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domingo, 26 de janeiro de 2020

Resenha crítica do livro “O Homem do Castelo Alto” de Philip K. Dick



Autor: Leandro Claudir Pedroso

            Anteriormente já realizei algumas resenhas e postei aqui no Construindo História Hoje, mas estou analisando uma ideia de torna isto mais frequente, e nesta nova visão trago a obra de Philip K. Dick (1928-1982), “O Homem do Castelo Alto”. É uma distopia escrita em 1962 que apresenta um mundo aonde o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial e trás todas as consequências que isso ocasionaria. Admito que meu primeiro contato com a obra foi por meio da série disponível no Amazon Prime, mas a série é uma adaptação do livro que explorou muito bem a ideia original de Dick, desenvolvendo diversos aspectos de um mundo governado pelo Império japonês e o Reich alemão que não foram explorados no livro. Particularmente ler esta obra serviu-me para ratificar minha visão do terror que teria sido um mundo governado pela paranoia psicótica nazista, pois seria um lugar que se definiria bem como um “sepulcro caiado”, belo na aparência e podre no interior. Repleto de avanços tecnológicos, mas lhes faltando humanidade. Ah!, já vou avisando que aqui você encontrará informações sobre a história, então se quiser conhecer a obra primeiro fique a vontade antes de ler, mas se sua curiosidade for maior, apoio e tenha uma boa leitura aqui!

O Eixo vence a Segunda Guerra Mundial

            A vitória do Eixo na Segunda Guerra Mundial se deu em 1947, após a rendição dos Estados Unidos, mas este evento culminou devido a uma série de acontecimentos que divergem de nosso mundo, que levaram ao fracasso dos Aliados. Um desses eventos foi o assassinato do presidente Franklin Delano Roosevelt em 1933, na cidade Miami por Giuseppe Zangara, a serviço do sindicato do crime de Chicago que teriam utilizado seus afãs anticapitalistas.  Os presidentes que o seguiram não conseguiram vencer a Grande Depressão, e assumiram uma postura isolacionista com a chegada da Guerra Mundial, pois não tiveram condições econômicas para auxiliar a Inglaterra e a União Soviética contra os nazistas. Estas políticas deixaram os Estados Unidos em uma situação de debilidade militar. Não houve a política antinazista de Roosevelt e os nazistas puderam auxiliar os japoneses em 1941. Em Pearl Harbor a frota do Pacifico dos Estados Unidos é totalmente destruída pelos japoneses, neste mesmo ano o Pacifico caí nas mãos dos japoneses. Na África Rommel vence as tropas inglesas e reúne as forças alemãs que desceram da Rússia, lideradas por Von Paulus, dominando o Oriente Médio e tendo o petróleo necessário para chegar até a Índia e encontrar-se com os japoneses. Estes eventos auxiliam o aumento da capacidade militar japonesa, que invadem o Havaí, Nova Zelândia e Austrália, até 1941e culminando com a invasão dos oeste dos Estados Unidos que capitula 1947 nas mãos dos japoneses e o leste 1948, nas mãos dos alemães! Desde então, Japão e Alemanha encontram-se em algo semelhante à Guerra Fria, pois ambas estão armadas com ogivas nucleares e os alemães possuem inclusive a bomba de Hidrogênio.


Personagens

            A história gira em torno de alguns personagens centrais, como o preconceituoso e racista Sr. Robert Childan (que na série televisiva tem sua personalidade racista amenizada), proprietário de um antiquário, a American Artistic Handcrafts Inc. especializada em atender japoneses, ele é submisso a eles por interesse, mas os considera inferiores, acredita que a “raça” branca é superior e a única dotada do “dom” de criar. O Sr. Nobusuke Tagomi, representante do ministério do comércio do Japão em San Francisco e cliente de R. Childan. O judeu Frank Frink, funcionário da Wyndham-Matson Corporation que realiza reproduções de peças de época americana e as vende muitas vezes para antiquários como peças originais, que após sua demissão faz uma sociedade com seu amigo Ed McCarthy na criação de peças de arte atual americana, que acabarão sendo consideradas espiritualmente vivas pelo Sr. Tagomi.  Outra protagonista importante é Juliana Frink, ex-mulher de Frank, ela é professora de judô e da qual falarei um pouco mais a frente. Hawthorne Abendsen, escritor do livro banido “O gafanhoto se torna pesado”, um homem misterioso que baseia seu livro em um mundo aonde os Aliados venceram a Segunda Guerra. Capitão Rudolf Wegener, membro da Abwehr, a Contraespionagem naval do Reich, que atua com o pseudônimo de Mr. Baynes, um rico industriário sueco a negócios nos Estados do Pacifico.        Bruno Kreuz von Meere, chefe regional da SD, que está atrás de Baynes. Freiherr Hugo Reisss, cônsul do Reich em San Francisco, que junto a Meere estão atrás de Baynes. General Tedeki, ex-Chefe do Estado-Maior Imperial do Japão, acredita que Rudolf Wegener (Sr. Baynes) tenha  informações importantes para o Império.

            O enredo se baseia em personagens presentes nos Estados Americanos do Pacifico (PSA), principalmente na cidade de São Francisco, governados pelo Império do Japão e nos Estados das Montanhas Rochosas (zona neutra) e no Leste dos Estados Unidos existem divididos em duas zonas, ao Norte os Estados Unidos ainda são uma nação sob um governo militar nazista e ao Sul, uma região somente denominada “O Sul” permanece com um governo fantoche e escravocrata aos moldes do que existiu na França de Vichy em nosso mundo durante a Segunda Guerra.

