla rede discursiva.
b) Lida com vetores de memória, em que se destacam a grande mídia e os textos destinados ao ensino de História. Como vetor, a memória transforma-se em meio capaz de ordenar a diversidade da experiência social.
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domingo, 19 de maio de 2013
10 fatos sobre Nassau e o Brasil Holandês.
Holandeses no nordeste brasileiro durante o século XVII. Imagem: Aventuras na História.
A passagem dos holandeses pelo Brasil e a administração do conde Maurício de Nassau no nordeste brasileiro, no século XVII, estão entre os fatos mais supreendentes de nossa história. Nesta postagem, vamos conhecer 10 fatos sobre Maurício de Nassau e o Brasil Holandês">.
1-Em 14 de fevereiro de 1630, os holandeses (também chamados de flamengos), aportaram no nordeste brasileiro com uma armada de 67 velas. Desembarcaram em Pau Amarelo, litoral norte de Pernambuco, e tomaram a direção de Olinda. Por fim, estabeleceram-se no povoado do Recife.
2-Com a ajuda de Domingos Fernandes Calabar, luso-brasileiro conhecedor dos rios pernambucanos, os holandeses dominaram parte do nordeste do Brasil, da foz do Rio São Francisco até o Rio Grande. De lá, partiram para a conquista do Maranhão, que só foi conquistado em 1641.
3-Em Pernambuco, os holandeses ficaram por 24 anos. Nesse período, Recife seria conhecida como Nova Holanda. Para governá-la, a Companhia das Índias Ocidentais enviou para o Brasil o conde Maurício de Nassau. Ao desembarcar em 1637, ele daria início à chamada “idade de ouro” do Brasil holandês.
4-Para governar a Nova Holanda, Maurício de Nassau receberia 1,5 mil florins mensais, além de seu salário como coronel do Exército, mais uma ajuda de 6 mil florins para despesas pessoais. Além disso, ele tinha o direito a 2% sobre tudo o que fosse apreendido no litoral do Brasil.
5-Junto a Nassau vieram, ao todo, uma comitiva com 46 artistas, cronistas, naturalistas e arquitetos, que o acompanhou em sua viagem ao Brasil. Eles seriam responsáveis pela documentação não só das obras do governo, mas da sociedade recifense da época.
Maurício de Nassau. Imagem: Aventuras na História: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/
6-Quando chegou no Recife, em 1637, Nassau encontrou uma população de cerca de 7 mil pessoas obrigada a conviver nas piores condições de higiene e conforto. Para enfrentar a falta de habitações, iniciou a construção, na Ilha de Antônio Vaz, do que veio a ser chamada de Cidade Maurícia.
7-Durante a sua administração, Recife tornou-se a cidade mais cosmopolita do continente. Holandeses, franceses, alemães, poloneses que integravam os quadros da Companhia das Índias viajavam para lá. A forte prostituição fez a cidade passar por um terrível surto de sífilis, doença de cidade grande.
8-Apesar das mudanças efetuadas por Nassau, a colônia não dava os lucros desejados pelo governo holandês. Por este motivo, em maio de 1643, o governo holandês mandou que Nassau abandonasse a administração e retornasse para a Holanda. Porém, ele demorou quase um ano para obedecer.
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segunda-feira, 22 de abril de 2013
25 curiosidades sobre os índios brasileiros
Chegada de Cabral as terras indígenas que futuramente seriam chamadas pelos europeus de Brasil. Imagem: Guia dos Curiosos.
- Os povos que habitavam as Américas foram chamados pelos
europeus de índios. O termo é uma
invenção europeia e provém de um “erro histórico”. Ao chegar às Américas, os
europeus achavam que tinham chegado nas Índias. Assim, os povos que habitavam o
continente americano foram chamados de índios.
- Quando o Brasil foi conquistado, em 1500,
os historiadores calculam que existiam aqui entre 3 milhões e 5 milhões de
índios, divididos em 1.400 tribos. Havia três grandes áreas de concentração: litoral,
bacia do Paraguai e bacia Amazônica.
- No Brasil, muitos índios foram capturados e
escravizados. Os colonos diziam que os índios não eram gente, mas animais.
Quando os padres jesuítas chegaram ao Brasil, começaram a reverter esse quadro.
Em 1537, a bula Veritas
Ipsa, editada pelo papa Paulo III, declarou que os índios
eram “verdadeiros seres humanos”.
- As doenças trazidas pelos europeus causou a morte
de vários habitantes da terra. Os indígenas não resistiam ao sarampo,
varíola e gripe. Entre 1562 e 1563, cerca de 60 mil índios
morreram por causa de duas epidemias de “peste de bexiga” (tipo de varíola).
- Atualmente, calcula-se que 400
mil índios ocupam
o território brasileiro, divididos em 200 etnias e 170 línguas. Vale ressaltar
que este cálculo considera apenas os indígenas que vivem em aldeias. Há estimativas
de que, além destes, há entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas.
Índios Xerente. Imagem: Guia dos Estudantes.
