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sábado, 7 de julho de 2012

Chaka Zulu, um rei africano.



“Em torno da cabeça raspada ele usava uma faixa de pele de lontra, que tinha em toda a circunferência feixes de magníficas plumas de um tom vermelho-escuro, bem na frente, uma pluma resplandecente de garça-azul, de 60 centímetros de comprimento.”

The Annals of Natal: 1495-1845, de Henry Fynn (Compilação de John Bird, 1966).

 
Além de respeitado como grande guerreiro, graças aos seus méritos, Chaka Zulu treinou e disciplinou rigorosamente os seus homens e formou um exército formidável. (Imagem: Mary Evans Picture Library).

Conhecido em todo o reino zulu como um, guerreiro feroz que matou um leopardo aos dezenove anos, que construiu um exército invencível com base num núcleo de menos de quinhentos anos e, ao longo de um reinado de doze, foi responsável pela morte de mai de um milhão de pessoas, Chaka Zjulu, ou “rei Chaka”, como é conhecido também, foi um governante implacável que exerceu um poder inacreditável.

Uma infância difícil

Chaka Zulu nasceu por volta de 1789, filho ilegítimo de uma mulher chamada Nandi (membro da tribo langeni) e de Senzangacona, que era um chefe Zulu. Em consequência desse adverso começo de vida, Chaka cresceu num ambiente pouco acolhedor, pois sua mãe era malvista pela tribo, e, segundo conta a lenda, Chaka era humilhado e ridicularizado por causa da origem bastarda.

Em tenra idade, Chaka foi obrigado a trabalhar com pastor nas terras dos langenis, mas mesmo quando cuidava do gado as outras  crianças gostavam de intimidá-lo. Dizem que durante toda  a infância foi uma criatura extremamente solitária.

A despeito disso, aos dezenove anos, Chaka já era um lutador formidável, fato corroborado pela história de que ele matou um leopardo. O animal tinha sido acuado numa árvore. Chaka arremessou a primeira lança contra a fera, mas não lhe acertou o coração; o animal saltou da árvore e avançou contra chaka, que em vez de fugir, esperou o animal chegar bem perto e matou-o a porretadas.

Talvez por causa dessa demonstração de força, talvez por ter chegado a ser querido e respeitado, aos vinte e três anos Chaka foi chamado a servir como soldado da tribo mtetwa.

Nasce um guerreiro

Durante os seis anos seguintes, portou-se de forma admirável em sua unidade. Ao mesmo tempo, começou a procurar táticas e armas melhores e mais eficientes para matar o inimigo. Com essa finalidade, dizem que Chaka criou um novo tipo de lâmina para sua lança, mais resistente que a leve assegais. Chaka queria usar ferro forjado, ou ferro virgem, para que a nova lança pudesse ser moldada com a forma que ele desejava.  Dizem que o ferreiro que ele procurou teve de fabricar novos foles e uma nova fornalha para atendê-lo. O resultado foi exatamente o que Chaka havia sonhado: uma lança de grande beleza e eficiência. Na verdade, tão letal era a nova arma, que Chaka lhe deu seu próprio nome, Íxua; embora não exista nenhuma tradução literal ou livre dessa palavra, algumas pessoas se perguntam se não era onomatopéia: o som sibilante da lâmina quando penetrava na carne.

Chaka Zulu também introduziu escudos mais pesados de couro de boi, dentre outras novas armas. As novas armas  e as novas táticas de Chaka devem ter sido eficientes, pois em várias escaramuças com tribos rivais sua reputação de guerreiro não perdia para ninguém. 

Em 1810, numa batalha contra a tribo dos butelezis, dizem que Chaka derrubou e matou sozinho vários adversários com a nova lança de lâmina larga, fazendo que os butelezis remanescentes fugissem aterrorizados.

Quando começaram as discussões  sobre a sucessão do pai dele Senzangacona, na chefia dos zulus, Chaka foi apresentado como um dos candidatos mais fortes. Enquanto isso, ele havia recebido o controle total sobre o exército zulu, uma posição que lhe permitiu refinar as táticas de guerra e capacidade de liderança.

O pai de Chaka Zulu morreu em 1816. Após as cerimônias fúnebres, o pai de Chaka Zulu foi enterrado no vale Mpembeni (Macosini – O Lugar dos Chefes).