Um dos personagens principais é Juliana Frink, uma instrutora de Judô que tem sua vida alterada, após o encontro com Joe Cinadella, membro da SD que opera disfarçado como um italiano motorista de caminhão nos Estados do Pacífico (Zona de influência nipônica), que usa Juliana para criar uma situação e encontrar-se com Hawthorne Abendsen, o escritor do livro 'fictício' e banido no Reich, “O Gafanhoto torna-se pesado”, que relata uma dimensão aonde os Aliados venceram a guerra, mas está dimensão não é a nossa, pois a história relatada por Abendsen da vitória Aliada tem várias divergências com a de nosso mundo. Joe Cinadella foi enviado pelo governo do Reich para assassinar Abendsen, que o considera uma ameaça devido às informações presentes em seu livro, mas tem seus planos impedido pela própria Juliana que fica interessada no escritor do livro, após ter sido apresentada a ela pelo próprio Cinadella que havia lido ele e deixou Juliana ler umas partes e contou o restante para ela, o encontro de ambos culmina com a morte de Cinadella nas mãos de Juliana. Ela então vai sozinha até a casa de Abendsen aonde recebe informações reveladoras sobre a origem do livro.

Hawthorne Abendsen escreveu “O Gafanhoto se torna Pesado” utilizando o I Ching, um livro chinês que surgiu em +/ - 1150 a.C, que serve como oráculo. O autor fazia uma pergunta para o livro de determinado evento da história e jogava três moedas chinesas por seis vezes, e depois de anotar o formato das linhas que iriam surgindo verificava no I Ching o hexagrama correspondente que trazia a luz o acontecimento histórico sobre a perspectiva do oráculo. Foi deste modo que Abendsen chegou a um mundo aonde os Aliados venceram a guerra, mas reitero que este mundo pode ter chegado a mesma conclusão que o nosso, mas por meio de algumas vias diferentes que culminaria por fim igualmente diferente.

A viagem de Tagomi

Um dos momentos mais interessantes da história, e que acaba se conectando com a série da Amazon, pois trata de forma “palpável” a questão de realidades alternativas é quando o Sr. Tagomi compra na loja de Robert Childan uma das peças fabricadas por Frank Frink e Ed McCarthy. Trata-se de um triângulo de prata que Tagomi compra e leva até praça Portsmounth em San Francisco, e senta-se em um banco. Começa então a analisar o objeto sob a luz do Sol do meio-dia e sente-se atraído por ele, sente que o mesmo emite as essências do Yin, escuro e morto e Yang, brilhante e vivo. Depois de alguns minutos o Sr. Tagomi relata ser conduzido pelos ventos quentes do carma, e neste instante o objeto escurece em sua mão, a luz desaparece, uma sombra tapa o Sol e ele se vê diante de um policial de uniforme azul, e observa que ao seu redor não havia nenhum bicitáxi, a forma de locomoção mais comum conhecida por ele, e ao caminhar pela calçada vê ao horizonte uma enorme construção de metal, que descobre ao questionar um transeunte se tratar da rodovia Embarcadero, algo que não estava ali há alguns minutos atrás.  É um sonho louco pensou Tagomi, paisagens de aspecto sinistro, enfumaçadas, tumultuada, com cheiro de queimado no ar, prédios cinza-fosco e calçadas cheias de pessoas com uma pressa peculiar. As ruas eram tomadas por carros e ônibus com formas que não lhe eram familiar, então encontra uma lanchonete e entra, mas não recebe o tratamento esperado de subserviência aos japoneses pelos americanos. Saí consternado da lanchonete e se pergunta: Onde estou? Fora do meu mundo, do meu espaço e tempo, o triângulo de prata me desorientou. Então ele retorna para a praça onde estava e pega o triângulo novamente, concentra-se nele e conta até dez, depois levanta em um pulo, olha ao redor e estava novamente em seu mundo com vários bicitáxis. Eu achei está parte da história particularmente interessante, pois ela nos deixa claro as visões de Philip K. Dick sobre mundos paralelos, pois nela Tagomi é levado a um mundo onde pelo que pudemos observar os Estados Unidos estavam sem influência japonesa, autônomos e mais desenvolvidos, poderia ser a nossa dimensão ou a do livro “O Gafanhoto se torna Pesado”!

Um mundo diferente

            Adolf Hitler está incapacitado devido à loucura causada pela sífilis, e quem governa o Reich é o chanceler Martin Bormann, que morre em 1962, e é sucedido pelo Doutor Goebbels, que possuí um plano chamado Lowenzahn - operação Dente-de-Leão que visa destruir o Império japonês e dominar seus territórios. É neste interim que entra o membro da Abwehr, Capitão Rudolf Wegener (Sr. Baynes) que está tentando expor o plano nazista para o Japão, por meio do contato com o Sr. Tagomi do ministério do comércio japonês e subsequentemente com o general Tedeki. O governo de Goebbels é instável, pois está ameaçado pelo cruel general da Waffe-SS Reinhard Heyndrich, que  por incrível que pareça não tem interesse que a operação Dente-de-Leão seja executada, pois seu gabinete está encarregado da colonização espacial e não quer desgastes inúteis de recursos com está operação. Sim, este Heyndrich foi um dos principais “arquitetos” dos extermínios em massa ocorridos na Segunda Guerra, em nosso mundo foi assassinado em 1942, mas nesta dimensão está em plena atividade.

