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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Relatos Míticos sobre a origem dos Incas: O Mito de Manco Capac




Imagem de Manco Capac. (Foto: Museu Inca de Cusco).

Diferente do homem moderno, que está sempre em busca de uma especialização nas diversas áreas do saber e acredita ser esse o caminho para o alcance de status e de uma sabedoria suprema, muitas vezes, sem utilizá-la de modo sensato, o homem andino e outros povos considerados primitivos sempre viram  no conhecimento a chave do aprendizado coletivo que beneficia a todos e os complementava, sem diferenciá-los uns dos outros.

 Pachamama. Escultura prehispánica andina. (Col. Particular de Mª Leticia Sánchez Hernández).

O saber aplicado na prática e o respeito à natureza, considerando-a como sagrada, conferem a esses povos antigos o que podemos chamar de verdadeira sabedoria: aquela que
“emerge nós”, uma sabedoria que permite uma outra visão de mundo, um contato profundo com a nossa própria existência.

 A Porta do Sol de Tiawanaco encontra-se atualmente na extremidade noroeste do Kalasasaya. No passado, chegou, por mais de uma vez, a estar deitada, demandando, mesmo com os atuais recursos tecnológicos, enorme esforço para ser erguida. Esse impressionante monumento foi esculpido em um único bloco de andesita vulcânica e seu peso ultrapassa 12 toneladas. (Foto: Ka W. Ribas).

Esse mito relata a origem do antepassado mais antigo da dinastia dos incas, Manco Capac e sua esposa, Mama Ocllo. Ambos teriam surgido por obra divina, saindo do lago Titicaca. Esse mito apresenta Manco Capac e Mama Ocllo como “heróis culturais” ou civilizadores que, como enviados e reprentantes do deus Sol, seriam os sagrados ancestrais de todos os incas.

O cronista mestiço Garcilaso de la Vega, em seu Comentarios Reales, fala sobre Manco Capac e Mama Ocllo:

“Nosso Pai, o Sol, vendo aos homens, teve pena deles e enviou do céu à terra um filho e uma filha para que os doutrinassem no conhecimento de Nosso Pai, o Sol, e para que os dessem preceitos e leis em que vivessem como homens em razão e urbanidade, para que habitassem em casas e povoados, soubessem lavrar as terras, cultivar as plantas, criar os gados e gozar destes e dos frutos da terra como homens racionais e não como bestas”.

Outra versão do mesmo mito apresenta os irmãos de Manco Capac que, com este, realizam, uma peregrinação pelos Andes até um lugar especial.

Os míticos irmãos Ayar eram quatro que, com suas esposas, partiram de um local chamado Pacaritanpu, em uma migração atrás da “terra prometida”.

Essa peregrinação era motivada pela sagrada missão – ditada pelo Sol, seu pai e deus – de levar a civilização e a ordem onde prevalecia a barbárie e o caos, só terminando quando um sinal especial, o bastão de liderança feito de ouro, chamado Tupayauri, de Manco Capac ou Ayar Manco penetrasse a Terra.

O ato de penetrar a terra com um bastão de ouro, um objeto fálico, destaca a fertilidade da Pachamama, que uma vez fecundada proverá o sustento de seus filhos com sua generosidade e amor, além da manifestação simbólica dos arquétipos masculino e feminino que se enlaçam em um romance cósmico.

 Detalhe da Porta do Sol, destacando-se a figura que possui dois padrões simétricos com 48 personagens alados, 24 de cada lados. (Foto: Ka W. Ribas).

Pararitanpu, que quer dizer Casa do Amanhecer ou Casa de Janelas (Pacaritanpu possuiria três covas ou janelas orientadas para o nascente), possui um significado muito especial dentro da mitologia incaica ao se converter em paqarina dos Filhos do Sol, seu sagrado lugar de origem, sua Huaca ancestral.

Aliado ao culto prestado pelos povos andinos aos ancestrais, esse princípio de filiação do grupo a um elemento ou ponto da natureza reforça os laços entre os homens e a Pachamama, que assume o papel afetivo de mãe amorosa e doadora de vida. Além disso, uma vez que toda a comunidade possui a mesma origem ancestral ou panaca, os laços que unem e compõem o ayllu são reforçados, garantido a sólida estrutura dessa milenar instituição andina.

O cronista nativo Juan de Santa Cruz Pachacuti elaborou um ideograma no qual, próximo a uma figura geométrica composta de quadrados e círculos que simbolizam Pacaritanpu, desenhou duas árvores as quais nomeou pai e mãe da dinastia (panaca) dos incas: Apotambo e Pachamamaachi, respectivamente.

O interesse é que, tanto na língua quíchua como na aimara, a palavra Mallqui pode significar tanto árvore quanto o cadáver mumificado de um antigo ancestral fundador de um ayllu.

Diz a lenda que os irmãos Ayar entraram nas profundezas do lugar chamado Pacaritanpu e, ao amanhecer de certo dia, abriu-se uma janela que, alinhada com o Sol nascente, permitiu a entrada dos raios que iluminaram Manco Capac e seus irmãos.

Logo, Ayar Manco, Cachi, Aucca e Uchu, acompanhados de suas mulheres, saíram de dentro de sua mãe, a Terra, e festejaram dançando debaixo dos refelxos, do calor e da proteção de seu pai, o Sol.

O mito segue descrevendo as peripécias dos irmãos Ayar durante o trajeto até chegar à região do vale de Cuzco, onde a estaca de ouiro que portava Ayar Manco ou Manco Capac terminou por penetrar a terra fértil, justamente o sinal que marcava o lugar onde deveriam estabelecer-se. Nesse local, eles fundaram sua capital a sagrada cidade de Cuzco, ponto de partida da expansão de um gigantesco império.

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Você quer saber mais? 

RIBAS, Ka.W. A ciência sagrada dos Incas. São Paulo: Editora Madras, 2008.






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Plínio Salgado.