A língua portuguesa possui palavras capazes de expressar boa parte daquilo que hoje conhecemos como bullying: intimidação, humilhação, perseguição e escárnio. Entre elas, a expressão intimidação sistemática é uma denominação precisa para a prática repetida de constranger, humilhar, ameaçar ou excluir alguém. Entretanto, independentemente do nome utilizado, o problema permanece o mesmo: pessoas que encontram satisfação em diminuir outras pessoas, muitas vezes escondendo suas atitudes atrás de uma suposta brincadeira.
Nem toda brincadeira é ofensiva, assim como nem todo comentário desagradável constitui, isoladamente, bullying. A questão está na intenção, na repetição, no contexto e nas consequências. Quando alguém se torna alvo frequente de piadas, apelidos humilhantes, exclusão ou constrangimentos, enquanto os demais se divertem com seu sofrimento, deixa de existir uma relação saudável. O que alguns chamam de humor pode representar, para outra pessoa, uma experiência de desrespeito, solidão e perda de confiança.
Para compreender por que esse comportamento existe, é necessário observar diferentes aspectos da natureza humana e da vida em sociedade. Do ponto de vista psicológico, algumas pessoas procuram diminuir os outros para compensar suas próprias inseguranças, conquistar reconhecimento ou esconder sentimentos de inferioridade. Outras aprendem que a agressividade proporciona popularidade, poder ou aceitação. Isso não significa que toda pessoa que pratica intimidação tenha necessariamente problemas psicológicos, nem que suas atitudes possam ser justificadas por suas experiências pessoais. Compreender as causas de um comportamento é importante para enfrentá-lo, mas compreender não significa desculpar.
Existe também um componente social. O ser humano é um ser de convivência, que busca pertencimento, reconhecimento e aceitação. Desde cedo, aprende comportamentos observando a família, os colegas, as figuras de autoridade e os grupos dos quais participa. Em determinados ambientes, rir da dificuldade alheia pode se transformar em uma espécie de senha para pertencer ao grupo. Quem participa das zombarias demonstra que está do lado dos mais populares; quem se cala evita tornar-se o próximo alvo; e quem tenta defender a vítima corre o risco de ser excluído. Assim, a crueldade individual pode se transformar em um costume coletivo, sustentado tanto por quem agride quanto por quem assiste e prefere não se posicionar.
Esse mecanismo se aproxima do comportamento tribal, entendido aqui como a tendência de proteger os integrantes do próprio grupo e desconfiar, rejeitar ou ridicularizar aqueles que parecem diferentes. A diferença pode estar na aparência, na maneira de falar, nas condições econômicas, nas dificuldades de aprendizagem, nas opiniões, nas crenças ou simplesmente no jeito de ser. Quando a necessidade de pertencer se torna mais importante do que a consciência, o indivíduo passa a aceitar atitudes que talvez considerasse injustas se fossem praticadas contra alguém de sua própria família.
É preciso distinguir a liberdade de expressão da liberdade de humilhar. O humor pode questionar o poder, denunciar injustiças e aproximar as pessoas, mas também pode servir para reforçar preconceitos e estabelecer hierarquias. Rir com alguém é diferente de rir de alguém, especialmente quando essa pessoa não tem condições de se defender ou quando sua dor se torna o entretenimento de um grupo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos podem falar qualquer coisa sem considerar as consequências, mas aquela em que as pessoas podem se expressar sem que a dignidade alheia seja tratada como algo sem valor.
O mesmo princípio vale para a fé e os valores morais. Muitas pessoas falam sobre Deus, fraternidade, caridade, amor ao próximo e dignidade humana. Participam de celebrações, conhecem ensinamentos religiosos e defendem publicamente princípios elevados. Contudo, a verdadeira medida desses valores não está apenas nas palavras pronunciadas ou nos rituais realizados, mas na maneira como tratamos as pessoas quando não há aplausos, reconhecimento ou qualquer vantagem pessoal. Uma fé que não desperta compaixão, humildade e disposição para ajudar corre o risco de se tornar apenas uma declaração exterior, distante da transformação interior que deveria inspirar.
A empatia, nesse sentido, não consiste em sentir pena de alguém nem em concordar com todas as suas ideias. Significa reconhecer que o outro possui sentimentos, limites, dificuldades e uma história que nem sempre conhecemos. Significa pensar antes de falar, perceber quando uma brincadeira ultrapassa o limite e compreender que aquilo que parece insignificante para uma pessoa pode representar uma experiência dolorosa para outra. Empatia é também a capacidade de discordar sem desumanizar, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem destruir a dignidade de ninguém.
É nesse ponto que precisamos refletir sobre uma palavra frequentemente utilizada, mas nem sempre compreendida em sua profundidade: humanidade. Fala-se em direitos humanos, solidariedade e respeito à vida, mas o que significa, na prática, reconhecer a humanidade de alguém? Significa reconhecer que o valor de uma pessoa não depende de sua inteligência, de sua aparência, de sua produtividade, de sua popularidade ou de sua capacidade de responder às expectativas dos demais. Significa entender que alguém com dificuldades merece apoio, que uma pessoa tímida não deve ser transformada em motivo de piada, que quem aprende em outro ritmo precisa de compreensão e que aquele que pensa diferente continua tendo direito ao respeito.
O combate à intimidação, portanto, não se resolve apenas com cartazes, campanhas ou discursos ocasionais. É necessário estabelecer regras claras, ouvir quem sofre, apurar situações com seriedade, proteger as vítimas, responsabilizar os envolvidos de maneira educativa e acompanhar os resultados. A prevenção precisa fazer parte da convivência diária. Famílias, escolas, instituições religiosas, comunidades e autoridades devem compreender que o exemplo cotidiano ensina tanto quanto qualquer explicação formal. Não basta condenar publicamente a violência se, no convívio diário, a humilhação continua sendo tolerada quando parte de alguém considerado importante.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja por que algumas pessoas gostam de zombar das outras, mas por que tantas comunidades ainda encontram justificativas para tolerar esse comportamento. Enquanto a popularidade valer mais do que a bondade, o silêncio parecer mais conveniente do que a defesa de alguém e as palavras forem consideradas mais importantes do que as atitudes, continuaremos falando sobre humanidade sem conseguir praticá-la plenamente.
A verdadeira grandeza de uma pessoa não se revela na facilidade com que consegue fazer os outros rirem, mas na consciência que possui para não transformar ninguém em motivo de sofrimento. Respeitar o outro quando ele é forte, admirado e semelhante a nós pode ser fácil. O verdadeiro teste de caráter acontece quando precisamos respeitar quem é diferente, quem está aprendendo, quem enfrenta dificuldades ou quem não possui condições de retribuir nossa gentileza.
Você quer saber mais?
SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Fontanar, 2008.
ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más. Rio de Janeiro: Record, 2012.