            No universo do livro “O Homem do Castelo Alto”, alguns avanços tecnológicos dentro do Reich foram drásticos, devido ao ímpeto desmensurado dos nazistas, não importando o quanto de recursos humanos ou materiais fossem usados para alcançar seus objetivos. Um destes avanços é o foguete de passageiros desenvolvido em 1962, o Messerschmitt 9-E, que é capaz de realizar um voo Europa-Estados Unidos em 45 minutos. O Mar Mediterrâneo foi drenado, segundo o projeto Atlantropa do arquiteto alemão Herman Sörgel e levado a cabo pela supervisão de Baldur von Schirach, a Atlantropa resolveria o problema da Lebensraum, (conceito Alemão de espaço vital)  transformando o Mar Mediterrâneo em terra arável. A colonização espacial é uma realidade desde 1962, os nazistas já chegaram a Lua, Vênus e Marte, e possuem projetos de colonização em andamento.

            Em contra partida o Império do Japão está atrasado em seu desenvolvimento, não tendo alcançado nenhum avanço significativo desde o fim da guerra. Além do fato que os japoneses não aceitam 90% das leis do Reich por considerá-las desumanas, o que ocasiona uma limitação nas relações que dariam mais acesso as descobertas tecnológicas dos alemães!

            A África é um continente desolado, ligado à Europa por meio da grande área arável do Mediterrâneo, e os objetivos do Reich para o mesmo eram agrários, e para tanto necessitavam resolver o problema da população local, e encarregaram o diabólico Doutor Arthur Seyss-Inquart, com ajuda do Reichsleiter Alfred Rosenberg de exterminar e escravizar os povos deste continente, mas não concluíram com o êxito exigido pelo Reich. Como lemos no livro: “Quanto à Solução Final do problema africano, estamos quase alcançando nossos objetivos. Infelizmente, entretanto....”.Não ficou muito claro o que o autor quis dizer com isto, mas vejo nas entrelinhas um sinal de que estavam sofrendo resistência da população local por meio de rebeldes, ou até um problema relacionado ao grande número de habitantes do continente, pois após 15 anos de ação não conseguiram seus intentos! Podemos ver através das reflexões horrorizadas de Frank Frink que os técnicos de Berlim utilizaram sua tecnologia para aproveitar partes de corpos humanos na manufatura de utensílios, aonde ele compara os nazistas a canibais e ogros.

            Os negros foram colocados em situação de escravidão novamente, e existem também cidadãos de segunda categoria, como eslavos, latinos e chineses. Este tratamento racista é aplicado tanto nas áreas controladas pelo Reich como nas pertencentes ao Império do Japão, com a exceção que nas regiões de domínio japonês os extermínios não são algo institucionalizado e há maior liberdade para os povos de outras “raças” (se tal coisa realmente existisse, pois somos todos uma única raça, a raça humana). Os japoneses se negaram a matar judeus tanto durante a guerra quanto após ela, se limitando no máximo a extraditar os mesmo para o Reich se assim desejassem.

            Grande parte da história gira em torna do Sr. Baynes conseguir levar as informações sobre a operação Dente-de-Leão aos japoneses, pois a mesma iniciaria com um incidente entre as tropas americanas do Reich e japonesas na fronteira entre os Estados das Montanhas Rochosas e os Estados Unidos, a operação culminaria com um gigantesco ataque nuclear às Ilhas Nipônicas sem aviso prévio de qualquer espécie. Dessa forma eliminando toda a Família Real e a maior parte da Marinha Imperial, a população civil e os recursos. Deixando as colônias ultramarinas sem defesa e permitindo sua absorção pelo Reich.

É uma história incrível advinda de uma mente prodigiosa como a de Dick, uma história aonde encontramos a ficção atrelada de certa forma a realidade. Temos aqui presente três realidades alternativas, a realidade de nosso mundo, a realidade do livro “O Homem do Castelo Alto”, aonde o Eixo venceu a Segunda Guerra e a realidade presente no livro “O Gafanhoto se torna Pesado”, nestas os Aliados venceram a Guerra, mas possuí diferenças entre nossa realidade. Aproveito para  indicar aqueles que gostaram da história do livro “O Homem do Castelo Alto” para conhecerem o Swastika Night, escrito em 1937por Katharine Burdekin, que também fala de um mundo aonde o Japão e Alemanha venceram uma Guerra Mundial, mas este foi escrito antes da guerra iniciar,  e o Bring the Jubilee de Ward Moore de 1953 que trata de uma vitória Confederada na Guerra da Secessão americana e suas consequências.  Então se você gostou deste trabalho, divulgue o Construindo História Hoje e juntos poderemos incentivar outros a conhecer o maravilho mundo da leitura.

Você quer saber mais?

DICK, Philip K. O Homem do Castelo Alto. São Paulo: Aleph, 2019.

O projeto Atlantropa


I Ching



Swastika Night



Bring the Jubilee


domingo, 19 de janeiro de 2020

MELQUISEDEQUE, REI DE SALÉM.



Autor: Leandro Claudir Pedroso

Formado em Licenciatura Plena em História e Pós-graduado em Metodologia do Ensino em História e Geografia.
            
