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domingo, 18 de outubro de 2026

O capitalismo: origem, transformações e impactos na vida da população

Quando vamos ao supermercado, usamos o celular, compramos uma roupa ou ligamos um eletrodoméstico, nem sempre paramos para pensar em como esses produtos são fabricados, de onde vêm e como chegam até nós. Por trás dessas situações tão comuns existe um sistema econômico que transformou profundamente a sociedade nos últimos séculos: o capitalismo. Ele influencia a maneira como produzimos, trabalhamos, compramos e organizamos boa parte da nossa vida. Para compreender o mundo em que vivemos, precisamos conhecer como esse sistema surgiu, como se desenvolveu e quais mudanças trouxe para a humanidade.

O capitalismo é um sistema econômico baseado na propriedade privada, na produção de mercadorias, no trabalho assalariado e na busca pelo lucro. Isso significa que pessoas e empresas podem possuir terras, fábricas, máquinas e outros meios de produção, investir dinheiro em atividades econômicas e vender seus produtos ou serviços. Em geral, as empresas procuram produzir com eficiência, conquistar clientes e obter lucros. Essa busca pode estimular a criação de novos produtos, o aperfeiçoamento das máquinas e o desenvolvimento de tecnologias. Porém, também pode provocar disputas, concentração de riqueza e desigualdades, principalmente quando não existem regras suficientes para proteger os trabalhadores e os consumidores.

Para entender a origem do capitalismo, precisamos voltar ao final da Idade Média e ao início da Idade Moderna. Na Europa, as cidades cresceram, o comércio se expandiu e os comerciantes passaram a acumular riquezas cada vez maiores. Entre os séculos XV e XVIII, o mercantilismo foi uma das principais práticas econômicas das monarquias europeias. Os governos procuravam fortalecer seus reinos, controlar o comércio, acumular metais preciosos e conquistar colônias. As grandes navegações ampliaram as rotas comerciais e aproximaram diferentes partes do mundo, favorecendo a circulação de mercadorias e capitais.

No século XVIII, o economista escocês Adam Smith tornou-se um dos pensadores mais conhecidos da economia moderna. Em seu livro A riqueza das nações, publicado em 1776, ele explicou como a divisão do trabalho poderia aumentar a produção. Imagine uma oficina em que uma única pessoa precisa realizar todas as etapas da fabricação de um produto. Agora imagine várias pessoas, cada uma responsável por uma etapa. Com a especialização, o trabalho pode ser realizado mais rapidamente e a produção pode aumentar. Essa ideia ajuda a compreender por que as empresas capitalistas passaram a procurar maneiras de fabricar mais produtos em menos tempo. Smith também defendia a importância da liberdade econômica, embora reconhecesse responsabilidades do Estado, como a manutenção da justiça e de obras públicas.

Uma das maiores transformações da história do capitalismo aconteceu com a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII. Até então, muitos produtos eram fabricados manualmente, em oficinas ou nas próprias casas dos trabalhadores. Com o desenvolvimento das máquinas e das fábricas, a produção começou a mudar rapidamente. A máquina a vapor, aperfeiçoada por inventores como James Watt, passou a ser utilizada em diferentes atividades, enquanto a indústria têxtil ganhou força. As mercadorias podiam ser fabricadas em quantidades muito maiores, e os transportes também foram transformados com a expansão das ferrovias e dos navios a vapor.

Pensemos no que isso significou para a sociedade. Uma fábrica conseguia produzir em poucas horas aquilo que, em determinadas situações, levaria muito mais tempo para ser feito manualmente. Com o passar dos anos, a produção em grande escala contribuiu para ampliar a oferta de roupas, ferramentas, utensílios e muitos outros produtos. O comércio cresceu, as cidades industriais se expandiram e novas atividades profissionais surgiram. Mas não devemos imaginar que a vida de todos melhorou imediatamente. Nas primeiras fábricas, muitos trabalhadores enfrentavam jornadas longas, salários baixos e condições perigosas. Mulheres e crianças também trabalhavam em situações bastante difíceis. Muitas famílias viviam em bairros pobres, com moradias inadequadas e pouco acesso à água tratada e ao saneamento.