De bastardo à Rei

Chaka tinha sido escolhido para suceder ao pai na chefia da tribo. Mas, depois da cerimônia fúnebre, soube que não seria o novo líder. Sigujana, um dos meios-irmãos de Chaka, assumiu o poder. Chaka ficou furioso, assim como seus homens, mas coube a outro dos meios-irmãos de Chaka, Nguadi (filho de Nandi e de Gendeiana) por fim a usurpação de Sigujana. Finalmente Chaka Zulu assumiu a liderança da tribo e sem mais tardança, entrou na craal do pai. Começou a reestruturar todo o clã zulu. Construiu um novo craal para cada unidade, que funcionava de maneira muito parecida com uma guarnição militar ou com um quartel de nossos dias.

O primeiro ato real de agressão instigado por Chaka Zulu no novo cargo de chefe de clã foi contra os e-langenis – a mesma tribo na qual ele havia crescido e, por conseguinte, contra os mesmos homens, mulheres e crianças que o haviam humilhado. Chaka nunca se esqueceu de seus torturadores, e agora, como chefe por mérito próprio, resolvera se vingar.

Ao alvorecer, Chaka e seus homens tinham cercado não só a craal de Esiueni, nas terras dos e-langeris, como também o chefe da tribo. Aos primeiros raios de sol, Chaka ordenou aos e-langenis que se rendessem, o que eles fizeram imediatamente, sem esboçar a menor reação. Chaka levou a julgamento todas as pessoas contra as quais guardava rancor. Citou uma lista de crimes cometidos desde a época de sua infância, responsabilizando-as por eles. Depois Chaka, dividiu o grupo em dois, aqueles que perdoaria e aqueles que haviam cometido crimes imperdoáveis. Matou brutalmente os membros do segundo grupo, empalando-os em longas estacas e queimando-os.

Após as execuções, o chefe e-langeni submeteu-se a todas as exigências de Chaka. Chaka voltou à sua craal natal com uma fama muitíssimo maior do que a que tinha ao partir. Clãs vizinhos começaram a mandar seus jovens para entrar no exército de Chaka onde passavam por um treinamento intensivo.

Um grande número de pessoas de outros territórios começaram a chegar à terra dos zulus para se beneficiarem da proteção das leis do sábio rei guerreiro. Os homens juntavam-se ao exército cada vez mais numeroso de Chaka. Por vez Chaka já contava com um exército de 3.600 homens armados até os dentes e bem treinados.

O implacavel rei guerreiro

Durante a batalha do Quocli, contra a tribo nduandues, os zulus tiveram sua primeira grande vitória, na qual perderam 1.500 homens e mataram 7.500 guerreiros nduandues.

No inverno de 1818, liderados por Chaka, os zulus entraram em guerra contra a tribo de quabe, cujo chefe, um homem chamado Pacatuaio, o havia ofendido. Os zulus venceram em mesmo de uma hora, capturaram Pacatuaio, que logo depois sofreu um ataque qualquer e morreu.

O território de Chaka tinha então cerca de 11.000 quilômetros quadrados. Chaka também começou também a revolucionar a produção agrícola para que seu povo não sofresse escassez de comida; introduziu um ramo de aspirantes em seu exército, destinado a meninos adolescentes que não tinham idade para se tornarem guerreiros começaram o treinamento a fim  de servir a comunidade ao mesmo tempo.

Em 1819, os guerreiros nduandues liderados por Zuide entraram em confronto com os zulus de Chaka. Zuide enviou 18.000 homens para o confronto. Como sempre, a luta não demorou muito: Chaka derrotou as tropas nduandues em poucas horas. Mas a guerra não terminará ali, pois Chaka estava resolvido a perseguir e matar todos os guerreiros nduandues que tinham fugido do campo de batalha, assim como homens, mulheres e crianças que
haviam ficado na craal de Zuide. Assim que mataram todos os que tinham alguma ligação com os nduandues capturaram o gado e queimaram as craals, que viraram cinzas. Porém para a frustação de Chaka, Zuide escapou mais uma vez, embora sua mãe, Ntombazi, tivesse sido aprisionada e levada a julgamento em lugar do filho. Chaka condenou Ntombazi a morte, colocou ela em uma tenda junto com uma hiena selvagem que a matou e devorou partes de seu corpo.

Depois da morte de Ntombazi, Chaka e seus guerreiros celebraram a grande vitória sobre os nduandues com banquetes e bebidas.

