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sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Revolução Farroupilha- parte III: A batalha de Porongos e o fim do conflito.

Em 1842, para terminar com o conflito, Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, foi nomeado presidente do Rio Grande do Sul e comandante das armas. O objetivo era acabar com a luta e pacificar a província. Diante das derrotas, os farroupilhas negociaram o fim do conflito com o governo imperial.  Duque de Caxias então inicia uma batalha intelectual usando estratégias do livro “A Arte da Guerra de Sun Tzu”, começa a espalhar informações falsas entre os farrapos para dividi-los. Segundo alguns relatos Davi Canabarro havia tomado a frente de algumas negociações e foi enganado pelo Duque de Caxias. Mesmo sendo um grande guerreiro no campo de batalha, David Canabarro era rude e tosco em negociações.      

Na noite do ataque imperial ao acampamento dos lanceiros, Davi Canabarro é acusado de mandar desarmar os mesmos, mas a verdade é que na tropa haviam muitos negros que eram ex-combatentes imperiais presos em combate e integrados a frente farroupilha com a promessa de sempre libertos em caso de vitória. Esses lanceiros negros eram retirados deles todas as noites os cartuchames das armas, com o correto receio de traição. Os lanceiros farroupilhas não foram desarmados e nem tiveram suas lanças retiradas. Alguns acusam Canabarro de ter desarmado os seus lanceiros em ato combinado com as forças imperiais, inclusive existe uma  carta falsa usada estrategicamente por Caxias para fundamentar a traição de Canabarro aos seus lanceiros. Mas os fatos são os seguintes, na noite do ataque David Canabarro estava com sua amante Chica Papagaia, a Maria Francisca Ferreira Duarte, e foi pego literalmente com as calças na mão no acampamento. Um homem que havia planejado a traição de seus companheiros não se deixaria estar em uma situação dessa se estivesse ciente do ataque imperial. Mas enfim é uma história cheia de armações e disparates por parte dos imperiais, pois era um conflito onde envolvia grupos maçons dos dois lados e caso o conflito não acabasse ao fechar 10 anos haveria uma intervenção internacional pela independência da Província.

Acusar um guerreiro como Canabarro de traição e algo complicado, pois um homem com uma ficha militar impecável que lutou em diversos conflitos pelo Império do Brasil, antes da Guerra dos Farrapos e continuou lutando após, inclusive participando da Guerra do Paraguai é no mínimo algo que devemos refletir antes de acusar.

No entanto, faltava solucionar a questão dos negros escravizados que haviam lutado durante dez anos. O governo imperial não aceitava a libertação e, por outro lado, alguns líderes farroupilhas concordaram em devolvê-los para seus antigos proprietários. No entanto, isso seria uma traição e poderia acabar em uma rebelião. Por isso, em 14 de novembro de 1844, o acampamento farroupilha – liderado por Canabarro - é atacado por tropas imperiais.

Em 1845, os rebeldes aceitaram a proposta de paz oferecida pelo governo. O Tratado de Poncho Verde estabelecia: anistia; incorporação dos oficiais farroupilhas ao exército imperial; libertação dos escravos que haviam lutado ao lado dos farroupilhas; devolução das terras que haviam sido tomadas dos rebeldes; diminuição dos impostos naquela província e fortalecimento da Assembleia Provincial.

A posição do governo central foi entremeada de combate e concessões aos rebeldes. Os farrapos não eram gente esfarrapada, e a região onde lutavam tinha para o Império grande importância estratégica. Por exemplo, em princípios de 1840, o governo central cedeu a uma das principais exigências econômicas dos farrapos, decretando uma taxa de importação de 25% sobre a carne salgada vinda do Prata e que concorria com a nacional.

Um passo importante para pôr fim ao conflito ocorreu quando, em 1842, Caxias foi nomeado presidente e comandante de armas da província. Ele combinou habilmente uma política de ataque militar e medidas de apaziguamento. Afinal, em 1845, após acordos em separado com vários chefes rebeldes, Caxias e Canabarro assinaram a paz. Não era uma rendição incondicional. Foi concedida anistia geral aos revoltosos, os oficiais farroupilhas integraram-se de acordo com suas patentes ao Exército brasileiro e o governo imperial assumiu as dívidas da República de Piratini. Há controvérsia entre os historiadores sobre se os farrapos desejavam ou não separar-se do Brasil, formando um novo país com o Uruguai e as províncias do Prata. Seja como for, um ponto comum entre os rebeldes era o de fazer do Rio Grande do Sul pelo menos uma província autônoma, com rendas próprias, livre da centralização do poder imposta pelo Rio de Janeiro. 

Você quer saber mais?

BORIS, Fausto. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

RIBEIRO, Celia. O Jornalista farroupilha. Porto Alegre: Libretos, 2012.

Revolução Farroupilha- parte II: Batalha da Ponte da Azenha.

O Combate da Ponte da Azenha foi o combate inicial da Revolução Farroupilha, ocorrido na noite de 19 para 20 de setembro de 1835. Foi marcado por dar espaço à Tomada de Porto Alegre pelos farroupilhas no dia seguinte.

Milhares de pessoas passam todos os dias pela famosa ponte da Azenha em Porto Alegre, que atravessa o Arroio Dilúvio da Avenida Ipiranga. Acostumadas a passar por aquele lugar no corre-corre do dia-a-dia, muita gente não se dá conta da importância histórica daquele local. Foi ali que se travou a primeira batalha da Revolução Farroupilha, que mais tarde, após a declaração da independência da República Rio-Grandense, passaria a se chamar "Guerra" dos Farrapos, já que a partir de então seria um conflito entre duas nações soberanas. Existiam moinhos perto da ponte, que eram chamados de azenhas desde os primeiros habitantes açorianos. Entre os comerciantes que fabricavam farinha, um dos mais conhecidos foi o português Francisco. Por isso, a ponte também é conhecida como Ponte do Chico da Azenha. O General Bento Gonçalves, líder máximo da Revolução, planejou tudo na estância de Pedras Brancas, separada de Porto Alegre pelo Guaíba. Lá morava o capitão José Gomes Jardim, e a sua casa foi transformada numa espécie de quartel-general farroupilha. Da estância, partiu uma tropa em direção ao morro atrás da Azenha na noite de 19 de setembro de 1835, que em pouco tempo ficou povoado de tendas militares. No dia seguinte, o plano era descer para invadir Porto Alegre. Chegavam notícias ao presidente da Província Antônio Fernandes Braga (o Governador dos dias de hoje) , de que a guerra estava prestes a começar. Muitos soldados da Guarda Nacional do Império Brasileiro teriam aderido aos farroupilhas juntamente com peões de outras estâncias, e com a ausência do comandante de armas naquela noite, marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, que havia viajado para a Fronteira com 70 homens, a capital estava desguarnecida.

O presidente Braga, às pressas, chamou o comandante da Legião da Guarda Nacional Visconde de Camamu para organizar a resistência. Camamu saiu disposto a encontrar voluntários para tentar surpreender os farrapos acampados no morro. Acontece que a maioria da população era a favor dos Farrapos, ainda mais com o anúncio recente de Braga sobre um aumento nos impostos sobre as estâncias e charqueadas. Os cidadãos que não se juntaram aos farrapos, ou fugiram para as suas chácaras, ou trancaram-se em suas casas. Segundo o autor Carlos Urbim (Os Farrapos, 2008), Braga caminhava nervoso pelas salas do palácio, enquanto Camamu partia em direção à Azenha com os únicos 20 voluntários que conseguira recrutar. Dentre eles, estavam o brigadeiro veterano Alves Leite e o editor de um jornal imperialista, Antônio José Monteiro, o Prosódia. No alto do morro da Azenha, aproximadamente 200 farroupilhas. Onofre Pires, primo de Bento Gonçalves, ordenou que o Cabo Rocha descesse até a Ponte da Azenha com mais 3 homens para vasculhar a área. Sob a escuridão da noite, as casas trancadas, um ou outro cachorro latia. Ao chegar na ponte, Cabo Rocha avistou vultos. Eram os homens de Camamu! Quatro farrapos contra mais de 20 imperiais! Cabo Rocha não se intimidou, ordenou o ataque! A GUERRA ESTAVA COMEÇANDO!!!

Visconde de Camamu foi atacado e caiu do cavalo ao ser ferido por uma lança no ombro. Prosódia recebeu uma estocada fatal no peito e, atropelado por cavalos, morreu gritando na beira do arroio. Alves Leite, prensado na ponte por dois soldados a cavalo, se jogou lá de cima e acabou morrendo entre galhos e arbustos. Ao ver tudo isso, imaginando que eram centenas de soldados farrapos, o restante dos homens de Camamu saíram correndo e se dispersaram pelas casas mais próximas pedindo socorro. Ferido, sem cavalo, Camamu se arrastou pela Várzea, na escuridão, rasgando a roupa entre os arbustos e os espinheiros do caminho. Sem a espada e os detalhes que enfeitavam o fardamento, Camamu teve dificuldade para se identificar aos sentinelas do palácio do presidente Fernandes Braga. Ao entrar sangrando no palácio, Camamu precisou ser amparado por 2 escravos. Era o quadro da dor! Para superar a vergonha e a humilhação de ter perdido para 4 farroupilhas, o visconde aumentou o tamanho do exército farrapo: “Presidente, são mais de mil homens! Lutamos, tivemos baixas, fomos obrigados a voltar".

No alto do morro, depois de receber o relato do Cabo Rocha sobre o que tinha acontecido na Ponte do Chico da Azenha, José Gomes Jardim escreveu um bilhete para ser levado até a sua estância em Pedras Brancas, para ser entregue a Bento Gonçalves, que havia ficado no improvisado quartel-general.

“Fomos muito bem no negócio da farinha. Aguardamos sua palavra para negociar na Capital. Seria bom mandar mais gente e cavalos para o transporte das barricas”.

O cabo Sílvio Jardim, filho de Gomes Jardim, foi encarregado pelo pai a levar o recado até Bento. Ele deveria chegar até Pedras Brancas antes do amanhecer. Teve sorte, não foi visto por nenhum inimigo. Bento elogiou a bravura do rapaz: "O bilhete que trouxeste fala da farinha da liberdade. Diz para eles que podem tomar Porto Alegre hoje mesmo. Amanhã eu me encontro com vocês no palácio do governo". Agora, Sílvio faria o caminho inverso com o dia clareando para levar o recado aos farroupilhas que estavam no morro da Azenha.