No século XIX, o capitalismo industrial se espalhou por outras regiões da Europa e pelos Estados Unidos. A indústria passou a produzir cada vez mais ferro, aço, máquinas e equipamentos, enquanto as empresas procuravam novos mercados para vender seus produtos. A busca por matérias-primas e consumidores também contribuiu para a expansão imperialista das potências europeias sobre territórios da África e da Ásia. Ao mesmo tempo, crescia o número de trabalhadores que dependiam do salário para sobreviver.

No final do século XIX e no início do século XX, novas mudanças aconteceram. A eletricidade e o petróleo ganharam importância, os automóveis se desenvolveram e as fábricas aperfeiçoaram suas formas de produção. Um dos nomes mais conhecidos desse período é Henry Ford, empresário que ajudou a popularizar o uso da linha de montagem na fabricação de automóveis. Nesse sistema, cada trabalhador realizava uma etapa específica da produção, enquanto o produto avançava pela linha de montagem. Dessa maneira, os automóveis podiam ser fabricados em maior quantidade e, com o tempo, tornaram-se acessíveis a um número maior de consumidores. Esse modelo também foi utilizado em outros setores industriais.

Apesar do crescimento da produção, o capitalismo continuou enfrentando crises. Em 1929, uma grave crise econômica começou nos Estados Unidos e se espalhou por diferentes partes do mundo. Empresas fecharam, bancos faliram e milhões de pessoas perderam seus empregos. A crise mostrou que produzir e vender mercadorias não garantia, por si só, uma economia estável. Quando empresas reduzem seus investimentos e as pessoas perdem renda, o consumo cai, o que pode provocar novas demissões e aprofundar as dificuldades.

Nesse contexto, ganhou destaque o economista britânico John Maynard Keynes. Ele defendia que, em períodos de crise, o governo poderia investir na economia, realizar obras públicas e adotar medidas para estimular o emprego e o consumo. Suas ideias influenciaram políticas econômicas de vários países. Depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, muitas nações capitalistas ampliaram os serviços públicos e a proteção social. Em diferentes lugares, cresceram os investimentos em educação, saúde, previdência e direitos trabalhistas. Esse modelo ficou conhecido como Estado de bem-estar social. A proposta era permitir que a economia continuasse produzindo e gerando riquezas, mas sem deixar toda a responsabilidade pela sobrevivência das pessoas nas mãos do mercado.

A partir das décadas de 1970 e 1980, ganharam força políticas conhecidas como neoliberais. Seus defensores, entre eles o economista Milton Friedman, defendiam maior liberdade para os mercados, ampliação da concorrência, abertura comercial e privatização de determinadas empresas estatais. Essas medidas foram adotadas de formas diferentes em vários países. Em algumas situações, favoreceram investimentos e mudanças na economia; em outras, contribuíram para enfraquecer certas proteções sociais e aumentar a insegurança de trabalhadores. Isso nos mostra que o capitalismo não permaneceu igual ao longo da História. Ele passou por diferentes fases e assumiu características variadas conforme as decisões dos governos, as disputas políticas e as condições de cada sociedade.

Hoje, vivemos em um mundo marcado pela globalização e pela tecnologia digital. Um produto pode ser planejado em um país, fabricado em outro e vendido em dezenas de lugares diferentes. A internet permite realizar compras, estudar, trabalhar e conversar com pessoas que estão muito distantes. Os computadores, os celulares e a inteligência artificial estão modificando profissões e criando novas atividades. Ao mesmo tempo, algumas funções tradicionais estão desaparecendo ou sendo transformadas, e muitos trabalhadores enfrentam empregos temporários, baixos salários ou falta de segurança profissional. Grandes empresas de tecnologia também passaram a concentrar muito poder econômico. Assim, o capitalismo atual oferece novas oportunidades, mas também apresenta problemas que precisam ser enfrentados.

Como o capitalismo contribuiu para melhorar as condições de vida?

Uma das mudanças mais importantes ocorridas nos últimos séculos foi o aumento da expectativa de vida. No passado, muitas pessoas morriam ainda jovens por causa de doenças, infecções, falta de saneamento e alimentação insuficiente. Atualmente, em grande parte do mundo, as pessoas vivem muito mais tempo do que as gerações anteriores. A expectativa de vida mundial, que era de aproximadamente 32 anos em 1900, chegou a cerca de 73 anos em 2023. Essa transformação não foi obra exclusiva do capitalismo. Ela resultou de avanços da medicina, da ciência, da vacinação, dos antibióticos, da água tratada, do saneamento e das políticas públicas de saúde. Entretanto, o crescimento econômico e a capacidade de produzir medicamentos e equipamentos em grande escala ajudaram a tornar muitos desses avanços possíveis e a ampliar seu alcance.

