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sábado, 2 de janeiro de 2016

A Lenda da fundação do Camboja, berço da civilização Khmer.



Há muitíssimos séculos, o Camboja era um deserto de areia e de rochedos; não se via o mínimo traço da mais  pequena gota de água, não se ouvia o leve rumor  do mais pequeno riacho. Por todo o lado, enormes montanhas, semelhantes a feras acocoradas, eram calcinadas por um sol ardente. Por vezes, ventos terríveis varriam a terra e engolfavam-se pelas estreitas passagens abertas entre as montanhas, erguendo tornados de poeira. As falésias, pouco a pouco escavadas por estes turbilhões rugidores, abriam-se em cavernas, que imediatamente se enchiam de areia. A própria areia modelava as montanhas, dando-lhes a forma de um leão rugidor ou de uma rã prestes a saltar, esculpia as agulhas entre as quais brincava a luz.

A natureza parecia artificial, demasiado estranha para ser verdadeira. Um dia, dois olhos secos de lágrimas, cobertos por longas pesanas, vagos e desprovidos de sensibilidade, dois olhos que podiam ser os de um cadáver, contemplaram esta paisagem aterradora. Tinham seguido uma pista sem fim, tinham visto inúmeras paisagens, do mar à neve, mas jamais tinham contemplado uma natureza como aquela. Talvez fossem os olhos de um ser humano, talvez os de uma alma sem corpo. Por fim, pela primeira vez desde que abandonara o seu país natal, um sorriso apareceu nos  seus lábios finos e descoloridos. Kambu Svayambhuva tinha finalmente chegado ao termo da sua peregrinação, à terra  onde desejava morrer; a vida era-lhe  demasiado pesada desde que perdera Mera, a mulher que Shiva, a terceira pessoa da Trindade hindu, lhe tinha dado.

Kambu chegou a um vale dominado por rochedos de formas fantásticas e viu m estreito trilho que conduzia a um buraco aberto numa falésia. Entrou numa gruta escura, cujas paredes estavam cobertas de humidade. O sol, a despeito de todo o seu poder, não chegava até ali. Olhou em torno. Estalactites e estalagmites formavam colunas polidas. Acendeu um archote, avançou pela caverna e não tardou em chegar junto de um lago subterrâneo. Deslizou por uma estreita passagem, depois visitou um caos de pedras enormes, por entre as quais murmuravam riachos subterrâneos. A vida, no entanto, não estava ausente dali. Kambu distinguiu incontáveis serpentes, cujos olhos o fixavam. O príncipe era corajoso. Em vez de fugir, puxou da espada e avançou, de arma na mão, para a maior das serpentes, quando esta, para seu grande assombro, se pôs a falar;

---- Quem és tu estrangeiro, que ousas penetrar nas cavernas dos Nagas, os senhores deste País?

----  Sou Kambu Svayambhuva, rei dos Arya-Desha. A minha esposa chamava-se Mera, a mais bela de todas as mulheres. O próprio deus Shiva tinha-me dado. Deixou este mundo, e eu abandonei a minha pátria para morrer no deserto mais selvagem que pudesse encontrar. Acabo de encontra-lo. Agora, podes matar-me.

Esperou a morte com calma, mas, em vez de esmaga-lo entre os seus anéis, a serpente falou novamente:

---- Não conheço o eu nome, estrangeiro, mas falaste de Shiva. Shiva é o meu rei, e eu sou o rei dos Nagas, as serpentes gigantes. Pareces-me corajoso. Fica conosco, neste país que escolheste, e põe fim ao teu desgosto.

Kambu ficou, vivendo numa das grutas, e acabou por amar os Nagas, que eram gênios, amavam os homens e adotavam por vezes a forma humana. Fizeram-se amigos e, a troco da alimentação e hospitalidade que lhe davam, Kambu pôs-se a falar-lhes das belezas do seu país. Descreveu-lhe os vales risonhos onde homens e animais viviam em amizade, onde cresciam o arroz e o algodão, as magníficas cidades atarefadas e felizes, as colinas cobertas de vegetação, o mistério das florestas.

Passaram-se vários anos. Kambu tinha esquecido a sua primeira mulher; desposara a filha do rei dos Nagas. As serpentes desapareceram, depois de terem graças aos seus poderes mágicos, transformado o seu país numa região tão bela como a dos Arya-Desha. O rei pronunciou umas palavras mágicas e gotas de água começaram a cair sobre as rochas. Foi então que Shiva em pessoa se manifestou e exprimiu a sua satisfação. A água tinha aparecido, ia fertilizar e transformar o país. Com a água, manifestou-se a vida, e depois o todo da criação. Kambu estava contente e maravilhado. Dele e dos Nagas ia descender uma nova raça de homens, a que fundaria o reino do Camboja, o reino dos filhos de Kambu.


Através dessa lenda, distinguem-se a origem do povo Khmer, fundadores de Angkor vindo da Índia provavelmente nos primórdios da era cristã, e que teve pouco depois, de lutar contra invasores vindos provavelmente de Java, em duas vagas. Uma delas constitui o núcleo da raça dos Chams, futuros inimigos hereditários do Khmers, e a outra estabeleceu-se em torno do delta do Mekong. Assim nasceu o reino do Fun-Nan, ou reino da Montanha, que alcançou um alto grau de poder sob várias dinastias. No fim do século V da nossa era, o Camboja atual encontrava-se constituído e unido sob o cetro de um príncipe da família real do Fu-Nan, Bhavarman. Todavia, só depois de violentas lutas, tanto contra os Chams como contra os javaneses, Jayavarman II pôde instalar a realeza Khmer na região de Angkor. Um de seus sucessores, Jayavarman IV, iria fundar a cidade de Angkor, onde os reis permaneceriam durante vários séculos.

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ULRICH, Paul. Os enigmas das civilizações desaparecidas. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores, 1978.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.