No dia 20 de setembro de 1835, uma revolta armada, com pouco mais de 200 cavaleiros se estabeleceu nos arredores da capital, Porto Alegre. Uma pequena força armada enviada para dispersar os rebeldes foi repelida e obrigada a regressar. Fernandes Braga fugiu para a vila de Rio Grande, instalando aí seu governo. No dia seguinte, o comandante da Guarda Nacional local, Bento Gonçalves, um dos líderes do movimento, entrava em Porto Alegre e, com o apoio da Assembleia Provincial, em 1836, proclamou a República do Piratini. Diante desta situação, o regente Feijó nomeou novo presidente para a província, José de Araújo Ribeiro, futuro visconde do Rio Grande. A guerra continuou e os legalistas conseguiram prender vários chefes rebeldes, entre eles Bento Gonçalves, que foi mandado para o Forte do Mar (BA), de onde fugiu nadando. Em setembro de 1837, Bento Gonçalves regressa ao Sul e é eleito presidente da República do Piratini. A luta dos rebeldes era cada vez mais popular e com o apoio do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi o movimento se propagou. Enquanto isso, devido à disputas políticas, Feijó foi obrigado a renunciar. Iniciou-se a regência de Araújo Lima, apoiado pelos conservadores. Em 1839, David Canabarro, um dos líderes da revolta, com a colaboração de Giuseppe Garibaldi, tomou Laguna (SC). Ali, conheceria sua futura esposa e companheira de lutas, Anita Garibaldi. Fundou-se nessa província a República Juliana, confederada à República Rio-grandense, alargando o cenário da revolução. Em 1840, com a maioridade antecipada de dom Pedro II, foi concedida anistia a todos os revoltosos políticos do período regencial. Então, o novo presidente do Rio Grande do Sul, Álvaro Machado, nomeado pelo governo imperial, tentou convencer os rebeldes a terminar a guerra e aceitar a anistia, mas nada conseguiu.

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BORIS, Fausto. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

RIBEIRO, Celia. O Jornalista farroupilha. Porto Alegre: Libretos, 2012.


Revolução Farroupilha- parte I: introdução.

         A Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha foi a mais longa rebelião do período regencial do Brasil. Ocorreu no Rio Grande do Sul e durou quase dez anos, de 1835 até 1845, época que compreende a regência de Feijó e o Segundo Reinado. O termo “farrapo” se referia aos trajes maltrapilhos que o exército rebelde usava. A revolta foi mobilizada pelos grandes proprietários de terra do Rio Grande do Sul, insatisfeitos com os altos impostos cobrados pelo governo imperial sobre seus produtos. Por isso, constataram que a separação e a república seriam uma forma de obter liberdade comercial e política. Os negros escravizados também foram recrutados para lutar, sob a promessa de liberdade, no caso de vitória na guerra contra o império.  A Revolução Farroupilha se encerra com o Tratado de Poncho Verde, em 1º de março de 1845.

Eclodiu em 1835, no Rio Grande do Sul, a Guerra dos Farrapos, ou Farroupilhas. “Farrapos” e “farroupilhas” são expressões sinônimas, que significam “maltrapilhos”, “gente vestida com farrapos”. Elas pareciam ter-se referido inicialmente aos trajes usados por Cipriano Barata nas ruas de Lisboa, com o acréscimo de um chapéu de palha. Assim, ele se distinguia dos portugueses como se fosse um matuto brasileiro. Os adversários dos farrapos gaúchos deram a eles esse apelido para depreciá-los. Mas a verdade é que se suas tropas podiam ser farroupilhas, os dirigentes pouco tinham disso, pois representavam a elite dos estancieiros, criadores de gado da província. O nome farroupilha, vem da expressão farroupa, aplicada pela primeira vez em meados de 1700, designava agricultores e criadores de gado que usavam roupas gastas e simples. Ela foi assimilada pelos revolucionários gaúchos, mesmo que não se vestissem se trapos, pois eram ricos estancieiros. 

O Rio Grande do Sul era um caso especial entre as regiões brasileiras, desde os tempos da Colônia. Por sua posição geográfica, formação econômica e vínculos sociais, os gaúchos tinham muitas relações com o mundo platino, em especial com o Uruguai. Os chefes de grupos militarizados da fronteira, os caudilhos, que eram também criadores de gado, mantinham extensas relações naquele país. Aí possuíam terras e se ligavam pelo casamento com muitas famílias. Por outro lado, a economia rio-grandense, do ponto de vista da destinação de seus produtos, estava tradicionalmente ligada ao mercado interno brasileiro. A criação de mulas teve importante papel no transporte de mercadorias no Centro-Sul do país, antes da construção das ferrovias. No período de renascimento agrícola das últimas décadas do século XVIII, colonos vindos dos Açores plantaram trigo no Sul, consumido nas outras regiões do Brasil. Quando foi proclamada a Independência, em 1822, esse período de expansão do trigo já se encerrara, devido às pragas e a concorrência americana, mas os vínculos com o resto do país permaneceram.

A criação de gado se generalizou, na região, assim como a transformação da carne bovina em charque (carne-seca). O charque era um produto vital, destinado ao consumo da população pobre e dos escravos do Sul e do Centro-Sul do Brasil. Criadores de gado e charqueadores formavam dois grupos separados. Os criadores estavam estabelecidos na região da Campanha, situada na fronteira com o Uruguai. Os charqueadores tinham suas indústrias instaladas no litoral, nas áreas das lagoas, onde se concentravam cidades como Rio Grande e Pelotas. Criadores e charqueadores se utilizavam de mão de obra escrava, além de trabalhadores dependentes deles.

As queixas do Rio Grande do Sul contra o governo central vinham de longe. Os gaúchos achavam que, apesar da contribuição da província para a economia brasileira, ela era explorada por um sistema de pesados impostos.

        As reivindicações de autonomia, e mesmo de separação, eram antigas e feitas, muitas vezes, tanto por conservadores como por liberais.  A Regência e o Ato Adicional não abrandaram as queixas. As províncias que não podiam arcar com todas as suas despesas recebiam recursos do governo central provenientes em parte de outras províncias. Isso acontecia antes do Ato Adicional e continuou a acontecer depois dele. O Rio Grande do Sul mandava, seguidamente, fundos para cobrir despesas de Santa Catarina e de outras regiões.

Entretanto, a revolta não uniu todos os setores da população gaúcha. Ela foi preparada por estancieiros da fronteira e algumas figuras da classe média das cidades, obtendo apoio principalmente nesses setores sociais. Os charqueadores que dependiam do Rio de Janeiro — maior centro consumidor brasileiro de charque e de couros — ficaram ao lado do governo central. Além das queixas gerais já apontadas, os estancieiros tinham razões próprias de descontentamento. Eles pretendiam acabar com a taxação de gado na fronteira com o Uruguai ou reduzi-la, estabelecendo a livre circulação dos rebanhos que possuíam nos dois países. Além disso, como já estavam organizados militarmente com seus pequenos exércitos particulares, baseados em uma chefia indiscutível, consideravam uma novidade perigosa a criação da Guarda Nacional, com cargos eletivos de oficiais. 

Os farrapos contaram com o concurso de alguns oficiais do Exército, chegados recentemente ao Rio Grande do Sul, entre eles João Manuel de Lima e Silva, irmão de um dos primeiros regentes e tio de Caxias. Nas fileiras dos revoltosos, destacaram-se pelo menos duas dezenas de revolucionários italianos refugiados no Brasil, sendo o mais célebre deles Giuseppe Garibaldi. A figura mais importante do movimento foi Bento Gonçalves, filho de um rica estancieiro, com larga experiência militar nas guerras da região. Ele organizou lojas maçônicas na fronteira e usou o serviço postal dos maçons como alternativa para sua correspondência secreta. Estendeu, assim, à fronteira as sociedades maçônicas que proliferavam em todo o Rio Grande. A luta foi longa e baseada na ação da cavalaria. Garibaldi e Davi Canabarro levaram a guerra para o norte da província, assumindo por uns tempos o controle de Santa Catarina. Na região gaúcha dominada pelos rebeldes, foi proclamada na cidade de Piratini, em 1838, a República de Piratini cuja presidência coube a Bento Gonçalves. A República não existiu apenas no papel, mas teve uma existência real, incluindo o estímulo à criação de gado e à exportação de charque e de couros. 

Os Conflitos Farroupilhas

A Guerra dos Farrapos foi promovida pela classe dominante gaúcha. Constituída de estanceiros que eram os donos de grandes propriedades rurais, gado e negros escravizados. Indignados com os elevados impostos territoriais, além de altas taxas sobre as exportações de charque, couro e sebos. Os estanceiros protestavam, pois o charque gaúcho devia pagar 25% de impostos enquanto o uruguaio pagava somente 4% para ser vendido no Rio de Janeiro. Também havia um ressentimento contra o governo imperial que sempre recrutava homens e cavalos para as lutas com os territórios fronteiriços, mas pouco beneficiava a sociedade local.

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BORIS, Fausto. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

RIBEIRO, Celia. O Jornalista farroupilha. Porto Alegre: Libretos, 2012.


sábado, 14 de setembro de 2024

Império Bizantino: a glória do Oriente.

 O Império Bizantino, também conhecido como Império Romano do Oriente, nasceu oficialmente com a divisão do Império Romano em 395 d.C. Após a morte do imperador Teodósio I, o império foi dividido entre seus dois filhos, e o império oriental, com sua capital em Constantinopla (atualmente Istambul), começou a trilhar seu próprio caminho. A cidade, renomeada por Constantino, tornou-se um dos centros políticos e culturais mais importantes do mundo antigo.

Durante os primeiros séculos, o Império Bizantino se consolidou e manteve um papel dominante na região mediterrânea. No século VI, sob o governo do imperador Justiniano I (527-565 d.C.), o império alcançou seu auge territorial e cultural. Justiniano tentou reverter a queda do Império Romano do Ocidente, realizando campanhas militares para recuperar terras perdidas na África do Norte e na Itália. Além disso, o código legal de Justiniano, conhecido como Corpus Juris Civilis, tornou-se uma base fundamental para o direito europeu.

A religião também desempenhou um papel crucial na história bizantina. A Igreja Ortodoxa, com seu centro em Constantinopla, tornou-se uma das principais instituições do império, desenvolvendo uma forma de cristianismo distinta da Igreja Católica Romana. A separação entre as duas igrejas foi formalizada em 1054 d.C., com o Grande Cisma. As diferenças teológicas e políticas, além de disputas sobre a autoridade papal e as práticas litúrgicas, contribuíram para essa divisão, resultando em duas tradições cristãs separadas: o Catolicismo Ocidental e a Ortodoxia Oriental.

No entanto, o Império Bizantino enfrentou uma série de desafios ao longo dos séculos. As invasões de povos germânicos, as disputas internas e a crescente ameaça dos árabes e turcos começaram a minar a estabilidade bizantina. A expansão árabe no século VII resultou na perda de grandes partes do território bizantino no Oriente Médio e na África do Norte. As guerras constantes e as dificuldades econômicas, agravadas por crises internas e disputas dinásticas, enfraqueceram o império.

A partir do século XI, a situação do Império Bizantino tornou-se ainda mais precária. As derrotas militares, como a Batalha de Manzikert em 1071 contra os turcos seljúcidas, resultaram na perda de grande parte da Anatólia, uma região vital para o império. A pressão externa continuou a enfraquecer o império, que sofreu novos ataques dos turcos otomanos. Finalmente, em 1453, Constantinopla caiu nas mãos dos otomanos sob o comando do sultão Mehmed II, marcando o fim do Império Bizantino. A queda de Constantinopla significou a extinção do império que, por mais de mil anos, fora um bastião da cultura e da política na região mediterrânea.

Você quer saber mais?

SMITH, J. M. H. O Império Bizantino. Lisboa: Edições 70, 2004.

NORWICH, John Julius. História do Império Bizantino. São Paulo: Planeta, 2013. (Original em inglês, 2011.)