Também mudou bastante o acesso aos bens de consumo. Pensemos nos objetos que hoje fazem parte do cotidiano de muitas famílias: geladeira, fogão, máquina de lavar, televisão, computador e telefone celular. Muitos desses produtos eram caros ou inexistentes para grande parte da população há algumas gerações. A produção industrial em grande escala, a concorrência e as inovações tecnológicas ajudaram a reduzir o custo de vários produtos e a torná-los mais acessíveis. Esses bens podem facilitar as tarefas domésticas, conservar alimentos, aproximar pessoas e ampliar o acesso à informação. É claro que nem todas as famílias possuem as mesmas condições de consumo, mas não há dúvida de que a variedade de produtos disponíveis mudou profundamente a vida cotidiana.

Na saúde e na educação, também podemos perceber a importância do crescimento econômico. Uma sociedade que produz mais riquezas tem maiores possibilidades de construir hospitais, escolas, universidades, redes de saneamento e sistemas de transporte. Empresas privadas participam do desenvolvimento de medicamentos, equipamentos e novas tecnologias, enquanto universidades e instituições públicas realizam pesquisas e formam profissionais. Mas existe uma diferença entre produzir algo e garantir que todos tenham acesso a ele. Um medicamento pode existir e ainda assim ser caro demais para uma família. Um hospital pode possuir equipamentos modernos, mas atender a uma região onde faltam profissionais e recursos. É por isso que os serviços públicos e as políticas sociais têm tanta importância.

Outro exemplo é a produção de alimentos. Máquinas agrícolas, sistemas de irrigação, fertilizantes, pesquisas científicas e melhorias no transporte aumentaram a capacidade de produzir e distribuir alimentos em muitas regiões. Isso contribuiu para abastecer cidades que cresceram muito ao longo do tempo. Mesmo assim, a fome continua existindo em diversas partes do mundo. Se há capacidade de produzir tantos alimentos, por que algumas pessoas ainda passam fome? A resposta envolve a pobreza, a desigualdade, os conflitos, o desperdício e a dificuldade de acesso à terra e aos alimentos. Produzir mais é importante, mas também precisamos discutir como os recursos são distribuídos.

O que ainda precisa melhorar no capitalismo?

Apesar de todos os avanços, a sociedade atual continua enfrentando grandes desafios. Um deles é a desigualdade econômica. Existem pessoas que acumulam grandes fortunas, enquanto outras têm dificuldades para pagar o aluguel, comprar alimentos ou conseguir atendimento médico. O problema não está simplesmente no fato de alguém abrir uma empresa ou obter lucro, mas na possibilidade de a riqueza e o poder ficarem concentrados nas mãos de poucos, sem que o restante da sociedade tenha oportunidades suficientes. Uma economia mais justa precisa oferecer condições para que as pessoas estudem, trabalhem, empreendam e tenham acesso a serviços essenciais.

Outro desafio é garantir salários dignos e condições adequadas de trabalho. Quem trabalha deve ter condições de sustentar a família, descansar, cuidar da saúde e participar da vida em sociedade. Para isso, são importantes o cumprimento das leis trabalhistas, a proteção contra acidentes, o combate à exploração e a valorização profissional. Com o avanço da inteligência artificial e da automação, também será necessário preparar os trabalhadores para novas funções e pensar em maneiras de evitar que os benefícios da tecnologia fiquem concentrados apenas nas mãos dos proprietários das empresas.

A proteção do meio ambiente é igualmente necessária. A produção industrial e o consumo podem gerar poluição, desmatamento e desperdício de recursos naturais. Não podemos esquecer que a economia depende da natureza para obter água, alimentos, energia e matérias-primas. Se o desenvolvimento destruir essas condições, as consequências serão sentidas por toda a sociedade. Por isso, empresas e governos precisam investir em energias menos poluentes, transporte coletivo, reciclagem, saneamento e formas responsáveis de produzir e consumir.