Tenho lido diversos textos sobre o Rei/Sacerdote Melquisedeque, e embora já houvesse feitos estudos anteriores sobre o mesmo, deixei-me levar pelo interesse atual no tema, e fui realizar novas pesquisas. Não é um tema tão simples como tenho visto em alguns artigos na internet, e aproveitando o ensejo deixo um alerta para nunca manterem suas pesquisas unicamente na internet, pois a mesma está repleta de informações inverossímeis e de especulação. Aconselho aos amigos do Construindo História Hoje pautarem suas pesquisas em livros de autores conceituados com formação especifica para tanto. O texto mais relevante sobre o assunto se encontra em Gn. 14:18-20, aonde o Rei/Sacerdote se encontra com Abrão, este encontro se deu em +- 1850 a.C, após a chegada de Abrão a Canaã!

            Melquisedeque significa “Rei da Paz” ou “Rei da Justiça”, seu nome tem origem Cananeia, assim como Abrão (antes de Deus mudar seu nome para Abraão), ele era cananeu, e como Jó um exemplo de um não israelita, servo de Deus. O Rei/Sacerdote Melquisedeque é interpretado muitas vezes como uma figura da realeza e sacerdócio eterno do Senhor Jesus, com também uma Cristofania, ou seja um termo técnico da teologia cristã que serve para designar as aparições de Jesus Cristo antes da encarnação, em eventos ocorridos no Antigo Testamento.

Salém (Paz) é a forma contrata de Jerusalém, que significa “Cidade da Paz”, ou o antigo nome da cidade, S. João Crisóstomo ensina que para restabelecer as forças das tropas de Abrão, após a batalha contra os quatro reis, o qual, em consideração ao caráter sagrado de Melquisedeque, figura de Cristo, aceitou os dons, figura da Eucaristia, e em troca deu ao sacerdote a décima parte de todos os despojos. É óbvio que Melquisedeque tenha primeiramente oferecido aqueles dons, segundo o uso, ao Altíssimo, de quem era sacerdote.

“Ora, Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do Deus Altíssimo; 19 e abençoou a Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Criador dos céus e da terra! 20 E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.” Gn. 14:18-20

            Melquisedeque adorava o Deus Altíssimo, no texto original El’ Elyon, Elyon é empregado na Bíblia, principalmente nos Salmos como título divino, e aqui é identificado como o verdadeiro Deus de Abraão. Salém é a cidade ao qual Iahweh escolheu para mais tarde habitar.

            A tradição patrística explorou e enriqueceu esta exegese alegórica, vendo no pão e no vinho trazidos a Abrão uma figura da Eucaristia, e até um verdadeiro sacrifico, figura do sacrifício eucarístico. Muitos padres admitiram ainda que em Melquisedeque aparecera o Filho de Deus em pessoa, seria então uma Cristofania, isto é uma aparição do Messias antes do seu nascimento carnal. No Antigo Testamento estás aparições segundo muitos teólogos se deram pelo Anjo do Senhor, que seria Cristo antes da encarnação.

            É importante dentro do contexto de estudo de Melquisedeque fazer menção ao Anjo do Senhor, um anjo incomparável que aparece no AT e NT. Seu primeiro aparecimento foi a Hagar no deserto (Gn 16:7) e outros aparecimentos incluirão pessoas como Abraão (Gn 22:11-15) e José (MT 1:20). A identidade do Anjo do Senhor tem sido debatida, especialmente pelo modo  como ele frequentemente se dirige às pessoas. Note em Jz 2:1, o Anjo do Senhor  diz: do Egito EU vos fiz subir, e EU  vos trouxe à Terra que a vossos pais EU tinha jurado, e EU disse: EU nunca invalidarei o meu concerto convosco. Verificam-se pelo pronome que eram atos do SENHOR! Alguns consideram que ele era uma aparição do Cristo eterno, a segunda pessoa da Trindade, antes de nascer da virgem Maria.

 “Jurou o Senhor, irrevogavelmente: ‘Tu és sacerdote para sempre, a maneira de Melquisedeque’.” Sl. 110:4

            O sacerdócio conferido por Deus ao Messias com nova e solene fórmula de juramento, não está unido à instituição levítica, mas remonta diretamente a Deus, como o de Melquisedeque “sacerdote do Altíssimo”. No Antigo Testamento somente os asmoneus reuniram na mesma pessoa a soberania política e o sacerdócio religioso.

            Ao analisarmos a narrativa de Gênesis sobre Melquisedeque, rei de Salém, para inferir daí a prova de que este misterioso personagem que entra  bruscamente em cena e depois não se fala mais dele a não ser na citada alusão do Sl 110:4, era figura de Jesus Cristo. A narração bíblica apresenta muitos traços que o fazem semelhante a ele. A prova apoia-se em argumentos de três gêneros diversos: significado etimológico dos nomes próprios “Melquisedeque” e “Salém”, aquilo que a Escritura era corrente e reconhecido como válido entre os hebreus, e não pode negar-lhes o valor quem crê na inspiração da Bíblia e na providência divina especial em relação à história do povo eleito. Jesus Cristo é pessoa sobre-humana que transcende os tempos e Melquisedeque é, na narração bíblica, como que seu reflexo. Infere-se aqui dos fatos de Melquisedeque, expressamente mencionados na narrativa bíblica, outro argumento para provar quanto o sacerdócio de Melquisedeque e por consequência o de Jesus seja superior ao da tribo de Levi na lei mosaica. Outra consequência de suma gravidade: a lei mosaica estava intimamente ligada ao sacerdócio levítico, seja por se concentrar nele o culto divino, seja por caber  aos sacerdotes a explicação da lei ao povo e interpretá-la nos casos dúbios ou discutidos. Era um sacerdócio instituído para aplicação e conservação da Lei, vindo portanto a faltar este sacerdócio, também a lei ligada a ele perde o valor. E isto aconteceu com a vinda de Jesus Cristo que não era da tribo de Levi, mas sim de Judá, com Ele o sacerdócio levítico foi extinto e um novo sacerdócio eterno foi promulgado. Os sacerdotes levíticos estavam ligados ao estatuto carnal, pois eles morriam e necessitavam serem substituídos por novos sacerdotes, o sacerdócio do Senhor Jesus Cristo segundo a ordem de Melquisedeque é imortal, não tem fim, sendo o mesmo um sacerdócio perfeito. O sacerdócio levítico era de casta, já o instituído pelo Senhor Jesus é pessoal e trás salvação a toda humanidade!