SIQUEIRA, José Carlos. O Grande Cisma: A Separação da Igreja Cristã em 1054. Petrópolis: Vozes, 2012.

LOSSKY, Vladimir. A Igreja Ortodoxa e o Império Bizantino. São Paulo: Paulus, 2011.

Islamismo: ascensão e expansão.

 O islamismo surgiu no século VII, na região da Arábia, com a pregação de Maomé (Muhammad), considerado pelos muçulmanos como o último profeta de Deus, ou Alá, em árabe. Maomé nasceu em 570 d.C., em Meca, uma importante cidade comercial, e começou a receber revelações divinas em 610 d.C., aos 40 anos. Essas revelações foram posteriormente reunidas no Alcorão, o livro sagrado do Islã.

No início, as mensagens de Maomé, que pregavam a crença em um Deus único e a justiça social, não foram bem aceitas pelos líderes de Meca, que se beneficiavam do comércio relacionado à adoração de vários deuses na Caaba, o principal santuário da cidade. Em 622 d.C., Maomé e seus seguidores foram obrigados a deixar Meca e se mudaram para Medina, no evento conhecido como Hégira, que marca o início do calendário islâmico. Em Medina, o Islã começou a se fortalecer, tanto religiosa quanto politicamente.

Em 630 d.C., Maomé e seus seguidores conseguiram conquistar Meca, e o Islã se tornou a principal religião da região. Após a morte de Maomé, em 632 d.C., a expansão islâmica continuou rapidamente sob a liderança dos califas, os sucessores do profeta. Em menos de um século, o Islã se espalhou por vastas áreas do Oriente Médio, Norte da África, Península Ibérica e até partes da Ásia Central.

A rápida expansão do Islã foi facilitada por fatores como a fraqueza dos impérios Bizantino e Sassânida (Persa), que dominavam a região, além da unificação política e religiosa oferecida pelo Islã, que atraía muitos povos. O comércio e as redes de caravanas também ajudaram a disseminar a nova religião. Entre 711 e 718 d.C., os exércitos islâmicos conquistaram boa parte da Península Ibérica. Ao longo do tempo, o islamismo influenciou profundamente a cultura, ciência e política das regiões por onde se espalhou. Hoje, o Islã é uma das maiores religiões do mundo, com mais de um bilhão de seguidores.

Você quer saber mais?

ARMSTRONG, Karen. O Islã. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

CHEBEL, Malek. História do Islã. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002.

GRUNEBAUM, Gustave E. von. A Civilização do Islã Clássico. São Paulo: Perspectiva, 2014.

GRIN, Monica. O que é o Islã?. São Paulo: Brasiliense, 1996. (Coleção Primeiros Passos)

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Segundo Reinado no Brasil: principais características

O Segundo Reinado no Brasil, sob o governo de Dom Pedro II (1840-1889), representa um dos períodos mais notáveis da história do país, marcado por progresso, estabilidade e respeito internacional. Dom Pedro II, um monarca ilustrado, liderou o Brasil por quase meio século, guiando a nação através de profundas transformações econômicas, sociais e culturais.

Estabilidade e unidade nacional

Dom Pedro II ascendeu ao trono com apenas 14 anos, e seu reinado trouxe uma notável estabilidade política a um país que, até então, havia enfrentado revoltas regionais e tensões internas. Durante sua liderança, ele conseguiu unificar o Brasil e manter a integridade territorial do Império, evitando as fragmentações que ocorreram em outros países latino-americanos após suas independências.

Desenvolvimento econômico

O Segundo Reinado também foi um período de grande avanço econômico. O Brasil passou por um processo de modernização e industrialização, com a introdução de ferrovias, telégrafos e a expansão dos portos. O café, principal produto de exportação, consolidou o Brasil como uma potência agrícola, enriquecendo a economia e integrando o país ao comércio global. Sob Dom Pedro II, o país se abriu para novas tecnologias e inovação, contribuindo para a crescente urbanização e diversificação econômica.

Cultura e educação

Dom Pedro II era um patrono da cultura e das artes, reconhecido por seu intelecto refinado e amor ao conhecimento. Ele promoveu a educação e fundou importantes instituições culturais, como a Academia Brasileira de Letras e o Museu Nacional. Seu governo investiu em ciência e tecnologia, valorizando o progresso do saber como alicerce de um país forte e próspero. O imperador, que dominava várias línguas e era um estudioso de diferentes áreas, via a educação como um meio de libertação e desenvolvimento social.

A questão social e a abolição da escravidão

Embora a escravidão tenha sido uma dura realidade no Brasil durante grande parte do Segundo Reinado, Dom Pedro II era um abolicionista como todos os Braganças desde D. João VI, mas devido as conjunturas econômicas e políticas diante do poder dos grandes cafeicultores e para evitar conflitos internos que levassem a um grande derramamento de sangue de brasileiros, como ocorreu na Guerra da Secessão dos Estados Unidos. Pautou-se então em uma emancipação gradual dos escravos. Sua influência foi fundamental na promulgação de leis que pavimentaram o caminho para a abolição, como a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885). A abolição definitiva da escravatura veio em 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, sua filha, encerrando um dos capítulos mais dolorosos da história do país.

Diplomacia respeitada

Internacionalmente, o Brasil ganhou respeito sob o governo de Dom Pedro II. Ele manteve uma diplomacia pacífica e eficiente, evitando conflitos desnecessários e projetando o Brasil como um ator equilibrado nas relações internacionais. Sua figura era admirada por governantes de todo o mundo, sendo o imperador recebido com honras em diversas nações.

Modernização e legado

Dom Pedro II não foi apenas um monarca, mas um estadista visionário, que buscava incessantemente o progresso e o bem-estar de seu povo. Ele acreditava no desenvolvimento científico, na liberdade de imprensa e na importância de uma nação educada. Seu governo deixou um legado de modernização e transformações que impactaram profundamente o futuro do Brasil.

O Segundo Reinado, portanto, é lembrado como uma era de glória e avanço, conduzida por um imperador que, com sabedoria e dedicação, guiou o Brasil por tempos de crescimento econômico, enriquecimento cultural e justiça social. Dom Pedro II foi, sem dúvida, um dos grandes líderes que moldaram a história do país. 

Principais características do Segundo Reinado:

  1. Estabilidade política: Durante seu reinado, o Brasil passou por um longo período de estabilidade política, apesar de algumas revoltas regionais. Ele conseguiu evitar guerras civis maiores e manteve a integridade territorial do país.

  2. Abolição da escravidão: Dom Pedro II foi um defensor da abolição da escravatura. Embora a escravidão tenha sido abolida somente no fim de seu reinado, em 1888, com a Lei Áurea, ele apoiou a causa abolicionista e a transição gradual.

  3. Desenvolvimento cultural e educacional: Dom Pedro II era um grande incentivador da educação, ciência e cultura. Ele fundou diversas instituições educacionais e científicas, como o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (atual Instituto Benjamin Constant) e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Além disso, era um patrono das artes e da literatura.

  4. Modernização: Sob seu governo, o Brasil avançou em infraestrutura e tecnologia. Houve expansão da rede ferroviária, do telégrafo e de serviços públicos, como iluminação a gás.

  5. Diplomacia eficiente: Dom Pedro II tinha uma política externa respeitada, mantendo relações pacíficas e estáveis com outras nações, como os EUA e as potências europeias. Ele também evitou conflitos externos, apesar de a Guerra do Paraguai (1864-1870) ter ocorrido em seu reinado.

Esses fatores contribuíram para o desenvolvimento do Brasil como um país mais estável e moderno.

Você quer saber mais?

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro II: A História Não Contada – O Último Imperador do Novo Mundo e a Longa Noite de uma Nação. Leya, 2019.

BARMAN, Roderick J. Dom Pedro II: Imperador Cidadão. Editora Unesp, 2012.

GÓES, Marcus. Dom João: O Trópico Coroado. Biblioteca do Exército, 2008.


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Ouro e Diamantes: Impactos Econômicos e Sociais da Mineração no Brasil Colonial

 A descoberta de ouro e diamantes no Brasil teve um impacto significativo na história econômica e social do país. A exploração de ouro começou em 1693, em Minas Gerais, quando foram encontrados depósitos na região de Vila Rica (hoje Ouro Preto). Posteriormente, a descoberta de diamantes na mesma região, em 1729, acentuou ainda mais o impacto econômico da mineração. Essas descobertas atraíram uma grande quantidade de colonos, escravizados e aventureiros para a área, resultando em uma rápida urbanização e crescimento das cidades mineradoras.

A exploração mineral trouxe grandes benefícios econômicos para a Coroa Portuguesa, com a cobrança de impostos e o aumento da riqueza colonial. No entanto, também gerou profundas consequências negativas. A mineração intensificou a exploração de mão de obra escravizada, com condições de trabalho extremamente duras e a formação de um mercado de escravos em expansão. 

Além disso, a corrida do ouro e dos diamantes contribuiu para o aumento da desigualdade social, com a concentração de riqueza nas mãos de poucos e a marginalização de muitos trabalhadores e indígenas. A economia baseada na mineração também causou uma dependência econômica que influenciou o desenvolvimento econômico do Brasil por muitos anos. Em resumo, a descoberta de ouro e diamantes foi um marco na história do Brasil, trazendo prosperidade econômica a curto prazo, mas também gerando problemas sociais e ambientais duradouros.

As descobertas de ouro e diamantes no Brasil impulsionaram o desenvolvimento econômico da colônia, gerando riqueza. Estimulou a urbanização e o crescimento das cidades mineradoras, como Ouro Preto. Além disso, incentivou a infraestrutura, com a construção de estradas e obras públicas. A mineração também trouxe um fluxo de novas ideias e técnicas, contribuindo para a evolução tecnológica da época.

Você quer saber mais?

Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questões Raciais no Brasil. Companhia das Letras, 1993.

Souza, Carlos Fico de. A Economia do Ouro e a Formação da Sociedade Brasileira: A Experiência Mineira no Século XVIII. Editora Record, 2004.

Caldas, João. A Mineração no Brasil Colonial: História e Consequências. Editora FGV, 2002.

Oliveira, José Murilo de. O Ouro e a Revolução: O Impacto da Mineração na Formação do Brasil. Editora Universidade Federal de Minas Gerais, 1999.

Três raízes, uma nação: o papel dos índios, negros e brancos na formação do Brasil

A formação do povo brasileiro é resultado de uma rica mistura de três principais grupos: indígenas, africanos e europeus. Os povos indígenas foram os primeiros habitantes do Brasil, trazendo suas culturas, línguas e conhecimentos sobre o território. 

Com a colonização, os europeus, principalmente portugueses, introduziram suas tradições, valores e modelos econômicos, além de trazerem africanos escravizados. Os africanos, forçados a trabalhar no Brasil, tiveram um papel fundamental na economia colonial, além de contribuírem de forma significativa com sua cultura.

A interação entre esses três grupos gerou uma identidade brasileira única, marcada pela diversidade étnica e cultural. Essa miscigenação moldou as características sociais, culturais e linguísticas que definem o Brasil contemporâneo.

Você quer saber mais?

Castro, Edna. Cultura e Identidade no Brasil: O Papel dos Índios, Negros e Brancos. Editora Zahar, 2012.