Ao estudar a história do capitalismo, percebemos que ele não permaneceu igual desde o surgimento do comércio moderno. Passou pela industrialização, pelas grandes fábricas, pelas crises econômicas, pela ampliação dos direitos sociais e pela atual economia digital. Nesse percurso, a capacidade de produzir riquezas e desenvolver tecnologias cresceu enormemente, contribuindo para melhorar muitos aspectos da vida humana. Entretanto, a pobreza, a desigualdade e a exploração não desapareceram. O grande desafio é fazer com que o desenvolvimento econômico beneficie um número cada vez maior de pessoas. Afinal, uma sociedade não deve ser considerada desenvolvida apenas porque produz muitas mercadorias ou possui grandes empresas, mas também porque oferece condições dignas de vida, oportunidades e respeito aos direitos de sua população.

Você quer saber mais?

SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

HAYEK, Friedrich August von. O caminho da servidão. 6. ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

sábado, 17 de outubro de 2026

Homoteísmo e egoteísmo: quando o homem pretende ocupar o lugar de Deus

Ao longo da História, o ser humano sempre procurou compreender seu lugar no mundo e sua relação com Deus. Para o cristianismo, o homem possui inteligência, liberdade e dignidade, mas continua sendo uma criatura diante do Criador. O problema começa quando essas capacidades humanas deixam de ser compreendidas como dons e passam a ser vistas como suficientes para explicar toda a existência, determinar o que é certo e errado e estabelecer os próprios limites da vida moral. É justamente essa mudança de perspectiva que aparece na crítica de Monsenhor Henri Delassus, em sua obra A Conjuração Anticristã, na qual o autor denuncia aquilo que considera uma tentativa de afastar Deus do centro da vida humana.

Ao tratar desse assunto, Delassus recorre ao pensamento do dominicano Albert Maria Weiss e menciona duas expressões que ajudam a compreender sua crítica: homoteísmo e egoteísmo. O primeiro é atribuído a Léo Berg, enquanto o segundo é associado a Kircher. Embora seja necessário cuidado ao interpretar esses termos, a ideia apresentada é bastante significativa: o homem pode chegar a uma situação em que deixa de reconhecer Deus como referência suprema e passa a colocar a humanidade ou a si mesmo nessa posição.

O homoteísmo pode ser entendido como a tendência de elevar a humanidade à condição de referência máxima da existência. Nessa perspectiva, a razão humana, o progresso e a capacidade de transformar o mundo passam a ocupar o lugar que, na visão cristã, pertence a Deus. O homem acredita cada vez mais em suas próprias capacidades e pode chegar a considerar que não precisa de nenhuma autoridade superior para orientar sua vida ou estabelecer os princípios que devem reger a sociedade. É nesse ponto que a crítica de Delassus ganha força: o problema não está em reconhecer as conquistas humanas, mas em transformar o próprio homem na medida absoluta de todas as coisas, como se não existissem limites morais ou verdades que ultrapassassem sua vontade.

O egoteísmo leva essa questão para o plano individual. Se, no homoteísmo, é a humanidade que ocupa o centro, no egoteísmo é o próprio eu que assume essa posição. O indivíduo passa a confiar tanto em suas opiniões, desejos e decisões que deixa de admitir qualquer princípio acima de si. Sua vontade torna-se a medida do certo e do errado, e tudo aquilo que contraria seus interesses pode ser visto como uma limitação injustificada de sua liberdade. Sob a perspectiva cristã defendida por Delassus, essa postura representa um afastamento de Deus e também um risco para a própria convivência humana, pois uma liberdade que não reconhece responsabilidades pode facilmente transformar-se em orgulho, egoísmo e desprezo pelos outros.

Percebe-se, assim, que as duas ideias se aproximam, embora não sejam idênticas. O homoteísmo coloca a humanidade no centro; o egoteísmo coloca o indivíduo nessa posição. Em ambos os casos, a preocupação de Delassus é com a possibilidade de o homem se considerar independente de qualquer ordem moral superior. Em vez de reconhecer que sua inteligência e sua liberdade devem ser acompanhadas de responsabilidade, ele passa a agir como se fosse o senhor absoluto de sua própria existência. Para o autor, essa transformação não é apenas uma questão filosófica, mas também religiosa, pois modifica a maneira como o homem compreende sua relação com Deus.

