segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Bullying: a crueldade disfarçada de brincadeira

A língua portuguesa possui palavras capazes de expressar boa parte daquilo que hoje conhecemos como bullying: intimidação, humilhação, perseguição e escárnio. Entre elas, a expressão intimidação sistemática é uma denominação precisa para a prática repetida de constranger, humilhar, ameaçar ou excluir alguém. Entretanto, independentemente do nome utilizado, o problema permanece o mesmo: pessoas que encontram satisfação em diminuir outras pessoas, muitas vezes escondendo suas atitudes atrás de uma suposta brincadeira.

Nem toda brincadeira é ofensiva, assim como nem todo comentário desagradável constitui, isoladamente, bullying. A questão está na intenção, na repetição, no contexto e nas consequências. Quando alguém se torna alvo frequente de piadas, apelidos humilhantes, exclusão ou constrangimentos, enquanto os demais se divertem com seu sofrimento, deixa de existir uma relação saudável. O que alguns chamam de humor pode representar, para outra pessoa, uma experiência de desrespeito, solidão e perda de confiança.

Para compreender por que esse comportamento existe, é necessário observar diferentes aspectos da natureza humana e da vida em sociedade. Do ponto de vista psicológico, algumas pessoas procuram diminuir os outros para compensar suas próprias inseguranças, conquistar reconhecimento ou esconder sentimentos de inferioridade. Outras aprendem que a agressividade proporciona popularidade, poder ou aceitação. Isso não significa que toda pessoa que pratica intimidação tenha necessariamente problemas psicológicos, nem que suas atitudes possam ser justificadas por suas experiências pessoais. Compreender as causas de um comportamento é importante para enfrentá-lo, mas compreender não significa desculpar.

Existe também um componente social. O ser humano é um ser de convivência, que busca pertencimento, reconhecimento e aceitação. Desde cedo, aprende comportamentos observando a família, os colegas, as figuras de autoridade e os grupos dos quais participa. Em determinados ambientes, rir da dificuldade alheia pode se transformar em uma espécie de senha para pertencer ao grupo. Quem participa das zombarias demonstra que está do lado dos mais populares; quem se cala evita tornar-se o próximo alvo; e quem tenta defender a vítima corre o risco de ser excluído. Assim, a crueldade individual pode se transformar em um costume coletivo, sustentado tanto por quem agride quanto por quem assiste e prefere não se posicionar.

Esse mecanismo se aproxima do comportamento tribal, entendido aqui como a tendência de proteger os integrantes do próprio grupo e desconfiar, rejeitar ou ridicularizar aqueles que parecem diferentes. A diferença pode estar na aparência, na maneira de falar, nas condições econômicas, nas dificuldades de aprendizagem, nas opiniões, nas crenças ou simplesmente no jeito de ser. Quando a necessidade de pertencer se torna mais importante do que a consciência, o indivíduo passa a aceitar atitudes que talvez considerasse injustas se fossem praticadas contra alguém de sua própria família.

É preciso distinguir a liberdade de expressão da liberdade de humilhar. O humor pode questionar o poder, denunciar injustiças e aproximar as pessoas, mas também pode servir para reforçar preconceitos e estabelecer hierarquias. Rir com alguém é diferente de rir de alguém, especialmente quando essa pessoa não tem condições de se defender ou quando sua dor se torna o entretenimento de um grupo. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos podem falar qualquer coisa sem considerar as consequências, mas aquela em que as pessoas podem se expressar sem que a dignidade alheia seja tratada como algo sem valor.

O mesmo princípio vale para a fé e os valores morais. Muitas pessoas falam sobre Deus, fraternidade, caridade, amor ao próximo e dignidade humana. Participam de celebrações, conhecem ensinamentos religiosos e defendem publicamente princípios elevados. Contudo, a verdadeira medida desses valores não está apenas nas palavras pronunciadas ou nos rituais realizados, mas na maneira como tratamos as pessoas quando não há aplausos, reconhecimento ou qualquer vantagem pessoal. Uma fé que não desperta compaixão, humildade e disposição para ajudar corre o risco de se tornar apenas uma declaração exterior, distante da transformação interior que deveria inspirar.

A empatia, nesse sentido, não consiste em sentir pena de alguém nem em concordar com todas as suas ideias. Significa reconhecer que o outro possui sentimentos, limites, dificuldades e uma história que nem sempre conhecemos. Significa pensar antes de falar, perceber quando uma brincadeira ultrapassa o limite e compreender que aquilo que parece insignificante para uma pessoa pode representar uma experiência dolorosa para outra. Empatia é também a capacidade de discordar sem desumanizar, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem destruir a dignidade de ninguém.