Kabengele, Munanga. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade e Política. Editora Cortez, 2004.

Schwarcz, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questões Racial no Brasil. Companhia das Letras, 1993.

Revolução comunista cubana

 Foi um movimento liderado por Fidel Castro que derrubou o regime ditatorial de Fulgencio Batista e instaurou um governo socialista em Cuba. A revolução começou em 1953 com o ataque fracassado ao quartel de Moncada, liderado por Castro e outros revolucionários, incluindo seu irmão Raúl Castro e Che Guevara. Após esse fracasso, Fidel foi preso e exilado no México, onde reorganizou suas forças e planejou um novo ataque.

Em 1956, Castro e seus seguidores desembarcaram em Cuba no iate Granma e iniciaram uma guerrilha nas montanhas da Sierra Maestra. Ao longo dos anos, o movimento ganhou apoio popular, principalmente entre os camponeses, insatisfeitos com a desigualdade social e a repressão do governo de Batista. Em 1959, após uma série de vitórias militares, o regime de Batista colapsou, e Fidel Castro assumiu o poder.

A revolução transformou Cuba em um Estado socialista, com uma economia planificada e forte alinhamento com a União Soviética. Houve nacionalizações de propriedades e empresas estrangeiras, além de grandes reformas na saúde e educação. No entanto, o governo de Castro também trouxe repressão política, censura, e a fuga de muitos cubanos para o exílio. A revolução cubana teve repercussões globais, sobretudo na Guerra Fria, com a Crise dos Mísseis de 1962 sendo um dos pontos mais tensos da época. Cuba se tornou um símbolo de resistência ao imperialismo, mas também enfrentou desafios econômicos e isolamento internacional devido ao embargo dos EUA.

As consequências negativas da Revolução Cubana incluem a repressão política, com prisões e perseguições a opositores do regime, e a censura à liberdade de expressão e imprensa. A economia foi fortemente afetada pelas nacionalizações, levando à fuga de capital e à escassez de bens. O embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a partir de 1962 agravou a situação, causando dificuldades econômicas prolongadas, como falta de alimentos e produtos básicos. Além disso, muitos cubanos fugiram para o exílio, principalmente para os EUA, em busca de melhores condições de vida. O regime autoritário também limitou as liberdades civis, instaurando um sistema de partido único que endureceu o controle sobre a população.

Você quer saber mais?

Fontova, Humberto. Fidel: O Tirano Mais Amado do Mundo. É Realizações, 2010.

Montaner, Carlos Alberto. Viagem ao Coração da Cuba: Uma História Crítica da Revolução Cubana. Editora Record, 2007.

Oppenheimer, Andrés. A Hora Final de Castro. Editora BestSeller, 1993.

Revolução comunista chinesa

 A Revolução Comunista Chinesa foi um processo histórico que culminou com a criação da República Popular da China em 1949, liderada pelo Partido Comunista Chinês (PCC) sob o comando de Mao Tsé-Tung. Ela teve suas raízes na insatisfação popular com a dinastia Qing e, posteriormente, com o governo do Kuomintang (Partido Nacionalista), liderado por Chiang Kai-shek, que assumiu o poder após a Revolução Xinhai de 1911. Durante as décadas de 1920 e 1930, o PCC e o Kuomintang se aliaram e se confrontaram várias vezes. A Longa Marcha, de 1934 a 1935, foi um momento crucial para o fortalecimento do Partido Comunista, que fugia da perseguição nacionalista, mas conseguiu sobreviver e consolidar sua base no campo.

Com o agravamento das condições socioeconômicas no país, a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) e a Guerra Civil Chinesa (1946-1949) criaram o cenário para a ascensão comunista. O PCC ganhou apoio principalmente entre os camponeses, prometendo reforma agrária e melhorias nas condições de vida. Em 1949, após derrotar as forças do Kuomintang, que fugiram para Taiwan, Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China, marcando o início de um regime comunista que buscava reconstruir o país sob a ideologia marxista-leninista e transformar radicalmente a sociedade chinesa. A revolução teve grande impacto na política global e na configuração geopolítica do século XX.

A Revolução Comunista Chinesa trouxe várias consequências negativas, especialmente nas décadas seguintes. O regime de Mao Tsé-Tung implementou políticas radicais, como o Grande Salto Adiante (1958-1962), que causou uma grave crise agrícola e a morte de milhões de pessoas por fome. Além disso, a Revolução Cultural (1966-1976) resultou em perseguições, prisões e mortes de intelectuais e opositores políticos, além da destruição de patrimônio cultural e científico. A centralização do poder e a repressão política limitaram liberdades individuais e causaram instabilidade social, deixando cicatrizes profundas na sociedade chinesa.

Você quer saber mais?

Fenby, Jonathan. A ascensão da China: de Mao à mercadoria. Editora Globo, 2009.

Short, Philip. Mao: a história desconhecida. Companhia das Letras, 2005.

Dikotter, Frank. A grande fome de Mao: a história da catástrofe mais devastadora da China (1958-1962). Editora Record, 2017.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Rebeliões do Período Regencial

Um período conturbado 

O período regencial foi marcado por diversas revoltas. Em geral, elas foram provocadas pelo conflito de ideias entre grupos da camada dominante, dividida entre liberais e conservadores. Essas revoltas, contudo, serviram como estímulo permanente para movimentos de origem social, que chegaram inclusive a ameaçar, em algumas regiões do país, a ordem escravocrata. Por meio desses conflitos, os trabalhadores livres pobres e os escravos integravam-se à luta pelo poder político. Mas, com frequência, serviram apenas de massa de manobra nas disputas entre as correntes oriundas das elites; e pouco conseguiram no que se refere a romper os privilégios da aristocracia rural e melhorar as próprias condições de vida. 

Cabanagem (1835-1840) 

Calcula-se que as lutas desencadeadas pela mais violenta rebelião da Regência, a Cabanagem, provocaram a morte de 30 mil pessoas no Pará (a província tinha 80 mil habitantes em 1819). Dois fatos associaram-se para dar início aos cinco anos de conflitos: o inconformismo de fazendeiros e comerciantes contra o presidente nomeado pelo poder central e a miséria da população. A maioria dos paraenses vivia em cabanas perto dos rios, daí o nome de cabanos dado aos revoltosos. Na verdade, os cabanos foram além do que pretendiam alguns de seus líderes, pois transformaram a rebeldia das elites contra o poder central numa luta sem tréguas por melhores condições de vida. Em 1835, os cabanos depuseram o presidente da província e ocuparam Belém. Três presidentes rebeldes se sucederam no poder. O primeiro foi o fazendeiro e comerciante Félix Malcher. Acusado de traição e de jurar fidelidade ao imperador, Malcher foi deposto pelo chefe militar dos cabanos, Pedro Vinagre, que assumiu o poder. Pouco tempo depois, Vinagre abandonou o posto ante os ataques das forças do governo central, apoiadas pelo mercenário inglês John Taylor. Eduardo Angelim tornou-se o terceiro presidente rebelde. Entretanto, pouco mais de um ano depois de tomar Belém, os cabanos tiveram de se retirar para o interior. Os últimos rebeldes, mais de 1.000, só se entregaram no início de 1840, o ano da maioridade. A guerra civil no Pará deu lugar a incríveis atrocidades. Arthur Reis, citado por Sérgio Buarque de Holanda em História geral da civilização brasileira, relata que mesmo os suspeitos de rebeldia eram caçados como animais ferozes e sofriam suplícios bárbaros, que às vezes provocavam a morte.

A Guerra dos Farrapos (1835-1845) 

Causas econômicas, políticas e ideológicas levaram os gaúchos a pegar em armas para tentar separar-se do Império, naquela que ficou conhecida como Guerra dos Farrapos por causa dos precários trajes dos rebeldes. Pesados impostos oneravam os produtos gaúchos vendidos em outras províncias: charque, couro, muares (tropas de burros). Tais impostos diminuíam a capacidade de concorrência com mercadorias uruguaias, argentinas e paraguaias. Além disso, às vezes, os impostos eram cobrados no lugar de venda, ou seja, beneficiavam outras províncias. O cenário político na província estava dividido entre os farroupilhas, que queriam mudanças e autonomia, e os chimangos, favoráveis à situação. Na região havia também forte influência das ideias republicanas, já que os gaúchos eram vizinhos das jovens repúblicas do Prata: Uruguai, Argentina e Paraguai. A revolta começou quando um grupo liderado pelo farroupilha Bento Gonçalves exigiu a renúncia do presidente da província. A cidade de Porto Alegre foi ocupada e a Assembléia teve de nomear novo presidente. Em 1836, os revoltosos proclamaram a República Rio-Grandense, com sede em Piratini. Três anos depois, em 1839, conquistaram Laguna, em Santa Catarina, onde proclamaram a República Juliana (era mês de julho). Para a conquista de Santa Catarina, os gaúchos contaram com a decisiva colaboração do italiano Giuseppe Garibaldi, que se destacaria mais tarde na luta pela unificação da Itália. Por terra, sobre carretas, Garibaldi conduziu duas embarcações da lagoa dos Patos até Tramandaí, a 60 quilômetros de distância, atacando de surpresa as forças imperiais. Somente em 1845, já no reinado de dom Pedro II, a paz voltaria a reinar na região. O movimento foi sufocado por Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, que já havia atuado em outros conflitos regionais. Lima e Silva foi nomeado presidente da província em 1842 e fez ofertas irrecusáveis aos farroupilhas: anistia para todos, incorporação dos oficiais revoltosos ao Exército imperial no mesmo posto, devolução de toda propriedade ocupada ou confiscada durante a guerra, libertação dos escravos que haviam lutado ao lado dos rebeldes. Com uma duração de dez anos, a Guerra dos Farrapos, ou Rebelião Farroupilha, foi a mais longa guerra civil da nossa história.

A Sabinada (1837-1838)

A Sabinada foi o momento culminante de vários movimentos rebeldes na Bahia contra a política imposta pelas regências. Um desses movimentos foi a revoltaa dos escravos malês em 1835. O principal líder da Sabinada foi o médico e jornalista Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira (daí o nome da revolta). A rebelião começou em novembro de 1837, com a sublevação das tropas e a fuga do governador. Os rebeldes formaram seu próprio governo e divulgaram um programa em que defendiam a proclamação da República Baiense, a separação da província até a maioridade de dom Pedro e a convocação de uma Assembléia Constituinte. Apesar desse programa moderado, a repressão das forças do governo central se abateu sobre os revoltosos com requintes de crueldade. Os soldados imperiais chegaram a incendiar as casas e a lançar prisioneiros vivos ao fogo. Houve cerca de 600 mortos entre os legalistas e pouco mais de 1.000 entre os rebeldes.