Essa discussão continua importante porque a valorização exagerada do indivíduo e a confiança ilimitada no progresso humano podem alimentar a ideia de que tudo depende exclusivamente da vontade do homem. Quando isso acontece, questões fundamentais sobre o bem, o mal, a justiça e o sentido da vida correm o risco de ser reduzidas às opiniões e aos interesses de cada época. A crítica de Delassus convida, portanto, à reflexão sobre os limites da autonomia humana e sobre o perigo de uma sociedade que, em nome de sua própria capacidade, passe a considerar desnecessária qualquer referência à transcendência.

Entretanto, é preciso fazer uma distinção. Valorizar a razão, defender a liberdade, reconhecer os direitos humanos ou acreditar no progresso não significa necessariamente querer substituir Deus. Uma pessoa pode defender a autonomia individual e as conquistas da ciência sem abandonar a fé, assim como pode reconhecer a dignidade humana sem transformar o homem em uma espécie de divindade. O próprio pensamento cristão atribui importância à inteligência, à liberdade e à responsabilidade moral. Por isso, a crítica de Delassus é mais adequada quando dirigida à pretensão de tornar o ser humano uma autoridade absoluta, e não a toda forma de humanismo, individualismo ou valorização da razão.

No fundo, a questão levantada por esses conceitos é simples, mas profunda: reconhecer o valor do ser humano é diferente de colocá-lo no lugar de Deus. A crítica de Delassus procura mostrar que, quando o homem se considera a única medida da verdade e da moral, corre o risco de perder de vista os limites de sua própria condição. Ao mesmo tempo, compreender essa crítica exige distinguir a exaltação absoluta do indivíduo ou da humanidade da legítima valorização da dignidade, da liberdade e da capacidade humana de construir uma sociedade mais justa.

Você quer saber mais?

DELASSUS, Henri. La conjuration antichrétienne: le temple maçonnique voulant s'élever sur les ruines de l'Église catholique. Lille: Desclée, De Brouwer et Cie, 1910. v. 3.

WEISS, Albert Maria. Die religiöse Gefahr. 2. ed. Freiburg im Breisgau: Herder, 1904.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Bullying: a crueldade disfarçada de brincadeira

A língua portuguesa possui palavras capazes de expressar boa parte daquilo que hoje conhecemos como bullying: intimidação, humilhação, perseguição e escárnio. Entre elas, a expressão intimidação sistemática é uma denominação precisa para a prática repetida de constranger, humilhar, ameaçar ou excluir alguém. Entretanto, independentemente do nome utilizado, o problema permanece o mesmo: pessoas que encontram satisfação em diminuir outras pessoas, muitas vezes escondendo suas atitudes atrás de uma suposta brincadeira.

Nem toda brincadeira é ofensiva, assim como nem todo comentário desagradável constitui, isoladamente, bullying. A questão está na intenção, na repetição, no contexto e nas consequências. Quando alguém se torna alvo frequente de piadas, apelidos humilhantes, exclusão ou constrangimentos, enquanto os demais se divertem com seu sofrimento, deixa de existir uma relação saudável. O que alguns chamam de humor pode representar, para outra pessoa, uma experiência de desrespeito, solidão e perda de confiança.

Para compreender por que esse comportamento existe, é necessário observar diferentes aspectos da natureza humana e da vida em sociedade. Do ponto de vista psicológico, algumas pessoas procuram diminuir os outros para compensar suas próprias inseguranças, conquistar reconhecimento ou esconder sentimentos de inferioridade. Outras aprendem que a agressividade proporciona popularidade, poder ou aceitação. Isso não significa que toda pessoa que pratica intimidação tenha necessariamente problemas psicológicos, nem que suas atitudes possam ser justificadas por suas experiências pessoais. Compreender as causas de um comportamento é importante para enfrentá-lo, mas compreender não significa desculpar.

Existe também um componente social. O ser humano é um ser de convivência, que busca pertencimento, reconhecimento e aceitação. Desde cedo, aprende comportamentos observando a família, os colegas, as figuras de autoridade e os grupos dos quais participa. Em determinados ambientes, rir da dificuldade alheia pode se transformar em uma espécie de senha para pertencer ao grupo. Quem participa das zombarias demonstra que está do lado dos mais populares; quem se cala evita tornar-se o próximo alvo; e quem tenta defender a vítima corre o risco de ser excluído. Assim, a crueldade individual pode se transformar em um costume coletivo, sustentado tanto por quem agride quanto por quem assiste e prefere não se posicionar.