É nesse ponto que precisamos refletir sobre uma palavra frequentemente utilizada, mas nem sempre compreendida em sua profundidade: humanidade. Fala-se em direitos humanos, solidariedade e respeito à vida, mas o que significa, na prática, reconhecer a humanidade de alguém? Significa reconhecer que o valor de uma pessoa não depende de sua inteligência, de sua aparência, de sua produtividade, de sua popularidade ou de sua capacidade de responder às expectativas dos demais. Significa entender que alguém com dificuldades merece apoio, que uma pessoa tímida não deve ser transformada em motivo de piada, que quem aprende em outro ritmo precisa de compreensão e que aquele que pensa diferente continua tendo direito ao respeito.

O combate à intimidação, portanto, não se resolve apenas com cartazes, campanhas ou discursos ocasionais. É necessário estabelecer regras claras, ouvir quem sofre, apurar situações com seriedade, proteger as vítimas, responsabilizar os envolvidos de maneira educativa e acompanhar os resultados. A prevenção precisa fazer parte da convivência diária. Famílias, escolas, instituições religiosas, comunidades e autoridades devem compreender que o exemplo cotidiano ensina tanto quanto qualquer explicação formal. Não basta condenar publicamente a violência se, no convívio diário, a humilhação continua sendo tolerada quando parte de alguém considerado importante.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja por que algumas pessoas gostam de zombar das outras, mas por que tantas comunidades ainda encontram justificativas para tolerar esse comportamento. Enquanto a popularidade valer mais do que a bondade, o silêncio parecer mais conveniente do que a defesa de alguém e as palavras forem consideradas mais importantes do que as atitudes, continuaremos falando sobre humanidade sem conseguir praticá-la plenamente.

A verdadeira grandeza de uma pessoa não se revela na facilidade com que consegue fazer os outros rirem, mas na consciência que possui para não transformar ninguém em motivo de sofrimento. Respeitar o outro quando ele é forte, admirado e semelhante a nós pode ser fácil. O verdadeiro teste de caráter acontece quando precisamos respeitar quem é diferente, quem está aprendendo, quem enfrenta dificuldades ou quem não possui condições de retribuir nossa gentileza.

Você quer saber mais?

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Fontanar, 2008.

ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer: como pessoas boas se tornam más. Rio de Janeiro: Record, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin-Companhia, 2011.

sábado, 10 de outubro de 2026

A religião, a cultura e a história do povo Xokleng

 O povo Xokleng, também conhecido como Laklãnõ, possui uma longa história ligada principalmente à região que hoje corresponde ao estado de Santa Catarina. Durante muito tempo, seus antepassados viveram em áreas de florestas, onde praticavam a caça, a coleta de frutos e outras atividades necessárias à sobrevivência. Conheciam profundamente a natureza e utilizavam os recursos disponíveis para produzir objetos, construir abrigos e alimentar suas famílias. Assim como outros povos indígenas do Brasil, os Xokleng desenvolveram uma cultura própria, com língua, costumes, conhecimentos e tradições transmitidos de geração em geração. A vida em comunidade era importante para a organização social, e os conhecimentos dos mais velhos ajudavam a preservar a memória e a identidade do povo.

A história dos Xokleng foi profundamente marcada pela chegada dos colonizadores e pela ocupação de seus territórios. Durante o século XIX e o início do século XX, a expansão da colonização em Santa Catarina provocou conflitos violentos, mortes e a perda de terras indígenas. Os Xokleng resistiram durante muito tempo à ocupação de seus territórios, procurando defender suas famílias e seu modo de vida. No início do século XX, a atuação de agentes ligados à política indigenista brasileira contribuiu para estabelecer contatos com grupos Xokleng, mas esse processo ocorreu em meio a grandes pressões sobre suas comunidades. Mais tarde, a construção da Barragem Norte, iniciada na década de 1970 no Vale do Itajaí, provocou novos impactos sobre as terras e a vida das comunidades indígenas. Apesar dessas dificuldades, o povo Xokleng continuou lutando pela preservação de sua cultura e pelo reconhecimento de seus direitos.

A cultura Xokleng apresenta conhecimentos tradicionais relacionados à floresta, aos animais, às plantas e aos ciclos da natureza. A caça, a coleta e a utilização de diferentes materiais vegetais tiveram grande importância em sua história. A produção de objetos para o cotidiano e a transmissão de conhecimentos sobre o ambiente demonstram a capacidade desse povo de viver em estreita relação com o território. A língua Xokleng, pertencente à família linguística Jê, é um dos elementos fundamentais de sua identidade. Atualmente, há esforços para preservar e fortalecer seu uso, especialmente entre as novas gerações. As histórias contadas pelos mais velhos, os costumes familiares e as práticas comunitárias também contribuem para manter viva a memória dos antepassados.

A religiosidade Xokleng está relacionada às suas próprias tradições, às concepções sobre a vida e a morte e à relação com o mundo natural e espiritual. Como acontece com outros povos indígenas, suas crenças tradicionais foram transmitidas principalmente pela oralidade, por meio de narrativas, ensinamentos e práticas culturais. Entretanto, é importante compreender que nem todas as tradições religiosas antigas foram registradas com detalhes pelos pesquisadores. Ao longo do tempo, o contato com a sociedade não indígena e com diferentes grupos cristãos também provocou mudanças nas práticas religiosas de parte das comunidades. Por isso, não se deve imaginar que todos os Xokleng possuem atualmente as mesmas crenças ou realizam as mesmas cerimônias. Cada comunidade e cada família podem apresentar experiências e formas diferentes de expressar sua espiritualidade.