            Quando o texto sagrado fala em Hebreus cap. 7 que o sacerdócio de Cristo é segundo a ordem de Melquisedeque, significa que Cristo é anterior a Abraão, a Levi e aos sacerdotes levíticos e maior que todos eles. No texto também lemos que ele não possuía nem pai e nem mãe, mas isso pode não significar que literalmente ele não tivesse pais, mas que os mesmos não estão registrados nas genealogias do texto sagrado.

            Temos várias teorias sobre quem foi Melquisedeque, poderia o mesmo ter sido unicamente um rei e sacerdote cananeu que servia ao Deus único, podendo ainda ter sido uma aparição de Cristo no Antigo Testamento, o que chamamos de Cristofania (Anjo do Senhor, que muitas vezes recebeu culto sem rejeitar, sendo desde modo uma pessoa da Santíssima Trindade), como em Gn. 16:7-13, 21:17-18, 22:11-18, Ex. 3:2, 13:21 e 14:19, também podemos explorar o fato de ter sido uma Teofania, uma presença física de Deus, como vemos em Gn. 32:22-30, Ex. 24:9-11, Gn. 12:7-9, entre outros, ou ainda uma Angelofania, que significa uma materialização de um anjo em forma corpórea, como vemos em relatos no Antigo Testamento, cito Gn. 18:1-33, Tb 12, dentre outros trechos.

            Ainda existem diversas vertentes de pensamentos que consideram Melquisedeque o próprio Sem, filho de Noé que teria tido seu nome alterado pelo próprio Deus e devido a sua longevidade, pois o mesmo teria sido contemporâneo de Abrão por 60 anos, dado o fato que Sem viverá 600 anos. E teriam sido sacerdotes de uma ordem ao qual o nome da mesma teria sido Melquisedeque, então o mesmo seria um título e não um nome próprio. O primeiro sacerdote desta ordem teria sido Sete, depois Sem e então o último teria sido Abrão, e os pães e vinho que o mesmo receberá de Melquisedeque (Sem) seriam um ritual de elevação sacerdotal de Abrão. Está posição e muito explorada pelos Judeus Messiânicos, que são alguns judeus conversos ou cristãos que se apegam a ritualística judaica.  
            Diante desta breve exposição podemos verificar várias opiniões sobre quem foi Melquisedeque, mas segundo minha opinião e com base em meus estudos, tenho duas opiniões a respeito do assunto: a primeira é que foi um Rei/Sacerdote Cananeu converso ao Deus Único Iahweh, e a outra que se tratava de uma Cristofania, muito comum em Gênesis por meio do Anjo do Senhor. Mas este é um tema a ser explorado, mas reitero aos meus leitores que ele seja feito sempre pautado em textos de conteúdo teológico respeitável e não em devaneios e especulações.

Autor: Leandro Claudir Pedroso


Formado em Licenciatura Plena em História e Pós-graduado em Metodologia do Ensino em História e Geografia.

Você quer saber mais?

Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, 1967.


Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2010.

Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, 1995.

A Guerra dos Reis.. Disponível em: https://www.baciadasalmas.com/a-guerra-dos-reis/, acessado em 19/01/2020.

GINZBERG, Louis. Lendas dos Judeus. 1909-1928.

Para os curiosos em uma exposição detalhada sobre Melquisedeque ser Sem, filho de Noé, indico lerem este artigo: https://www.baciadasalmas.com/sete-e-seus-descendentes/




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

OBJETIVO

CONSTRUINDO HISTÓRIA HOJE

O Construindo História Hoje tem por objetivo levar o conhecimento da História de forma clara e objetiva. "Garimpando" incansavelmente o universo dos livros, sites, revistas, periódicos em busca das mais variadas descobertas concernentes ao passado. Acreditando que todos somos detentores de cultura. Todos! Sejam analfabetos, universitários, leigos ou doutores. Cada um em sua área conforme os meios e as informações que lhes foram transmitidas.
  • "Todos sabem fazer história - mas só os grandes sabem escrevê-la." (Oscar Wilde)
  • "Quando falamos de história, temos o costume de nos refugiar no passado. É nele que se pensa encontrar o seu começo e o seu fim. Na realidade, é o inverso: a história começa hoje e continua amanhã. " (D. N. Marinotis)


Como disse São Tomé: Meu Senhor e meu Deus. Pelo retorno a fé primordial onde a espiritualidade está a frente do materialismo. Mostrando os perigos da sedução religiosa da atualidade aonde ser cristão é moda e não mais um modo de vida distinto.


A EDUCAÇÃO

Um professor:

Deve ser firme quando necessário.

Deve ser um exemplo quando preciso.

Deve orientar nas decisões.

Deve mostrar o caminho do conhecimento.