Esse mecanismo se aproxima do comportamento tribal, entendido aqui como a tendência de proteger os integrantes do próprio grupo e desconfiar, rejeitar ou ridicularizar aqueles que parecem diferentes. A diferença pode estar na aparência, na maneira de falar, nas condições econômicas, nas dificuldades de aprendizagem, nas opiniões, nas crenças ou simplesmente no jeito de ser. Quando a necessidade de pertencer se torna mais importante do que a consciência, o indivíduo passa a aceitar atitudes que talvez considerasse injustas se fossem praticadas contra alguém de sua própria família.

É preciso distinguir a liberdade de expressão da liberdade de humilhar. O humor pode questionar o poder, denunciar injustiças e aproximar as pessoas, mas também pode servir para reforçar preconceitos e estabelecer hierarquias. Rir com alguém é diferente de rir de alguém, especialmente quando essa pessoa não tem condições de se defender ou quando sua dor se torna o entretenimento de um grupo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos podem falar qualquer coisa sem considerar as consequências, mas aquela em que as pessoas podem se expressar sem que a dignidade alheia seja tratada como algo sem valor.

O mesmo princípio vale para a fé e os valores morais. Muitas pessoas falam sobre Deus, fraternidade, caridade, amor ao próximo e dignidade humana. Participam de celebrações, conhecem ensinamentos religiosos e defendem publicamente princípios elevados. Contudo, a verdadeira medida desses valores não está apenas nas palavras pronunciadas ou nos rituais realizados, mas na maneira como tratamos as pessoas quando não há aplausos, reconhecimento ou qualquer vantagem pessoal. Uma fé que não desperta compaixão, humildade e disposição para ajudar corre o risco de se tornar apenas uma declaração exterior, distante da transformação interior que deveria inspirar.

A empatia, nesse sentido, não consiste em sentir pena de alguém nem em concordar com todas as suas ideias. Significa reconhecer que o outro possui sentimentos, limites, dificuldades e uma história que nem sempre conhecemos. Significa pensar antes de falar, perceber quando uma brincadeira ultrapassa o limite e compreender que aquilo que parece insignificante para uma pessoa pode representar uma experiência dolorosa para outra. Empatia é também a capacidade de discordar sem desumanizar, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem destruir a dignidade de ninguém.

É nesse ponto que precisamos refletir sobre uma palavra frequentemente utilizada, mas nem sempre compreendida em sua profundidade: humanidade. Fala-se em direitos humanos, solidariedade e respeito à vida, mas o que significa, na prática, reconhecer a humanidade de alguém? Significa reconhecer que o valor de uma pessoa não depende de sua inteligência, de sua aparência, de sua produtividade, de sua popularidade ou de sua capacidade de responder às expectativas dos demais. Significa entender que alguém com dificuldades merece apoio, que uma pessoa tímida não deve ser transformada em motivo de piada, que quem aprende em outro ritmo precisa de compreensão e que aquele que pensa diferente continua tendo direito ao respeito.

O combate à intimidação, portanto, não se resolve apenas com cartazes, campanhas ou discursos ocasionais. É necessário estabelecer regras claras, ouvir quem sofre, apurar situações com seriedade, proteger as vítimas, responsabilizar os envolvidos de maneira educativa e acompanhar os resultados. A prevenção precisa fazer parte da convivência diária. Famílias, escolas, instituições religiosas, comunidades e autoridades devem compreender que o exemplo cotidiano ensina tanto quanto qualquer explicação formal. Não basta condenar publicamente a violência se, no convívio diário, a humilhação continua sendo tolerada quando parte de alguém considerado importante.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja por que algumas pessoas gostam de zombar das outras, mas por que tantas comunidades ainda encontram justificativas para tolerar esse comportamento. Enquanto a popularidade valer mais do que a bondade, o silêncio parecer mais conveniente do que a defesa de alguém e as palavras forem consideradas mais importantes do que as atitudes, continuaremos falando sobre humanidade sem conseguir praticá-la plenamente.