Atualmente, os Xokleng, também chamados de Laklãnõ-Xokleng, continuam presentes em Santa Catarina, especialmente no território indígena associado à região de Ibirama. Suas comunidades trabalham para preservar a língua, valorizar os conhecimentos dos antepassados e transmitir sua história às crianças e aos jovens. Além das questões culturais, enfrentam desafios relacionados à proteção de suas terras, à educação e ao reconhecimento de seus direitos. Conhecer a trajetória desse povo é importante para compreender que a história do Brasil não foi construída apenas pelos colonizadores, mas também pela resistência e pela participação dos povos indígenas. Estudar a história, a cultura e a religiosidade Xokleng é uma forma de reconhecer sua importância e respeitar a diversidade dos povos originários do nosso país.

Você quer saber mais?

SANTOS, Silvio Coelho dos. Índios e brancos no Sul do Brasil: a dramática experiência dos Xokleng. Florianópolis: Edeme, 1973.

WIIK, Flávio Braune. O contingente indígena Xokleng: uma análise antropológica. Para aprofundar o tema, também são relevantes os estudos acadêmicos do autor sobre identidade, cultura e transformações sociais entre os Laklãnõ-Xokleng.

A sociedade e a cultura Kaingang

 Os Kaingang são um dos principais povos indígenas do Brasil e possuem uma longa história, especialmente na Região Sul do país. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná e em São Paulo, existem comunidades que preservam suas tradições e continuam lutando pelo reconhecimento de seus direitos. A sociedade Kaingang possui uma organização própria, construída ao longo de muitas gerações, baseada nos laços familiares, na vida comunitária e no respeito aos mais velhos. Tradicionalmente, as crianças aprendem com suas famílias os costumes, as histórias e os conhecimentos de seu povo. Os ensinamentos são transmitidos por meio da convivência, das atividades cotidianas e das narrativas contadas pelos mais velhos, que têm um papel importante na preservação da memória e da cultura.

Uma característica marcante da sociedade Kaingang é sua organização tradicional em duas metades chamadas Kamé e Kairu. Essa divisão está relacionada às histórias de origem desse povo e influencia aspectos do parentesco, das relações sociais e de suas manifestações culturais. Cada metade possui símbolos e características próprias, que podem aparecer nas pinturas corporais e nos grafismos tradicionais. A língua Kaingang pertence à família linguística Jê, do tronco Macro-Jê, e continua sendo falada em diferentes comunidades. A preservação dessa língua é fundamental, pois ela guarda conhecimentos e maneiras de compreender o mundo que foram transmitidos de geração em geração.

A relação com a natureza também ocupa um lugar importante na cultura Kaingang. Antigamente, a caça, a pesca, a coleta de frutos e a agricultura faziam parte da sobrevivência das comunidades. Entre os alimentos tradicionais, destaca-se o pinhão, semente da araucária, árvore muito presente nas paisagens do Sul do Brasil. O conhecimento sobre as plantas, os animais e as mudanças das estações ajudava os Kaingang a organizar suas atividades e aproveitar os recursos disponíveis. O artesanato também faz parte de sua cultura, especialmente a confecção de cestos e outros objetos feitos com fibras vegetais. Além de sua utilidade no cotidiano, essas produções podem expressar conhecimentos, tradições e a identidade de cada comunidade.

As festas e as cerimônias tradicionais também possuem grande importância. Entre as práticas culturais Kaingang, destaca-se o Kikikoi, uma cerimônia tradicional relacionada à memória e à homenagem aos mortos, que reúne elementos religiosos e comunitários. Sua realização varia conforme a comunidade e as condições para manter essa tradição. As histórias de origem, os cantos, as pinturas corporais e os conhecimentos dos antepassados ajudam a fortalecer os vínculos entre as pessoas e a manter viva a cultura do povo.

Ao longo da história, os Kaingang enfrentaram conflitos com os colonizadores, perderam parte de seus territórios e sofreram pressões para abandonar seus costumes. Mesmo assim, continuaram preservando aspectos importantes de sua identidade e transmitindo seus conhecimentos às novas gerações. Atualmente, os Kaingang estudam, trabalham e participam de diferentes atividades da sociedade brasileira, mantendo suas tradições e reivindicando o respeito aos seus direitos. Conhecer a sociedade e a cultura Kaingang é compreender que os povos indígenas possuem histórias próprias e continuam contribuindo para a diversidade cultural do Brasil.

Você quer saber mais?

Referências bibliográficas

VEIGA, Juracilda. Aspectos fundamentais da cultura Kaingang. Campinas, SP: Curt Nimuendajú, 2006.

TOMMASINO, Kimiye; MOTTA, Lúcio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva (org.). Uri e Wãxi: estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2000.