Deve ser um exemplo de conduta.


LEANDRO CLAUDIR PEDROSO

domingo, 22 de dezembro de 2019

A diferença entre a Bíblia Católica (baseada na Septuaginta), e a Bíblia Protestante (baseada na Tanakh)


Septuaginta

Autor: Leandro Claudir Pedroso

            Uma dúvida persistente tanto no meio católico quanto evangélico é o porquê da diferença entre a Bíblia católica e protestante. O motivo desta postagem é esclarecer esta dúvida fundamentada em bases históricas e não em opiniões particulares ou pejorativas. A diferença que existe nas duas versões está no Antigo Testamento, pois o Novo Testamento é idêntico em ambas  e está diferença que trataremos no trabalho que segue.

            Na lista de livros (cânon) do Antigo Testamento Católico estão presentes 46 livros e na versão protestante somente 39. No século XVI mais exatamente em 1517, os protestantes se separaram do Magistério da Igreja Católica, que tem por função ensinar a autoridade da Igreja, que deve ser obedecida pelos católicos. Entre suas atribuições está a de interpretar a Palavra de Deus, seja ela escrita ou transmitida e foi este magistério quem decidiu quais os livros comporiam o cânon das Escrituras Sagradas em 493 d.C, no concílio de Hipona. Segundo o catecismo da Igreja Católica o magistério da Igreja é composto pelos bispos em comunhão com o sucessor  de Pedro, o bispo de Roma, o Papa.

            Os protestantes acreditam que a Igreja Católica se corrompeu e não aceitam a autoridade desse Magistério. O protestantismo nasce com uma ideia arqueológica de ir às fontes originais dos textos bíblicos, como eram no principio da Igreja. As igrejas protestantes creem mais em sua pesquisa histórica do que na fé da Igreja de Cristo ao longo dos séculos, e está é uma fragilidade da eclesiologia protestante. Desta maneira os protestantes descobriram que os judeus tinham uma lista (cânon) de livros do Antigo Testamento diferente da Católica. Ao verificarem que a lista de livros judaicos continha somente 39 livros no Tanakh, que é a coleção canônica dos textos Israelita, fonte do cânon cristão do Antigo Testamento.

Falaremos agora um pouco sobre a Bíblia hebraica (Tanakh), que resultou na diferença dos textos. Tn"k (Tanakh) é um acrônimo são as 3 primeiras letras das divisões tradicionais no texto massorético: Torá, Nevi'im e Ketuvim (Ensinamento-profetas e escritos)—que resulta em TaNaK.

A Tanakh teve um processo lento de canonização dos livros, a lista foi fixada aos poucos, a TORÁ (Pentateuco) foi a primeira a ser fixada, depois os NEVI'IM (Profetas), somente num período posterior foram fixados os KETUVIM (Escritos). A diferença entre a Bíblia judaica (usada pelos protestantes) e a Bíblia Católica, está justamente nos Escritos, os Profetas e o Pentateuco são os mesmos.

Os Escritos não estavam fechados na época de Jesus e dos apóstolos, nesta época havia uma grande discussão sobre quais escritos eram canônicos. Os Saduceus (seita judaica formada por aristocratas) aceitavam unicamente a Torá, os Fariseus (seita judaica dedicada a observância da lei e pureza ritual) acreditavam nos Profetas e nos Escritos e tinham a visão de que o texto sagrado não estava fechado, e que a inspiração divina continuava atuando e podendo ampliar deste modo os Escritos canônicos!


Tanakh

Lista de livros da Tanakh

Pentateuco (Torá)

1-Bereshit-(Gênesis); 2-Shemot-(Êxodo); 3-Vayikra-(Levítico); 4-Bamidbar- (Números); 5-Devarim-(Deuteronômio).

Profetas (Nevi'im)

6-Yehoshua - (Livro de Josué); 7-Shoftim - (Livro dos Juízes); 8-9-Shmu'el - (I Samuel e II Samuel); 10-11-Melakhim - (I Reis e II Reis); 12-Yeshayahu - (Livro de Isaías); 13-Yirmiyahu - (Livro de Jeremias); 14- Yehezq'el - (Livro de Ezequiel); 15-Hoshea - (Livro de Oseias); 16-Yo'el - (Livro de Joel); 17-Amos - (Livro de Amós); 18-Ovadyah - (Livro de Obadias); 19-Yonah - (Livro de Jonas); 20-Mikhah - (Livro de Miqueias); 21-Nakhum - (Livro de Naum); 22-Habaquq - (Livro de Habacuque); 23- Tsefania - (Livro de Sofonias);
 24-Haggai - (Livro de Ageu); 25- Zekharia - (Livro de Zacarias);  26-Malakhi - (Livro de Malaquias).

Escritos (Ketuvim)

27-Tehillim (Salmos); 28-Mishlei (Provérbios); 29-Iyyôbh (); 30-Shīr Hashīrīm (Cântico dos Cânticos); 31-Rūth (Rute); 32-Eikhah (Lamentações); 33-Qōheleth (Eclesiastes); 34-Estēr (Ester); 35-Dānî'ēl (Daniel); 36-37-Ezrā (EsdrasNeemias); 38-39-Divrei ha-Yamim (I Crônicas e II Crônicas).