A verdadeira grandeza de uma pessoa não se revela na facilidade com que consegue fazer os outros rirem, mas na consciência que possui para não transformar ninguém em motivo de sofrimento. Respeitar o outro quando ele é forte, admirado e semelhante a nós pode ser fácil. O verdadeiro teste de caráter acontece quando precisamos respeitar quem é diferente, quem está aprendendo, quem enfrenta dificuldades ou quem não possui condições de retribuir nossa gentileza.

Você quer saber mais?

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Fontanar, 2008.

ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más. Rio de Janeiro: Record, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin-Companhia, 2011.

sábado, 10 de outubro de 2026

A religião, a cultura e a história do povo Xokleng

 O povo Xokleng, também conhecido como Laklãnõ, possui uma longa história ligada principalmente à região que hoje corresponde ao estado de Santa Catarina. Durante muito tempo, seus antepassados viveram em áreas de florestas, onde praticavam a caça, a coleta de frutos e outras atividades necessárias à sobrevivência. Conheciam profundamente a natureza e utilizavam os recursos disponíveis para produzir objetos, construir abrigos e alimentar suas famílias. Assim como outros povos indígenas do Brasil, os Xokleng desenvolveram uma cultura própria, com língua, costumes, conhecimentos e tradições transmitidos de geração em geração. A vida em comunidade era importante para a organização social, e os conhecimentos dos mais velhos ajudavam a preservar a memória e a identidade do povo.

A história dos Xokleng foi profundamente marcada pela chegada dos colonizadores e pela ocupação de seus territórios. Durante o século XIX e o início do século XX, a expansão da colonização em Santa Catarina provocou conflitos violentos, mortes e a perda de terras indígenas. Os Xokleng resistiram durante muito tempo à ocupação de seus territórios, procurando defender suas famílias e seu modo de vida. No início do século XX, a atuação de agentes ligados à política indigenista brasileira contribuiu para estabelecer contatos com grupos Xokleng, mas esse processo ocorreu em meio a grandes pressões sobre suas comunidades. Mais tarde, a construção da Barragem Norte, iniciada na década de 1970 no Vale do Itajaí, provocou novos impactos sobre as terras e a vida das comunidades indígenas. Apesar dessas dificuldades, o povo Xokleng continuou lutando pela preservação de sua cultura e pelo reconhecimento de seus direitos.

A cultura Xokleng apresenta conhecimentos tradicionais relacionados à floresta, aos animais, às plantas e aos ciclos da natureza. A caça, a coleta e a utilização de diferentes materiais vegetais tiveram grande importância em sua história. A produção de objetos para o cotidiano e a transmissão de conhecimentos sobre o ambiente demonstram a capacidade desse povo de viver em estreita relação com o território. A língua Xokleng, pertencente à família linguística Jê, é um dos elementos fundamentais de sua identidade. Atualmente, há esforços para preservar e fortalecer seu uso, especialmente entre as novas gerações. As histórias contadas pelos mais velhos, os costumes familiares e as práticas comunitárias também contribuem para manter viva a memória dos antepassados.

A religiosidade Xokleng está relacionada às suas próprias tradições, às concepções sobre a vida e a morte e à relação com o mundo natural e espiritual. Como acontece com outros povos indígenas, suas crenças tradicionais foram transmitidas principalmente pela oralidade, por meio de narrativas, ensinamentos e práticas culturais. Entretanto, é importante compreender que nem todas as tradições religiosas antigas foram registradas com detalhes pelos pesquisadores. Ao longo do tempo, o contato com a sociedade não indígena e com diferentes grupos cristãos também provocou mudanças nas práticas religiosas de parte das comunidades. Por isso, não se deve imaginar que todos os Xokleng possuem atualmente as mesmas crenças ou realizam as mesmas cerimônias. Cada comunidade e cada família podem apresentar experiências e formas diferentes de expressar sua espiritualidade.

Atualmente, os Xokleng, também chamados de Laklãnõ-Xokleng, continuam presentes em Santa Catarina, especialmente no território indígena associado à região de Ibirama. Suas comunidades trabalham para preservar a língua, valorizar os conhecimentos dos antepassados e transmitir sua história às crianças e aos jovens. Além das questões culturais, enfrentam desafios relacionados à proteção de suas terras, à educação e ao reconhecimento de seus direitos. Conhecer a trajetória desse povo é importante para compreender que a história do Brasil não foi construída apenas pelos colonizadores, mas também pela resistência e pela participação dos povos indígenas. Estudar a história, a cultura e a religiosidade Xokleng é uma forma de reconhecer sua importância e respeitar a diversidade dos povos originários do nosso país.