A Balaiada (1838-1841) 

No início do século XIX, quase a metade dos 200 mil maranhenses eram escravos. Grande parte do restante compunha-se de sertanejos miseráveis. Proprietários rurais e comerciantes controlavam o poder. A insatisfação social era antiga. Aumentou ainda mais quando os políticos conservadores tentaram aumentar os poderes dos prefeitos, causando protestos entre os liberais. A insatisfação popular transformou-se então em revolta e a revolta em movimento capaz de mobilizar os setores marginalizados da população. O movimento revoltoso passou a exigir a demissão dos portugueses incrustados no Exército e na administração. Recebeu o nome de Balaiada porque um de seus líderes se chamava Manuel Balaio. Vivia ele de fazer balaios, como milhares de artesãos que o seguiram. A rebelião começou em 1838, quando um grupo liderado pelo vaqueiro Raimundo Gomes, o Cara Preta, tomou de assalto uma cadeia. A esse ataque seguiram-se outras ações armadas promovidas por Manuel Balaio e seus homens. Algumas fazendas foram atacadas. Escravos aproveitaram-se da confusão para fugir e formar quilombos. Um deles chegou a reunir cerca de 3 mil escravos comandados pelo preto Cosme. Os rebeldes recebiam apoio político dos liberais, apelidados de bem-te-vis. Estes usavam o movimento popular para tentar a conquista do poder. Numa importante vitória, os balaios tomaram a vila de Caxias em 1839. No ano seguinte, o governo central nomeou presidente da província o coronel Luís Alves de Lima e Silva. A anistia decretada em agosto de 1840 provocou a rendição imediata de cerca de 2.500 balaios. Quem resistiu foi derrotado a seguir. Raimundo Gomes, o Cara Preta, entregou-se. Enviado preso para São Paulo, morreu no caminho. Cosme, chefe de um quilombo, não se entregou. Caçado sem trégua, foi preso e enforcado. Rebelião das camadas pobres, a Balaiada foi expressão da resistência popular contra as desigualdades e injustiças da sociedade escravista.

A Revolta dos Malês (Bahia, 1835) 

Com 65.500 habitantes no começo do século XIX, Salvador era a cidade mais populosa da Bahia. Segundo a historiadora Kátia Mattoso, cerca de 90 por cento de sua população livre, estimada em 38 mil pessoas, vivia no limiar da pobreza. Essa situação se agravou ainda mais nas décadas de 1820 e 1830, quando a região foi assolada por fortes secas.  Negros e pardos livres e escravizados representavam a maior parte dessa população (cerca de 72 por cento, segundo cálculos do historiador João José Reis). Vítimas constantes do preconceito racial e da opressão social, muitos deles se rebelaram em 1835 em Salvador. Foi a Revolta dos Malês, cujo objetivo declarado era destruir a dominação branca na região e construir uma Bahia só de africanos.  Do movimento fizeram parte principalmente os malês, nome dado aos escravos seguidores do islamismo. Eles pertenciam a diferentes etnias, como a dos haussás, jejês e nagôs; muitos sabiam ler e escrever. Também participaram do movimento nagôs seguidores do candomblé.  A revolta começou no dia 24 de janeiro. A idéia dos rebeldes era ocupar de surpresa o centro de Salvador. Segundo a historiadora Magali Gouveia Engel, cerca de seiscentos negros, armados principalmente de espadas, participavam do levante. Após intensos combates, os rebeldes foram derrotados pelas forças policiais, que utilizavam armas de fogo. Centenas de participantes da revolta morreram ou ficaram feridos. Após a rebelião, desencadeou-se violenta repressão contra os africanos e afro-brasileiros. Muitos foram condenados ao açoite, à prisão ou à deportação. Três escravos e um liberto foram condenados à morte e acabaram fuzilados, pois nenhum carrasco concordou em enforcá-los.

Uma economia deficitária 

Durante o Período Regencial, o comércio exterior brasileiro foi quase o tempo todo deficitário. O Brasil importava mais do que exportava e, por isso, estava sempre devendo a credores internacionais. Essa situação começou já no Primeiro Reinado e se prolongou até 1860. Para pagar as dívidas, o país contraía empréstimos externos, solução que ia transferindo o problema para o futuro. Novos pagamentos eram acrescidos a título de juros e amortizações da dívida externa. O resultado foi o contínuo aumento do desequilíbrio nas contas com o exterior, O Brasil enfrentava também escassez de dinheiro, por causa do esvaziamento dos cofres pela família real em sua volta a Portugal em 1821, da indenização paga a Lisboa pelo reconhecimento da independência e dos gastos com a Guerra da Cisplatina e com as revoltas internas. Por falta de recursos e máquinas, as indústrias não puderam desenvolver-se. Além disso, os produtos ingleses exerciam concorrência desigual. O caso da indústria têxtil é um exemplo típico. Os ingleses, favorecidos pelas baixas taxas alfandegárias, colocavam seus tecidos no mercado brasileiro em melhores condições que o produto nacional. Como se não bastasse, existiam obstáculos para a importação de máquinas por brasileiros. Em 1840, mais da metade dos gastos com importação de manufaturados referia-se ao pagamento de produtos relacionados a vestuário. Essas condições acabaram por sufocar todas as tentativas de industrialização no Brasil. O setor de mineração alcançou alguns progressos graças à ajuda de capitais ingleses.

Você quer saber mais?

ARRUDA, José Jobson de A; PILETTI, Nelson. Toda a História: História Geral e História do Brasil-9º edição. São Paulo: Ed. Ática, 1999.

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Volume Único. São Paulo: Ed. Ática, 2011. 

VAINFAS, Ronaldo; FERREIRA, Jorge; FARIA, Sheila de Castro; CALAINHO, Daniela Buono. História.doc. São Paulo: Ed.Saraiva, 2015.

JÚNIOR, Alfredo Boulos. Coleção História: Sociedade & Cidadania. São Paulo: FTD, 2004.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral-8º edição. São Paulo: Editora Saraiva, 2005, pg.71.

COTRIM, Gilberto; RODRIGUES, Jaime. Historiar- 2º ediçaõ. São Paulo: Editora Saraiva,  2015, pg.206-209.

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História para Ensino Médio: História Geral e do Brasil. São Paulo: Editora Scipione, 2005.

REZZUTTI, Paulo. D.Pedro I:  A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. São Paulo: Leya, 2020.




segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O mito da fundação de Roma

       Levanta-se a hipótese de que Roma teria sido formada em meio à aliança dos povos latinos e sabinos contra as invasões do povo etrusco. Em contrapartida, o historiador romano Tito Lívio, no livro História de Roma, e o poeta Virgílio compartilham de outra tentativa de explicação para o assunto.

     Para ambos, a origem de Roma esteve vinculada com a lendária destruição que os gregos promoveram à cidade de Troia, em 1400 a.C.. Nessa época, o herói Eneias – graças à proteção dos deuses Júpiter e Vênus – fugiu para a região da Península Itálica e ali fundou a cidade de Lavínio. Tempos depois, Ascânio, filho de Eneias, realizou a fundação do reino de Alba Longa.

       Em dado momento, a prosperidade alcançada pelo reino de Alba Longa despertou a cobiça do ambicioso Amúlio, irmão mais novo do rei Numitor. Para assumir o trono no lugar de seu irmão, Amúlio organizou um golpe que lhe garantiu a posse do trono de Alba Longa. Além de aprisionar Numitor, o novo rei de Alba Longa confinou a princesa Rea Sílvia e a condenou à castidade. Observando tal situação, o deus Marte desposou a princesa aprisionada, que ficou grávida dos gêmeos Rômulo e Remo.

        O nascimento de dois descendentes de Numitor poderia colocar em risco a hegemonia de Amúlio sob o reino de Alba Longa. Por isso, assim que as crianças nasceram, ordenou que ambas fossem lançadas nas correntezas do rio Tibre. O plano de morte dos recém-nascidos acabou não funcionando, pois ambos foram encontrados às margens do rio por uma loba que ofereceu seu próprio leite às pequenas crianças. Logo em seguida, um camponês de nome Fáustulo e sua mulher cuidaram de Rômulo e Remo.

        Quando os irmãos haviam atingido a idade adulta, o jovem Remo acabou sendo preso pelo rei Amúlio depois de entrar em atrito com pastores vizinhos à sua propriedade. Perturbado com a prisão de seu filho de criação, Fáustulo contou para Rômulo que ele e seu irmão eram os verdadeiros descendentes do trono de Alba Longa. Enfurecido pelo desvendamento da verdade, Rômulo foi até o palácio, libertou o seu irmão, matou o rei Amúlio e libertou o seu avô Numitor.

        Após devolverem a Coroa ao seu ascendente, os irmãos tiveram permissão para fundarem uma nova cidade às margens do rio Tibre. Após decidirem a região a ser ocupada, os gêmeos se dirigiram às proximidades do montes Aventino e Palatino. Remo tomou para si o monte Aventino depois de observar seis abutres sobrevoando o seu monte. Logo depois, Rômulo foi indicado como o abençoado dos deuses ao ter observado doze aves próximas ao monte Palatino.

        Depois que recebeu a distinta bênção das divindades, Rômulo cavou um sulco que separava seus domínios do seu irmão. Enciumado por aquela situação, Remo desconsiderou o marco criado pelo seu irmão e atravessou o território. Furioso com o comportamento desrespeitoso de Remo, Rômulo matou o irmão e enterrou o seu corpo nas terras do monte Aventino.

        Após a desavença, Rômulo se tornara o primeiro rei de Roma e tomou providências diversas para que a nova cidade fosse povoada. Após a chegada de alguns dos primeiros habitantes, Rômulo entrou em guerra contra Tito Tácio, rei do sabinos, que por fim aceitou a unificação dos territórios que definiram os primeiros limites da cidade de Roma."

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GIORDANI, Mário Curtis. História de Roma- Antiguidade Clássica II. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1968.



domingo, 25 de agosto de 2024

Período Regencial (Brasil Império)

     Obrigado a intervir nos acontecimentos de Portugal, dom Pedro perdeu cada vez mais apoio na política interna do Brasil. Procurando recuperar a popularidade perdida, em 1829 reformou o ministério, acusado de favorecer o absolutismo. 

        O episódio, conhecido como Noite das Garrafadas, marcou o início de uma série de conflitos entre oposicionistas e partidários do imperador. No dia 6 de abril dom Pedro destituiu seu ministério composto apenas por brasileiros e o substituiu por outro, formado por defensores do absolutismo. Em resposta, a população do Rio de Janeiro, juntamente com tropas do Exército, concentrou-se no Campo de Santana e exigiu a volta do ministério deposto. Enfraquecido e sem apoio militar, o imperador abdicou do trono em favor do filho, o príncipe Pedro de Alcântara, de apenas 5 anos. Era o dia 7 de abril de 1831, Uma semana depois, o ex-imperador partiu rumo a Portugal. Deixava no Brasil dom Pedro de Alcântara sob a tutela de José Bonifácio.

        No Brasil, tal como previa a Constituição, ainda em abril de 1831 formou-se uma Regência Trina Provisória para governar o país. Pela primeira vez, a elite nacional assumia plenamente o controle da nação. Estava previsto na Constituição. Em caso de morte ou abdicação do imperador, e estando seu herdeiro impossibilitado de assumir o trono por razões de menoridade, o governo seria entregue a uma Junta de três regentes indicados pela Assembleia Geral (Câmara de Deputados e Senado), até que o jovem príncipe atingisse a maioridade, ao completar 18 anos.  Foram escolhidos José Joaquim Carneiro de Campos, ex-ministro de dom Pedro I, da corrente conservadora; o senador Nicolau Vergueiro, latifundiário de São Paulo e ligado aos liberais moderados; e um representante do Exército, o brigadeiro Francisco de Lima e Silva. A Regência Trina Provisória governou até 17 de junho de 1831, quando a Assembléia Geral elegeu a Regência Trina Permanente. 