Sua subdivisão consiste de 24 livros; sendo que no Tanak: não há I e II Samuel, nem I e II Reis e nem em I e II Crônicas e Esdras e Neemias contam como sendo um só livro.
Com base nesta descoberta os protestantes deduziram que se os judeus possuem uma lista diferente de livros do Antigo Testamento diferente da Igreja Católica, é porquê a perfídia dos mesmos que acrescentou esses 7 livros “malévolos”. Foi assim que alguns protestantes começaram a tirar os livros, não foi Martinho Lutero quem tirou, foi um processo lento. Lutero continuou a publicar estes livros em separado em suas bíblias. Ele sabia que esses livros foram acrescentados numa segunda fase, uma segunda lista de livros que eles entraram. Várias igrejas protestantes publicaram estes livros até o século XIX. Até mesmo os protestantes não tiveram unanimidade nesse processo, pois creem mais na sua pesquisa histórica do que na fé na Igreja de Cristo. A fragilidade da eclesiologia protestante encontra-se no fato de ter nascido como a igreja da Bíblia, o Sola Scriptura, enquanto nós Católicos, cremos que a Igreja é o corpo de Cristo e a fé da Igreja nos da a Bíblia como presente.

Então de onde vieram os 7 livros presentes no Antigo Testamento da Bíblia Católica?

            Com a vinda de Cristo, os apóstolos tiveram que levar a palavra de Jesus ao mundo todo, e naquela época o grego koine, era a língua mais falada pelo mundo todo (era como o inglês atualmente), era a língua do comercio e das relações políticas. Os apóstolos começaram a pregar o evangelho em grego koine, mas a Bíblia estava escrita em hebraico, e utilizaram uma tradução grega da Bíblia que chamamos de Septuaginta (versão dos LXX [70]). A preciosa Septuaginta, foi feita no Egito, mais exatamente em Alexandria, motivo pelo qual também é chamada de “Alexandrina”, isso ocorreu por volta dos séculos III e II a.C. Considerada até os tempos modernos com obra coletiva de setenta e dois doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém, a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C), continua ainda a chamar-se  a versão dos Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade, como mostra o exame interno, os tradutores foram muitos, traduzindo quem este quem aquele livro, em épocas diversas, até que, reunidas as traduções, formou-se um Antigo Testamento totalmente grego, mais amplo do que o hebraico massorético, segundo o que acima foi dito. Entra aqui o testemunho, precioso pelo fato e pela época, do neto do autor do Eclesiástico, o qual  o prólogo de sua tradução da obra do avô, assevera ter ido ao Egito pelo 38° ano do reinado de Evergetes (cerca de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos em grego, a Torá (Pentateuco), os Nevi’im (Profetas) e alguns outros Escritos que posteriormente formariam com mais alguns livros a Ketuvim (Escritos), isto é as três partes que os judeus dividem suas Bíblias.

            A tradução dos Setenta ou Septuaginta, possuí nela sete livros “a mais” do que na Bíblia hebraica. Muitas vezes no Novo Testamento quando os apóstolos citam o Antigo Testamento, é o texto da Septuaginta que estão citando e não da hebraica, existem várias coincidências textuais como quando São Mateus diz: “Eis que uma virgem conceberá e dará a luz a um filho (...)” (Mateus 1:23), este texto de Isaias 7:14 “Eis que a virgem ficará grávida e dará à luz um filho (...)”, se você for ler na Tanakh hebraica não diz virgem, mas jovem, só na septuaginta está escrito virgem, os apóstolos usavam esta tradução, e é assim que desde o inicio a Igreja usava a Septuaginta e não a hebraica.

            Vários estudos atestam que os Apóstolos e Evangelistas usaram a Septuaginta, a própria Sociedade Bíblica do Brasil, que edita várias versões das Bíblias protestantes afirmou que muitas citações e alusões do Antigo Testamento no Novo Testamento procedem diretamente da clássica versão grega dos Setenta. E que das 350 citações que o Novo Testamento faz do Velho Testamento, pelo menos 300 provêm da versão grega (Septuaginta).

            O Antigo Testamento (Tanakh) tinha no original três idiomas originais. A maior parte foi escrita e chegou até nós em língua hebraica. Alguns capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um versículo de Jeremias, estão em aramaico, que foi o idioma falado na Palestina depois do exílio babilônico (século VI a.C). dois livros, o segundo dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos originariamente em grego. Dos livros de Judite, Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de Daniel e Ester, perdeu-se como no caso no Evangelho de Mateus, o texto original em hebraico ou aramaico, sendo substituído pela versão da Septuaginta. Enquanto os judeus disseminados no mundo greco-romano não tinham dificuldades em introduzir os livros compostos em grego, os judeus da Palestina formando entre eles a opinião de que, depois de Esdras (século V a.C.), faltando ou sendo incerto o dom profético, nem sequer admitiam pudessem ser compostos livros inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins do séc. I d.C. (período inicial da Igreja Cristã) na Escola Rabínica de Jâmnia, os doutores da sinagoga fixaram o cânon da Bíblia hebraica, Jâmnia não era um concílio, no sentido do concílio de Hipona ou outros da Igreja Cristã, mas uma escola rabínica aonde durante anos rabinos estudaram os livros que deveriam compor o cânon da Tanakh e fecharam os Escritos.

Em 70 d.C. com a queda de Jerusalém os rabinos ficaram sem seu templo e logo sem seus rituais sagrados de sacrifício, que os permitia ser uma religião de culto, agora necessitavam revisar sua fé, e centrar ela na Tanakh, tornando-se uma religião do livro, mas como esta estava fechada no que diz respeito ao Pentateuco e Profetas, mas estava aberta em relação aos Escritos, fez se necessário um veredito final rabínico sobre este assunto.