Você quer saber mais?

SANTOS, Silvio Coelho dos. Índios e brancos no Sul do Brasil: a dramática experiência dos Xokleng. Florianópolis: Edeme, 1973.

WIIK, Flávio Braune. O contingente indígena Xokleng: uma análise antropológica. Para aprofundar o tema, também são relevantes os estudos acadêmicos do autor sobre identidade, cultura e transformações sociais entre os Laklãnõ-Xokleng.

A sociedade e a cultura Kaingang

 Os Kaingang são um dos principais povos indígenas do Brasil e possuem uma longa história, especialmente na Região Sul do país. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná e em São Paulo, existem comunidades que preservam suas tradições e continuam lutando pelo reconhecimento de seus direitos. A sociedade Kaingang possui uma organização própria, construída ao longo de muitas gerações, baseada nos laços familiares, na vida comunitária e no respeito aos mais velhos. Tradicionalmente, as crianças aprendem com suas famílias os costumes, as histórias e os conhecimentos de seu povo. Os ensinamentos são transmitidos por meio da convivência, das atividades cotidianas e das narrativas contadas pelos mais velhos, que têm um papel importante na preservação da memória e da cultura.

Uma característica marcante da sociedade Kaingang é sua organização tradicional em duas metades chamadas Kamé e Kairu. Essa divisão está relacionada às histórias de origem desse povo e influencia aspectos do parentesco, das relações sociais e de suas manifestações culturais. Cada metade possui símbolos e características próprias, que podem aparecer nas pinturas corporais e nos grafismos tradicionais. A língua Kaingang pertence à família linguística Jê, do tronco Macro-Jê, e continua sendo falada em diferentes comunidades. A preservação dessa língua é fundamental, pois ela guarda conhecimentos e maneiras de compreender o mundo que foram transmitidos de geração em geração.

A relação com a natureza também ocupa um lugar importante na cultura Kaingang. Antigamente, a caça, a pesca, a coleta de frutos e a agricultura faziam parte da sobrevivência das comunidades. Entre os alimentos tradicionais, destaca-se o pinhão, semente da araucária, árvore muito presente nas paisagens do Sul do Brasil. O conhecimento sobre as plantas, os animais e as mudanças das estações ajudava os Kaingang a organizar suas atividades e aproveitar os recursos disponíveis. O artesanato também faz parte de sua cultura, especialmente a confecção de cestos e outros objetos feitos com fibras vegetais. Além de sua utilidade no cotidiano, essas produções podem expressar conhecimentos, tradições e a identidade de cada comunidade.

As festas e as cerimônias tradicionais também possuem grande importância. Entre as práticas culturais Kaingang, destaca-se o Kikikoi, uma cerimônia tradicional relacionada à memória e à homenagem aos mortos, que reúne elementos religiosos e comunitários. Sua realização varia conforme a comunidade e as condições para manter essa tradição. As histórias de origem, os cantos, as pinturas corporais e os conhecimentos dos antepassados ajudam a fortalecer os vínculos entre as pessoas e a manter viva a cultura do povo.

Ao longo da história, os Kaingang enfrentaram conflitos com os colonizadores, perderam parte de seus territórios e sofreram pressões para abandonar seus costumes. Mesmo assim, continuaram preservando aspectos importantes de sua identidade e transmitindo seus conhecimentos às novas gerações. Atualmente, os Kaingang estudam, trabalham e participam de diferentes atividades da sociedade brasileira, mantendo suas tradições e reivindicando o respeito aos seus direitos. Conhecer a sociedade e a cultura Kaingang é compreender que os povos indígenas possuem histórias próprias e continuam contribuindo para a diversidade cultural do Brasil.

Você quer saber mais?

Referências bibliográficas

VEIGA, Juracilda. Aspectos fundamentais da cultura Kaingang. Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2006.

TOMMASINO, Kimiye; MOTTA, Lúcio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva (org.). Uri e Wãxi: estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2000.