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sábado, 17 de outubro de 2026

Homoteísmo e egoteísmo: quando o homem pretende ocupar o lugar de Deus

Ao longo da História, o ser humano sempre procurou compreender seu lugar no mundo e sua relação com Deus. Para o cristianismo, o homem possui inteligência, liberdade e dignidade, mas continua sendo uma criatura diante do Criador. O problema começa quando essas capacidades humanas deixam de ser compreendidas como dons e passam a ser vistas como suficientes para explicar toda a existência, determinar o que é certo e errado e estabelecer os próprios limites da vida moral. É justamente essa mudança de perspectiva que aparece na crítica de Monsenhor Henri Delassus, em sua obra A Conjuração Anticristã, na qual o autor denuncia aquilo que considera uma tentativa de afastar Deus do centro da vida humana.

Ao tratar desse assunto, Delassus recorre ao pensamento do dominicano Albert Maria Weiss e menciona duas expressões que ajudam a compreender sua crítica: homoteísmo e egoteísmo. O primeiro é atribuído a Léo Berg, enquanto o segundo é associado a Kircher. Embora seja necessário cuidado ao interpretar esses termos, a ideia apresentada é bastante significativa: o homem pode chegar a uma situação em que deixa de reconhecer Deus como referência suprema e passa a colocar a humanidade ou a si mesmo nessa posição.

O homoteísmo pode ser entendido como a tendência de elevar a humanidade à condição de referência máxima da existência. Nessa perspectiva, a razão humana, o progresso e a capacidade de transformar o mundo passam a ocupar o lugar que, na visão cristã, pertence a Deus. O homem acredita cada vez mais em suas próprias capacidades e pode chegar a considerar que não precisa de nenhuma autoridade superior para orientar sua vida ou estabelecer os princípios que devem reger a sociedade. É nesse ponto que a crítica de Delassus ganha força: o problema não está em reconhecer as conquistas humanas, mas em transformar o próprio homem na medida absoluta de todas as coisas, como se não existissem limites morais ou verdades que ultrapassassem sua vontade.

O egoteísmo leva essa questão para o plano individual. Se, no homoteísmo, é a humanidade que ocupa o centro, no egoteísmo é o próprio eu que assume essa posição. O indivíduo passa a confiar tanto em suas opiniões, desejos e decisões que deixa de admitir qualquer princípio acima de si. Sua vontade torna-se a medida do certo e do errado, e tudo aquilo que contraria seus interesses pode ser visto como uma limitação injustificada de sua liberdade. Sob a perspectiva cristã defendida por Delassus, essa postura representa um afastamento de Deus e também um risco para a própria convivência humana, pois uma liberdade que não reconhece responsabilidades pode facilmente transformar-se em orgulho, egoísmo e desprezo pelos outros.

Percebe-se, assim, que as duas ideias se aproximam, embora não sejam idênticas. O homoteísmo coloca a humanidade no centro; o egoteísmo coloca o indivíduo nessa posição. Em ambos os casos, a preocupação de Delassus é com a possibilidade de o homem se considerar independente de qualquer ordem moral superior. Em vez de reconhecer que sua inteligência e sua liberdade devem ser acompanhadas de responsabilidade, ele passa a agir como se fosse o senhor absoluto de sua própria existência. Para o autor, essa transformação não é apenas uma questão filosófica, mas também religiosa, pois modifica a maneira como o homem compreende sua relação com Deus.

Essa discussão continua importante porque a valorização exagerada do indivíduo e a confiança ilimitada no progresso humano podem alimentar a ideia de que tudo depende exclusivamente da vontade do homem. Quando isso acontece, questões fundamentais sobre o bem, o mal, a justiça e o sentido da vida correm o risco de ser reduzidas às opiniões e aos interesses de cada época. A crítica de Delassus convida, portanto, à reflexão sobre os limites da autonomia humana e sobre o perigo de uma sociedade que, em nome de sua própria capacidade, passe a considerar desnecessária qualquer referência à transcendência.

Entretanto, é preciso fazer uma distinção. Valorizar a razão, defender a liberdade, reconhecer os direitos humanos ou acreditar no progresso não significa necessariamente querer substituir Deus. Uma pessoa pode defender a autonomia individual e as conquistas da ciência sem abandonar a fé, assim como pode reconhecer a dignidade humana sem transformar o homem em uma espécie de divindade. O próprio pensamento cristão atribui importância à inteligência, à liberdade e à responsabilidade moral. Por isso, a crítica de Delassus é mais adequada quando dirigida à pretensão de tornar o ser humano uma autoridade absoluta, e não a toda forma de humanismo, individualismo ou valorização da razão.

No fundo, a questão levantada por esses conceitos é simples, mas profunda: reconhecer o valor do ser humano é diferente de colocá-lo no lugar de Deus. A crítica de Delassus procura mostrar que, quando o homem se considera a única medida da verdade e da moral, corre o risco de perder de vista os limites de sua própria condição. Ao mesmo tempo, compreender essa crítica exige distinguir a exaltação absoluta do indivíduo ou da humanidade da legítima valorização da dignidade, da liberdade e da capacidade humana de construir uma sociedade mais justa.

Você quer saber mais?

DELASSUS, Henri. La conjuration antichrétienne: le temple maçonnique voulant s'élever sur les ruines de l'Église catholique. Lille: Desclée, De Brouwer et Cie, 1910. v. 3.

WEISS, Albert Maria. Die religiöse Gefahr. 2. ed. Freiburg im Breisgau: Herder, 1904.

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