        Para a nova regência foram escolhidos João Bráulio Muniz, representando as províncias do Norte, e José da Carvalho, pelas do Sul. Ambos eram ligados aos liberais moderados. Mantido no cargo, o brigadeiro Francisco de Lima e Silva continuava a ser o terceiro nome da Regência. O novo governo assumiu em meio a um clima de tensão em diversos pontos do país. O Ato Adicional de 1834 criou também a Regência Una, que deveria substituir a Regência Trina Permanente, determinando a eleição do regente por meio do voto popular para um mandato de quatro anos.

        Realizadas em abril de 1835, as eleições para regente contaram com a participação de cerca de 6 mil eleitores (pouco mais de 0,1 por cento da população, estimada em 5 milhões de pessoas). Venceu o ex-ministro da Justiça, padre Diogo Antônio Feijó. Feijó assumiu a Regência Una em outubro de 1835, em meio a uma crise de grandes proporções. Em algumas províncias, a situação era de guerra civil, como ocorria no Pará, com a rebelião conhecida como Cabana em (1835-1840), e no Rio Grande do Sul, com a Guerra dos Farrapos (1835-1845) sobre as rebeliões na Regência. Em setembro de 1837 Feijó renunciou à Regência. O cargo de regente foi, então, ocupado interinamente pelo ministro do Interior, Pedro de Araújo Lima. No pleito realizado meses depois, o próprio Araújo Lima, apoiado pelos regressistas, foi eleito regente.

       Em abril de 1840 formou-se o chamado Clube da Maioridade, cuja presidência foi entregue ao liberal Antônio Carlos de Andrada e Silva, irmão de José Bonifácio. A campanha foi para as ruas, com a distribuição de panfletos e a criação de quadrinhas defendendo a maioridade do jovem príncipe. O próprio dom Pedro apoiava a proposta. Depois de muitos debates, no dia 23 de julho de 1840, a Câmara e o Senado aprovaram o projeto liberal, concedendo a maioridade a dom Pedro de Alcântara, então com 14 anos de idade, e declarando-o imperador do Brasil como dom Pedro II. O episódio ficaria conhecido como Golpe da Maioridade. No dia seguinte, o soberano organizou seu ministério, composto de representantes do Partido Liberal. Era o início de um reinado que iria se estender pelos 49 anos seguintes.

Você quer saber mais?

ARRUDA, José Jobson de A; PILETTI, Nelson. Toda a História: História Geral e História do Brasil-9º edição. São Paulo: Ed. Ática, 1999.

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Volume Único. São Paulo: Ed. Ática, 2011. 

VAINFAS, Ronaldo; FERREIRA, Jorge; FARIA, Sheila de Castro; CALAINHO, Daniela Buono. História.doc. São Paulo: Ed.Saraiva, 2015.

JÚNIOR, Alfredo Boulos. Coleção História: Sociedade & Cidadania. São Paulo: FTD, 2004.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral-8º edição. São Paulo: Editora Saraiva, 2005, pg.71.

COTRIM, Gilberto; RODRIGUES, Jaime. Historiar- 2º ediçaõ. São Paulo: Editora Saraiva,  2015, pg.206-209.

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História para Ensino Médio: História Geral e do Brasil. São Paulo: Editora Scipione, 2005.

REZZUTTI, Paulo. D.Pedro I:  A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. São Paulo: Leya, 2020.





quarta-feira, 21 de agosto de 2024

A Guerra Fria

 A Segunda Guerra Mundial chegou ao final em 1945. Mas o ato final dessa guerra ocorreu com a explosão de duas bombas atômicas no Japão. O mundo, a partir daí, não seria mais o mesmo. Dos escombros da Segunda Guerra, surgiram dois poderosos países, com diferentes regimes políticos, em constantes conflitos e armados com artefatos nucleares de enorme capacidade destrutiva.

Ao final da guerra na Europa, ocorreu uma terceira reunião, a Conferência de Potsdam, na Alemanha. O primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, e o novo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, não se mostravam dispostos a cumprir os acordos anteriores. Eles não queriam que os países do Leste europeu ficassem sob a influência soviética. 

Winston Churchill, em 1946, usou uma expressão que ficou muito conhecida: “Uma cortina de ferro abateu-se sobre o continente”. Nessa referência à Europa, ele criticava a dominação soviética sobre o Leste europeu e países aprisionados em uma “cortina de ferro”. Também era uma crítica ao comunismo. Mas o discurso mais duro contra a União Soviética e ao comunismo foi proferido pelo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, um ano depois. O discurso ficou conhecido como Doutrina Truman. Para ele, o mundo estava dividido em dois sistemas que abrangiam aspectos políticos, econômicos, sociais e ideológicos. Foi nesse contexto internacional que teve início a chamada Guerra Fria. Era uma guerra política e ideológica, mas sem o calor das armas. Cada lado se autoelogiava e criticava o outro. 

A Guerra Fria tem origem na ambição dos Estados Unidos e da União Soviética de manterem suas áreas de influência no mundo. Os Estados Unidos tinham como aliados os países da Europa Ocidental, como a Inglaterra, a França e a Itália, entre outros. Tinha também como aliados o Japão e os países da América Latina. A União Soviética, por sua vez, exercia domínio sobre os países da Europa Oriental. O mundo, a partir de 1947, conheceu uma ordem mundial bipolar, com dois poderosos países exercendo domínio econômico, político e ideológico em suas áreas de influência. Durante 40 anos, Estados Unidos e União Soviética viveram em antagonismo, e conflitos periódicos. Na época da Guerra Fria, o debate político e ideológico entre os defensores do capitalismo e do socialismo soviético foi intenso. Os partidários do sistema capitalista apoiavam a propriedade privada, a liberdade de iniciativa dos empresários, o livre mercado e as liberdades individuais. Na política, defendiam a democracia liberal, embora muitos países capitalistas vivessem sob ditaduras. Os que apoiavam o modelo de socialismo existente na União Soviética - também chamado de comunismo — afirmavam que o Estado investia fortemente em saúde, educação e habitação, além de garantir o igualitarismo social.

A Guerra Fria ficava cada vez mais acirrada. No entanto, os Estados Unidos tinham um trunfo: a bomba nuclear. A União Soviética ainda não dominava essa tecnologia; mas, em 1949, explodiu a sua primeira bomba nuclear. Em 1952, os militares estadunidenses explodiram um novo tipo de bomba nuclear: a de hidrogênio, cujo poder destrutivo era muito mais devastador. A explosão foi no atol de Bikini. Ela era mil vezes mais potente que a bomba lançada sobre Hiroshima. Mas, em 1958, os soviéticos explodiram a sua própria bomba de hidrogênio. 

Para evitar que crises como essa provocassem uma guerra, no ano seguinte foi instalada uma linha telefônica entre a Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, e o Kremlin, centro do poder soviético, de modo a colocar em contato direto os lideres das duas superpotências em momentos de grande tensão internacional, Essa linha era conhecida como telefone vermelho. 

Em 1957,o mundo foi surpreendido com o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra — o Sputnik, de fabricação Soviética. Era o começo da corrida espacial entre as duas superpotências. Os soviéticos saiam na frente. Uma semana depois, foi colocado em órbita o Sputnik 2, com a cadela Laika, primeiro ser vivo a ir para o espaço. O governo dos Estados Unidos reagiu em 1958, com a criação da Nasa, órgão responsável pelo programa espacial norte-americano e o lançamento do Explorer 1 no mesmo ano. 

A partir de 1960, o principal objetivo das viagens espaciais passou a ser o envio de seres humanos ao espaço. Novamente a União Soviética saiu na frente: em 1961, enviou Yuri Gagarin na cápsula espacial Vostok 1, que percorreu cerca de 40 mil quilômetros em volta da Terra numa única órbita. A viagem durou 1 hora e 48 minutos. Em 1962, os norte-americanos enviaram John Glenn ao espaço. Apesar da vantagem inicial soviética, foram astronautas norte-americanos os únicos seres humanos a chegar à Lua até agora. Em 20 de julho de 1969, o módulo lunar da nave Apollo 11 pousou no solo do satélite. Neil Armstrong, um de seus três tripulantes, tornou-se, então, o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar.

Você quer saber mais?

ARRUDA, José Jobson de A; PILETTI, Nelson. Toda a História: História Geral e História do Brasil-9º edição. São Paulo: Ed. Ática, 1999.

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Volume Único. São Paulo: Ed. Ática, 2011. 

VAINFAS, Ronaldo; FERREIRA, Jorge; FARIA, Sheila de Castro; CALAINHO, Daniela Buono. História.doc. São Paulo: Ed.Saraiva, 2015.

JÚNIOR, Alfredo Boulos. Coleção História: Sociedade & Cidadania. São Paulo: FTD, 2004.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral-8º edição. São Paulo: Editora Saraiva, 2005, pg.71.

COTRIM, Gilberto; RODRIGUES, Jaime. Historiar- 2º ediçaõ. São Paulo: Editora Saraiva,  2015, pg.206-209.

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História para Ensino Médio: História Geral e do Brasil. São Paulo: Editora Scipione, 2005.

REZZUTTI, Paulo. D.Pedro I:  A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. São Paulo: Leya, 2020.




sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Sete de setembro e o Império que nasce

 “Faça patente ao público as minhas ideias acerca do comércio da escravatura, que, segundo penso, é uma das causas do atrasamento em que, por ora estamos. […]” D. Pedro I

D. Pedro partiu do Rio de Janeiro para São Paulo em 14 de agosto para apaziguar a situação, pois parte do governo provincial tinha se aliado às Cortes de Portugal, mas um dia antes publicou um decreto redigido por José Bonifácio, mediante o qual nomeava D. Leopoldina regente em seu lugar, sendo-lhe autorizado despachar com os ministros, os secretários e o Conselho de Estado enquanto o príncipe estivesse viajando.

O Príncipe Regente vinha acompanhado por uma pequena escolta, mas durante a viagem a comitiva engrossou, recebendo a adesão de cidadãos notáveis da região do Vale do Paraíba. No dia 25 a comitiva entrou em São Paulo, segue o relato de uma testemunha: “ele era um moço bonito, de olhar alegre e de barbas ‘suíças’. Quando apeou do cavalo, então, causava admiração. Alto, elegante e sem luxo”.

No dia de setembro, subiu de Santos a São Paulo pela estrada de ligação entre o litoral e o planalto. D. Pedro não vestia farda de gala na ocasião, e sim uma fardeta azul de polícia, sem luxo algum. Trajava calças da mesma cor, botas grandes e envernizadas e um chapéu armado. Também levava sua espada. Ia montado em uma égua possante. De acordo com as memórias deixadas pelo primeiro comandante de sua guarda de honra, o coronel Antônio Leite Pereira da Gama Lobo: “Após subir a serra e assim que chegaram ao planalto chegou um correio vindo do Rio de Janeiro alcançou o príncipe e entregou-lhe um ofício e cartas enviadas pela regência. Ao lê-los, disse-me que as Cortes queriam massacrar o Brasil”.