Após derrotar uma grande poderosa tribo, os tembus,
Chaka decidiu contruir uma nova capital para o povo Zulu, na parte sul do vale do Umhlatuze, a que deu o nome de Bulauaio. Também instituiu um tribunal de justilça, cuja sede foi construída no quintal do Grande Conselho de Chaka. O tribunal era presidido pelo próprio chaka, que distribuía justiça com a ajuda de alguns conselheiros de confiança. Ali era decidida a vida ou a morte dos acusados de diversos crimes, Chaka era considerado um monarca absoluto de todos e a palavra dele era lei. Todo cidadão Zulu jurava-lhe obediência; além disso, todos percebiam que ele construía uma poderosa nação, na qual só se falava a língua zulu, e, a despeito do medo e do sangue derramado, apoiavam seu líder.


Tenente Farewall, membro da expedição comercial de Henry Fynn, de 1824, negocia a troca de mercadorias com Chaka Zulu. (Imagem: Mary Evans Picture Library).

Mas o modo de vida zulu estava prestes a mudar. Em 1824, um aventureiro branco da Inglaterra colonialista, chamado Henry
Francis Fynn, foi enviado, junto com vários outros, a bordo do navio jula para conhecer o rei zulu e fechar com ele um acordo comercial.  Temos na palavras de Fynn as seguintes frases:

“Ficamos abismados com a ordem e disciplina mantidos no país pelo qual viajamos. As craals regimentais, especialmente as suas partes superiores, assim como as craals dos chefes, mostravam que a higiene era um costume corrente, e não só dentro das cabanas, mas fora também, pois havia espaços consideráveis nos quais não se via sujeira nem cinzas.”

Henry Fynn estava presente quando em outubro de 1827, Nandi, a mãe de Chaka, ao lado de quem ficara durante todos aqueles anos, adoeceu e morreu. Fynn disse que Chaka ficou inconsolável e começou a ordenar a execução de cidadãos. Calcula-se que não menos de 7.000 pessoas foram mortas, Chaka ainda ordenou que seus guerreiros saíssem pelo interior e executassem todos que não haviam lamentado devidamente a morte de sua mãe, sepultada na presença de 12.000 guerreiros.

Na verdade o comportamento violento de Chaka chegou a tal ponto durante essa época que ninguém estava a salvo. Por ser um rei muito respeitado, Chaka Zulu, então com mais de quarenta anos, não passava de um déspota cruel que não conseguia controlar as emoções mais sombrias.

O fim do grande rei Chaka Zulu

Até que, em setembro de 1828, dois dos meios-irmãos de Chaka, Mlangana e Dingane, com a ajuda de uma tia, Mcabaii, que achavam que as guerras incessantes de Chaka estavam enfraquecendo o reino, começaram a trama a queda dele.

Finalmente em 22 de setembro de 1828, puseram o plano em ação. Enquanto Chaka conversava com seus conselheiros, os dois assassinos esconderam-se atrás de uma cerca de juncos, à espera de uma oportunidade. Quando os conselheiros saíram da sala, Mlangana disparou um lança contra Chaka, imediatamente seguida pela lança de Dingane. Foi uma visão terrível; mesmo assim, depois do atentado eles rapidamente espalharam o boato de que um grupo de mensageiros que trazia presentes a Chaka tinha, na verdade, assassinado o irmão.  Em seguida o corpo de Chaka foi envolvido na pele de um touro negro e enterrado.

Durante toda a vida, Chaka Zulu lutou para obter o poder com o qual sonhava quando menino. Em doze curtos anos, conseguiu criar, com base no que tinha sido um pequeno núcleo, um imenso reino. No começo, Chaka foi rei de apenas 160 quilômetros quadrados, mas, no final, reinava sobre mais de 32 milhões de quilômetros quadrados. Suas tropas tinham passado de um grupo de 500 homens para um exército formidável de 50.000 soldados bem armados e extremamente disciplinados.

Foi uma façanha impressionante, mas uma façanha realizada infelizmente com a morte de milhares de homens, mulheres e crianças. Quanto aos assassinos de Chaka, Dingane resolveu que o melhor seria matar o cumplice. Mlangana, depois do que assumiu o trono zulu, mas seus súditos nunca mais constituíram a mesma potência militar que haviam sido sob a liderança de Chaka, o rei e o guerreiro da África mais feroz de todos os tempos.

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Você quer saber mais?

KLEIN, Shelley. Os ditadores mais perversos da História. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.










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