- O grão
de guaraná lembra
muito a figura de um olho humano. Isso deu margem a uma lenda espalhada pelos
índios saterê-maué. A índia Unai teria tido um filho concebido por uma serpente
e morto pelas flechadas de um macaco. No local em que ele foi enterrado, teriam
nascido as primeiras plantas de guaraná.
- Os índios Xerente realizam um ritual para batizar suas
crianças, chamado Uaké. Nele, a molecada participa de uma dança em círculo
enquanto recebe seus nomes, que depois são anunciados de porta em porta.
- Em
2004, foram realizados os Jogos Indígenas do Pará.
500 índios de 14 tribos participaram do evento, que teve competições de
arco-e-flecha, cabo-de-guerra, arremesso de lança, lutas corporais, natação,
canoagem, corrida de toras, maratona e atletismo.
- O Parque Nacional do Xingu é uma das maiores áreas indígenas da
América Latina, com 26 mil quilômetros quadrados (quase o tamanho do Estado de
Alagoas). Criado em 1961 para garantir melhores condições de vida e a posse da
terra à população indígena local, abriga hoje 4 mil índios de 15 grupos
diferentes.
- Os índios brasileiros adoram carne
de macaco, considerada um prato muito especial. Quanto mais
novo o macaco for abatido, mais macia é a carne. Os miolos são retirados e
misturados a um molho ou pão. Os cérebros são ricos em gordura e proteína.
Índios do dialeto tupimanbá. Imagem: Guia dos Estudantes.
- O tupi era uma das 1.200 línguas indígenas
identificadas no Brasil no ano de 1500. Até meados do século 18, tratava-se do
idioma mais falado no território brasileiro. Cerca de 20 mil palavras do atual
vocabulário, como amendoim, caipira, moqueca, taturana e pipoca, derivaram
dele.
- Quando Cabral chegou ao Brasil, a língua
era falada numa faixa de 4 mil quilômetros, do norte do Ceará ao sul de São
Paulo. O que predominava era o dialeto tupinambá, um
dos cinco grandes grupos tupis. Os outros eram: tupiniquins, caetés, potiguaras
e tamoios.
- Os bandeirantes se comunicavam em tupi. É por isso que
tantos estados, municípios e rios têm nomes de origem indígena. Neste sentido,
Paraná é “mar”; Pará é “rio”; Piauí é “rio de piaus” (um tipo de peixe);
Sergipe é “no rio do siri”; Curitiba é “muito pinhão”; Pernambuco é “mar com
fendas”, entre outros.
- Hoje restam 177 línguas indígenas. O antigo
tupi foi uma das que desapareceram completamente. Em 1758, o marquês de Pombal,
interessado em acabar com o poder da Companhia de Jesus no Brasil e em aumentar
o domínio da metrópole portuguesa sobre a colônia, proibiu o ensino e o uso do
tupi.
- Em 1955, o presidente Café
Filho obrigou
todas as faculdades de letras a incluir um curso de tupi no currículo.
Cerimônias indígenas. Imagem: Guia dos Estudantes.
- Em 1910, o Marechal Rondon criou o SPI (Serviço de Proteção ao Índio). Os
indígenas passaram a ter direito à posse da terra e seus costumes eram
respeitados. A entidade foi substituída pela Funai (Fundação Nacional do Índio). O órgão
federal que cuida hoje das nações indígenas foi criado em 5 de dezembro de
1967.
- Existem aproximadamente 200 grupos indígenas
identificados. Mas os dez mais numerosos representam 43% de todo o contingente
indígena brasileiro, que reúne 325.652 indivíduos. A maior parte (89.529) mora
na Amazônia.
- A Funai calcula que, além das tribos já
conhecidas, há em torno de 55 grupos totalmente isolados,
todos em áreas remotas da Amazônia. Em junho de 1998, na divisa do Brasil com o
Peru, uma equipe da Funai vislumbrou entre a copa das árvores doze malocas de
uma tribo indígena até então completamente desconhecida.
- A Amazônia é a última região do planeta onde
ainda vivem grupos humanos desconhecidos. Vivem em estágio bastante primitivo,
caçando, pescando e, em alguns casos, cultivando pequenas roças. Essas tribos
recebem da Funai a vaga denominação de “índios isolados”.
- Pelo Código Civil, o índio
não tem direito à propriedade da terra das reservas. Ele tem a posse e o
direito de usar o que nela existir (água, flora, fauna e minérios).
Ritual de canibalismo. Imagem: Guia dos Estudantes.
- Canibalismo ou antropofagia consiste no ato de comer a carne de
seres da mesma espécie. O termo vem da língua arawan,
falada por uma tribo indígena da América do Sul. A prática, conforme afirmam
estudiosos e arqueólogos, era comum em comunidades primitivas ao redor do
mundo.
- Na época em que os portugueses chegaram ao Brasil,
havia no país diversas tribos de índios canibais. Entre elas estavam os
tupinambá, os potiguares, os caetés, os aimorés, os goitacás e os tamoios. Eles
devoravam seus inimigos por vingança e acreditavam que, comendo seu corpo,
adquiriam seu poder.
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