Chegando ao ribeirão do Ipiranga, a guarda parou junto a uma casinhola que ficava à beira da estrada, à margem daquele riacho. Ao longe a comitiva viu chegar dois viajantes que logo reconheceram ser oficiais da Secretaria do Supremo Tribunal Militar, que a mandado de José Bonifácio vinha do Rio de Janeiro apressadamente, procurando D. Pedro. 

Os correios traziam despachos do governo de Portugal e notícias das cortes, além de cartas de José Bonifácio e de D. Leopoldina. Em 28 de agosto, chegara ao Rio de Janeiro o navio Três Corações, que deixando Portugal em 3 de julho, trazia informações a respeito do que se passava em Lisboa. Soube-se, talvez por nota dos deputados brasileiros no congresso, extratos da ata ou algum resumo das decisões que seriam adotadas em relação ao Brasil. Somente em 21 de setembro, pelo navio Quatro de Abril, chegariam as cartas régias obrigando a que fossem cumpridas. 

As resoluções, debatidas nas Cortes em junho de 1822 e votadas em 1° de julho, negavam a petição enviada do Brasil para que se repensasse a fragmentação do reino em províncias ligadas diretamente a Portugal. Além do mais, as Cortes consideravam violenta e injuriosa a linguagem usada pelo governo provisório de São Paulo  em carta a D. Pedro de dezembro de 1821, na qual pedia que não obedecessem às ordens de deixar o Brasil. Os membros do governo, incluindo José Bonifácio, agora ministro, deveriam ser presos, processados e julgados. Todas as decisões do príncipe ficavam anuladas, inclusive a criação do Conselho de Procuradores. Para piorar, D. Pedro e a família deveriam cumprir as ordens anteriores e retornar à Europa. Além disso, vinham também informações, da princesa e de José Bonifácio, do desembarque de tropas na Bahia e da chegada prevista de reforços portugueses, que fariam do local uma ponta de lança para varrerem do restante das províncias brasileiras quem se posicionasse com o príncipe pela unidade do Brasil.

Os despachos vindos do Rio de Janeiro ainda davam conta de uma reunião do Conselho de Estado, convocado e presidido por D. Leopoldina em 2 de setembro, no palácio de São Cristovão. Segundo o cronista Melo Morais, cita-se:

“Ali se deliberou sem discussão, depois de José Bonifácio ter feito uma exposição verbal do estado em que achavam os negócios públicos, e de concluir, e de concluir, dizendo ter chegado a hora de acabar com aquele estado de contemporizar com os seus inimigos, que o Brasil tinha feito tudo quanto humanamente era possível fazer para conservar-se unido com dignidade a Portugal, mas que Portugal em vez de acompanhar e agradecer a generosidade com que o Brasil o tratava, insistia nos seus nefastos projetos de o tornar à miserável condição de colônia, sem nexo e nem centro de governo, que portanto ficasse com ele a responsabilidade da separação. Propôs que se escrevesse ao sr. D. Pedro para que seu Alteza Real houvesse de proclamar a independência sem perda de tempo. A princesa real, que se achava muito entusiasmada em favor da causa do Brasil, sancionou com muito prazer a deliberação do Conselho sobre a separação do Brasil de Portugal”.

D. Leopoldina e o marido já haviam conservado sobre isso antes e ela estava ciente que o marido ratificaria sua decisão. Junto as despachos havia uma carta de José Bonifácio que entre outras coisas dizia:

“Ministro fiel, que arrisquei tudo por minha pátria e pelo meu príncipe, servo obedientíssimo do senhor D. João VI, que as Cortes têm na sua detestável coação, eu como ministro, aconselho a Vossa Alteza que fique e faça do Brasil um reino feliz, separado de Portugal, que é hoje escravo das Cortes despóticas. Senhor, ninguém mais que sua esposa deseja a sua felicidade, e ela lhe diz em carta que com esta será entregue que Vossa Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que o deseja como seu soberano, sem ligações e obediências às despóticas Cortes portuguesas que querem a escravidão do Brasil e a humilhação do seu  adorado príncipe regente. Fique, é o que todos pedem ao magnânimo príncipe que é Vossa Alteza, para o orgulho e felicidade do Brasil. Se se não ficar, correrão rios de sangue nesta grande e nobre terra, tão querida do seu pai, que já não governa em Portugal pela opressão das Cortes, nesta terra que tanto estima a Vossa Alteza e a quem tanto Vossa Alteza estima”.

D. Leopoldina dizia ao marido:

“Pedro, o Brasil está como um vulcão. Até no paço há revolucionários. Até oficiais das tropas são revolucionários. As Cortes Portuguesas ordenam vossa partida imediatamente, ameaçam-vos e humilham-vos. O Conselho do Estado aconselhava-vos para ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças, se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nossos pais. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das Cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. […] O Brasil vos quer para seu monarca. Com o vosso apoio ou sem o vosso apoio fará a separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece. […] Fazei, pois. Terei o apoio do Brasil inteiro e,  contra a vontade do povo brasileiro, os soldados portugueses que aqui estão nada podem fazer”.

Após as cartas e os despachos  terem sido entregues pelos correios a D. Pedro, pediu para o padre Belchior lesse em voz alta o conteúdo do material recebido. D. Pedro, após se ajeitar, amassou as cartas e as jogando ao chão, de onde foram recolhidas e guardadas pelo religioso. Ele virou-se para o padre e disse:

___ E agora, padre Belchior? 

E o padre respondeu:

___Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho senão a independência e a separação.

D. Pedro então cavalgou em direção a uma venda onde se achavam quase todos os Dragões da Guarda. Havia de ser quatro horas da tarde, mais ou menos. Vinha o príncipe na frente. Vendo-o voltar-se para o nosso lado, a tropa saiu ao seu encontro. Diante da Guarda que descreveu um semicírculo, estacou o seu animal e de espada desembainhada bradou, segundo relata o padre Belchior:

“Amigos, as Cortes portuguesas querem escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje me diante, nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais”. ___ E arrancando (o príncipe) do chapéu o laço azul e branco decretado pelas Cortes, como símbolo da nação portuguesa, atirou-o ao chão dizendo: “Laços fora, soldados! Vivam a independência, a liberdade e a separação do Brasil”! Respondemos com um viva ao Brasil independente e separado, e um viva a Pedro. O príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares, os paisanos tiraram os chapéus. E D. Pedro disse: “Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil”. E todos responderam “juramos”.

D. Pedro embainho a espada, no que foi imitado pela guarda, pôs-se à frente da comitiva e voltou-se, ficando em pé nos estribos: “Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será Independência ou Morte!”

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REZZUTTI, Paulo. D. Pedro- a história não contada. São Paulo: Ed. LeYa, 2020.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O muro da vergonha comunista, o muro de Berlim!

 A maldade do comunismo não é, nele, mero acidente, que tanto poderia existir como não existir. É uma consequência necessária de suas concepções filosóficas e morais. 

O Muro de Berlim foi erguido pela socialista República Democrática da Alemanha no dia 13 de agosto de 1961 e só foi derrubado pelo povo no dia 9 de novembro de 1989. Foram o equivalente a 28 anos, dois meses e 27 dias dividindo famílias, amigos, companheiros de trabalho e conterrâneos dentro da capital alemã. Hoje, os berlinenses já estão reunificados por mais tempo do que foram mantidos separados pelo socialismo.

Esta data constitui uma excelente ocasião não apenas para celebrar a restauração das liberdades mais básicas para os berlinenses, como também para denunciar novamente a monstruosidade em que, necessariamente, todos os regimes socialistas acabam se transformando.

No entanto, o muro da vergonha socialista não foi nenhum acidente histórico: foi, isso sim, a consequência natural e inexorável de uma ideologia que institucionalizava a exploração do homem pelo homem, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, dizia estar abolindo essa exploração.

Ao passo que o socialismo promete criar o paraíso na Terra, ele entrega apenas o inferno político, social e econômico do qual a maioria da população ardorosa e desesperadoramente deseja fugir.

No dia 13 de agosto de 1961, começou a construção do Muro de Berlim. O muro era constituído de tijolo e concreto, e levou dois anos para ser totalmente finalizado. Quando concluído, ele tinha 45 quilômetros de extensão e 2,74 metros de altura, com arame farpado no topo. Os guardas do lado oriental estavam sempre armados com metralhadoras e atiravam em qualquer um que tentasse cruzar o muro. Havia também uma área de 183 metros, entre o primeiro obstáculo e o muro, coberta de minas terrestres e patrulhada por cães policiais.

O número de mortos ao longo das fronteiras entre Ocidente e Oriente varia de 270 a 780. Apenas no muro, calcula-se que 140 pessoas tenham morrido, de acordo com o Memorial do Muro de Berlim, entre 1961 e 1989.

Você quer saber mais?

GADDIS, John Lewis. História da Guerra Fria. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

https://mises.org.br/artigos/2823/o-muro-de-berlim-nao-foi-um-acidente-historico

https://www.ipco.org.br/ha-25-anos-da-derrubada-muro-de-berlim-o-muro-da-vergonha

domingo, 11 de agosto de 2024

Origem da civilização romana

 A Loba Capitolina - o símbolo de Roma.  A lenda dos irmãos Rômulo e Remo originou uma escultura que veio a se tornar o símbolo de Roma: a Loba Capitolina.

O Império Romano é considerado o maior civilização da história ocidental. Durou cinco séculos: começou em 27 a.C. e terminou em 476 d.C. Estendia-se do Rio Reno para o Egito, chegava à Grã-Bretanha e à Ásia Menor. Assim, estabelecia uma conexão com a Europa, a Ásia e África. Uma das estórias sobre a fundação de Roma é a célebre lenda dos irmãos gêmeos, Rômulo e Remo, que viveram em 753 a.C.   Segundo historiadores, Roma surgiu a partir de um grupamento de pastores que viviam às margens do Rio Tigre. É essa a região geográfica que corresponde hoje à Itália. No decorrer do século VI a.C., Roma ficou sob a direção dos etruscos, de origens gregas. A liberdade foi conquistada gradualmente, quando se transformou numa cidade-estado onde a forma de poder exercida era a monarquia. Com as constantes desavenças entre os reis, os romanos experimentaram a república, entre 509 a.C. e 30 a.C. Nesta época, Roma passou a exercer forte poder colonial, político e militar.

Rômulo e Remo

Rômulo e Remo são dois irmãos gêmeos que, segundo a mitologia romana, estão diretamente ligados à fundação de Roma, tendo sido Rômulo especificamente o fundador da cidade. Segundo a lenda, filhos do Rei Marte e de Reia, os irmãos foram atirados a um rio para morrerem afogados. No entanto, acabaram por sobreviver e foram encontrados na margem do Rio Tibre por uma loba que passou a amamentá-los. Posteriormente, foram encontrados por um pastor de ovelhas chamado Fáustulo, que os criou como filhos.