Além deste motivo, outro de extrema importância histórica ocorreu, os judeus começaram a ver que os cristãos estavam pregando de maneira diferente que os rabinos, tanto na intepretação dos textos como na forma de utilização, e houve a ”excomunhão” dos cristãos das sinagogas, eles foram proibidos de frequentar as mesmas. Isto levou os rabinos a necessidade de estabelecer à lista e fechar o cânon, os judeus então excluíram os livros “a mais” da septuaginta usada pelos apóstolos em suas pregações. Foram excluídos até os livros escritos em hebraico depois daquela época, como o Eclesiástico. Daí resultou o cânon hebraico em que faltam sete livros: TOBIAS, JUDITE, I E II MACABEUS, SABEDORIA, ECLESIÁSTICO, BARUC e a CARTA DE JEREMIAS e mais algumas partes de Ester e Daniel.

            Os protestantes ao aceitarem o cânon hebraico, estão aceitando a autoridade dos rabinos depois de Cristo e não antes de Cristo, aonde a Igreja Cristã deve submissão e respeito a Cristo e os Apóstolos e não mais aos rabinos. Em momento aonde a autoridade dos apóstolos pregava usando a Septuaginta.

            Para os católicos quem define quais os livros são  sagrados é a Igreja, e foi ela quem definiu a autoridade dos 27 livros do Novo Testamento. A pergunta histórica que não quer calar é esta: por que os protestantes aceitam a autoridade do magistério da Igreja Católica para a escolha dos livros do Novo Testamento e não do Antigo Testamento, pois foi o mesmo magistério da Igreja que os escolheu. Se os protestantes afirmam que não aceitam o Magistério da Igreja Católica, não deveriam aceitar nem o cânon do Novo Testamento!

            E não é por falta de divergência histórica que os protestantes aceitam o Novo Testamento definido pelo Magistério da Igreja Católica, pois o mesmo só foi fechado no final do III século d.C. Somente na época de Santo Agostinho é que as coisas estavam mais calmas sobre a discussão de quais livros eram inspirados por Deus e deveriam compor o Novo Testamento. O primeiro concílio que tratou desse assunto, foi o concílio de Hipona (393 d.C.), liderado por Santo Agostino que apresentou a lista com os 24 livros do Novo Testamento.

Vamos conhecer um pouco mais sobre os escritos deuterocanônicos:

Livro de Tobias:
Escrito em: século II a.C
Língua original: aramaico (conforme papiros encontrados em qumran), a versão grega dos LXX derivou do texto original.
Eventos relatam o período: século VIII a.C.

 Livro de Judite:
Escrito em: entre os séculos IV-II a.C. (fonte: Bíblia Ed. Paulinas, 1967 e Edição Pastoral, 2013)
Língua original do texto: hebraico ou aramaico, mas a versão que chegou até nós está em grego.
Eventos relatam o período: Não é uma narrativa histórica, mas uma novela com elementos fictícios para levar fé e esperança ao povo. (539-100 a.C, se fossemos considerar as citações históricas).

I Livro de Macabeus:
Autor: desconhecido
Escrito em: 100 e 64 a.C.
Língua original do texto: hebraico, mas a versão original usada por S. Jeronimo está perdida, servimo-nos de uma versão grega.
Eventos relatam o período: 175-135 a.C.

II Livro de Macabeus:
Autor: compilação de obras de Jason de Cirene.
Escrito em: 160-124 a.C
Língua original do texto: grego
Eventos relatam o período: 175-135 a.C.

Livro de Sabedoria:
Autor:  judeu desconhecido de Alexandria
Escrito em: 100- 50 a.C
Língua original do texto: grego
Eventos relatam o período: não se aplica

Livro de Eclesiástico:
Autor: Jesus Bem Sirá
Escrito em: 200 - 180 a.C.
Língua original do texto: hebraico
Eventos relatam o período: não se aplica


Livro de Baruc:
Autor: Baruc e outros
Escrito em: VI século a.C. (original hebraico); II século a.C (tradução grega).
Língua original do texto:  hebraico, mas está perdida nos servimos então da grega dos LXX.
Eventos relatam o período: 582-540 a.C

Carta de Jeremias:           
Autor: desconhecido
Escrito em: 540-100 a.C.
Língua original do texto: hebraico ou aramaico, mas está perdida nos servimos da grega dos LXX.
Eventos relatam o período: 586 a.C.

Adições a Ester:                
Autor: desconhecido
Escrito em: século II a.C.
Língua original do texto: grego/hebraico
Eventos relatam o período: 586 a.C.

Adições a Daniel:
Autor: desconhecido
Escrito em: II século a.C.
Língua original do texto: grego
Eventos relatam o período: 597-538 a.C

           Concluo aqui este pequeno trabalho, e espero que o mesmo possa auxiliar meus amigos com suas mentes ávidas do amanhã neste caminho pelo conhecimento histórico. Caso possuam alguma dúvida, ou querem sugerir um novo trabalho entrem em contato pelo formulário!

Você quer saber mais?

Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, 1967.

Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2010.

Hebrew Tenach, The Society for distributing hebrew scriptures, 2003.

Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Edições Loyolas Jesuítas, 2000. Pg. 36.

LIMA, Alessandro Ricardo (2007). O Cânon Bíblico. A Origem da Lista dos Livros Sagrados 1ª ed. Brasília: [s.n.] p. 22. 125 páginas.

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