A história de Rômulo e Remo

De acordo com a lenda de Rômulo e Remo, eles eram filhos do Deus grego Ares (também chamado de Marte) e de Reia Sílvia, mortal filha de Numitor, Rei de Alba Longa. Numitor havia sido deposto por Amúlio, seu próprio irmão, que obrigou sua sobrinha Reia a integrar o grupo das Virgens Vestais.  As vestais eram sacerdotisas com idade entre os 6 e os 10 anos, que cultuavam a deusa romana Vesta e faziam voto de castidade, servindo a ela durante 30 anos.  A intenção de Amúlio era dar fim a qualquer descendência de Numitor, evitando que sua sobrinha pudesse gerar futuros requerentes do trono, já ele próprio tinha interesse em reinar. No entanto, seduzida pelo Deus Marte, Reia acabou por engravidar e deu à luz os gêmeos Rômulo e Remo. Furioso, Amúlio ordenou que os bebês fossem atirados ao rio para morrerem afogados. 

O cesto onde estavam os bebês, no entanto, foi parar à margem do rio e os irmãos foram encontrados por uma loba que passou a amamentá-los. Posteriormente, um pastor de ovelhas chamado Fáustulo encontrou os irmãos perto da entrada de uma caverna e, com sua esposa, criou os meninos como filhos.

Quem são os fundadores de Roma na mitologia?

Segundo a mitologia romana, embora Rômulo e Remo estejam diretamente ligados à fundação de Roma, o fundador propriamente dito foi Rômulo. Já em idade adulta, Remo teve um desentendimento com um pastor local e, por esse motivo, foi entregue ao então Rei Amúlio, que fez dele prisioneiro.  Com isso, o pai adotivo Fáustulo falou sobre a ascendência dos irmãos ao gêmeo de Remo, Rômulo, que partiu para resgatar o irmão.  Depois de libertar Remo, Rômulo matou o então regente Amúlio e os cidadãos locais ofereceram a coroa de Alba Longa aos irmãos, que preferiram devolver o trono ao avô Numitor e fundar uma cidade própria em outro local.  Os irmãos entraram em desacordo sobre qual seria o local ideal; enquanto Rômulo escolheu a região do Monte Palatino, Remo optou pelo Monte Aventino.  Como não chegaram a um consenso, os irmãos optaram por decidir através de um auspício, que consiste no ato de observar as aves de forma a receber resposta através de um sinal dos deuses.  Rômulo afirmou ter visto 12 pássaros sobre o Monte Palatino, enquanto Remo afirmou ter visto 6 sobre o Monte Aventino, o que veio a significar a vitória de Rômulo.

A morte de Remo e o reinado de Rômulo

Na disputa pela decisão do local ideal para a construção de uma nova cidade, Remo não aceitou de bom grado a vitória do irmão, que prontamente começou a construção de uma muralha ao redor do local de sua escolha: o Monte Palatino. Remo respondeu à construção do irmão com bastante ironia, debochando e rindo constantemente dela e da cidade do irmão.  Em dado momento, chegou a subir na muralha com uma atitude jocosa e irônica, o que despertou a fúria de Rômulo que acabou por matar o irmão.  Algumas versões da morte de Remo apresentam um desfecho diferente. Uma afirma que quem matou Remo foi um apoiador de Rômulo e outra relata que, na verdade, Remo acabou por cair da muralha vindo a falecer. Essa versão é interpretada como um sinal do poder dos deuses de Roma.  No dia da morte de Remo, em 21 de abril de 753 a.C. acontece a fundação de Roma pelas mãos de Rômulo.

Você quer saber mais?

ALFÖLDY, Géza. A História Social de Roma. Lisboa: Editorial Presença, 1989.

ARAÚJO, Sônia Rebel de; CARDOSO, Ciro Flamarion. A Sociedade Romana do Alto Império. In: MENDES, Norma Musco; SILVA, Gilvan Ventura da. (Orgs.). Repensando o Império Romano: perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006.

AZEVEDO, Sarah Fernandes Lino de. Tácito e a História Magistra Vitae: Um historiador do Império? In: FAVERSANI, Fábio; JOLY, Fábio Duarte (Orgs.). As formas do Império Romano. Mariana: UFOP, 2014.

BARTH, Fredrik. Introducción. In: BARTH, F. (org.), Los grupos étnicos y sus fronteras. México: Fondo de Cultura Económica 1976.

BENARIO, Herbert W. The Annals. In: PAGÁN, Victoria Emma (Ed.). A Companion to Tacitus. Oxford: Blackwell Publishing, 2012.

BIRLEY, Anthony Richard. The Agricola. In: WOODMAN, Anthony John. (Ed.). The Cambridge Companion to Tacitus. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

BRAUND, David. Ruling Roman Britain: kings, queens, governors and emperors from Julius Caesar to Agricola. Abingdon: Routledge, 1996.

BUSTAMANTE, Regina Maria da Cunha. Práticas Culturais no Império Romano: entre a unidade e a diversidade. In: MENDES, Norma Musco; SILVA, Gilvan Ventura da. (Orgs.). Repensando o Império Romano: perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006.

CATROGA, Fernando. Memória, História e Historiografia. Coimbra: Quarteto, 2001.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

A colonização portuguesa na América

A ocupação das terras americanas só se tornou possível na medida em que a cana-de-açúcar mostrou-se adaptável ao clima e ao solo da região tropical. Mas, sobretudo, quando se percebeu que o açúcar era um produto rentável, de grande aceitação no mercado europeu e capaz de gerar bons lucros. A exploração da colônia portuguesa, com o cultivo da cana-de-açúcar, assumiu três características básicas: grande propriedade, monocultura e trabalho escravo.  A disponibilidade quase ilimitada de terras ajudou na formação de grandes fazendas produtoras. Os custos de produção, desbravar o terreno, plantar, colher, transportar a cana e fabricar o açúcar, exigiam grandes plantações para se obter retornos lucrativos. A monocultura também era essencial, pois facilitava a especialização e a concentração de recursos e esforços em uma única atividade. 

A opção pela monocultura da cana-de-açúcar em grandes propriedades era decorrência natural da política mercantilista. Os esforços coloniais deveriam estar voltados para a aquisição de produtos que pudessem ser comercializados com as nações europeias. Essa condição era preenchida pela lavoura de gêneros agrícolas tropicais, como a cana-de-açúcar. O chamado pacto colonial, segundo o qual as colônias só poderiam comerciar com suas metrópoles, complementava os propósitos dessa política econômica.  Quanto à mão-de-obra, tentou-se a princípio o uso do trabalho indígena. Os índios tinham colaborado na extração do pau-brasil e o colonizador julgava que isso poderia se repetir com o trabalho agrícola. Entretanto, os índios não se submeteram facilmente às condições exigidas pela nova atividade. A extração do pau-brasil podia ser realizada de forma esporádica e livre; a atividade agrícola exigia trabalho sistemático, disciplina, organização e vida sedentária.

Para estabelecer essas condições de trabalho, foi necessário aumentar a vigilância sobre os índios. Em pouco tempo, generalizou-se a escravização dos nativos. A antiga relação pacífica se tornou conflituosa. A escravização dos povos indígenas foi um problema que percorreu todo o período colonial e opôs colonos, governo e Igreja. Pressionado pela Igreja, o governo português proibiu o apresamento de índios. Em 1570, uma Carta Régia autorizava a escravização apenas dos indígenas presos em guerra justa, isto é, em conflitos iniciados pelos próprios índios ou promovidos pelos colonos contra povos hostis. Essa autorização permitiu que o apresamento indígena continuasse. Por uma série de circunstâncias, a escravidão africana acabou se impondo como solução para o problema da mão-de-obra. 

O engenho 

Desde 1526, livros da Alfândega de Lisboa acusavam a entrada de açúcar vindo da ilha de Itamaracá, no atual estado de Pernambuco. Mas a grande produção só começou de fato em 1533, com o engenho de Martim Afonso de Sousa em São Vicente, que nesse mesmo ano foi comprado pelo capitalista holandês Erasmo Schetz.

As capitanias hereditárias 

Em 1534, El-rei dom João II dividiu a colônia americana em quinze faixas de terra com largura entre 200 e 650 quilômetros, indo do litoral à linha do Tratado de Tordesilhas. Eram as capitanias hereditárias, mesmo sistema utilizado nas ilhas do Atlântico. Elas foram entregues a senhores chamados de capitães donatários. Hereditárias, as capitanias deveriam passar de pai para filho. Aos donatários foi atribuída grande soma de poder: podiam distribuir terras a colonos, nomear autoridades administrativas e judiciárias, escravizar e vender índios, fundar vilas, cobrar tributos pela navegação dos rios, etc. Os donatários só não tinham poder sobre os impostos reais e deviam arcar com todas as despesas da colonização. A constituição político-administrativa das capitanias tinha por base jurídica a Carta de Doação e o Foral. Pela primeira, o rei confiava à administração perpetua e hereditária ao donatário. No Foral, estavam fixados os direitos, foros e tributos que a população pagaria ao rei e ao donatário. Apesar do fracasso, o sistema de capitanias perdurou até 1759 e conviveu com outras estruturas administrativas criadas pelo governo português, como os governos-gerais. Diante do insucesso, muitas acabaram compradas pelo governo, outras incorporadas por abandono.

O Governo-Geral 

Um dos grandes problemas enfrentados pelos donatários das capitanias foi o isolamento, que dificultava, por exemplo, a defesa contra os índios, em luta por suas terras e contra a escravização. Diante dos problemas, a Coroa portuguesa criou o cargo de governador-geral em 1548. O objetivo da medida era centralizar a defesa do território e a administração da colônia.  Para sede do Governo-Geral foi escolhida a capitania da Bahia de Todos os Santos, comprada ao donatário. O primeiro governador-geral a ser nomeado foi Tomé de Sousa. Em 1549, para instalar seu governo, Tomé de Sousa fundou Salvador, que se transformou na primeira cidade da colônia.

As Câmaras Municipais 

Com o surgimento das primeiras vilas e cidades, organizou-se a administração municipal, que foi entregue às Câmaras Municipais, compostas de três ou quatro vereadores. Estes eram escolhidos pelos homens bons, como eram chamados os proprietários de terras, a elite do lugar. Um juiz, eleito da mesma forma, presidia a Câmara.

Você quer saber mais?

ARRUDA, José Jobson de A; PILETTI, Nelson. Toda a História: História Geral e História do Brasil-9º edição. São Paulo: Ed. Ática, 1999.

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História: Volume Único. São Paulo: Ed. Ática, 2011. 

VAINFAS, Ronaldo; FERREIRA, Jorge; FARIA, Sheila de Castro; CALAINHO, Daniela Buono. História.doc. São Paulo: Ed.Saraiva, 2015.

JÚNIOR, Alfredo Boulos. Coleção História: Sociedade & Cidadania. São Paulo: FTD, 2004.

COTRIM, Gilberto. História Global: Brasil e Geral-8º edição. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.

COTRIM, Gilberto; RODRIGUES, Jaime. Historiar- 2º ediçaõ. São Paulo: Editora Saraiva,  2015.

VICENTINO, Cláudio; DORIGO, Gianpaolo. História para Ensino Médio: História Geral e do Brasil. São Paulo: Editora Scipione, 2005.

REZZUTTI, Paulo. D.Pedro I:  A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos. São Paulo: Leya, 2020.