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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Luger do contrato brasileiro

A LUGER “BRAZILIAN” 1906 (CONTRATO BRASILEIRO)

Essa variação merece um capítulo mais detalhado, pois faz parte da nossa história. No ano de 1908 o Governo Brasileiro resolve fechar um contrato com a D.W.M. de fornecimento de 5.000 pistolas Parabellum, similares às que foram fornecidas ao Governo Português. Tratava-se de uma modelo 1906 (New-Model) e tipo 1906, ou seja, com trava de empunhadura mas sem engate para coronha, em calibre 7,65mm Parabellum e cano com 4″ 3/4 de comprimento. Essas pistolas tem a sua numeração serial iniciando em 0001 e terminando em 5000 (o que era de praxe na D.W.M. quando se tratava de contratos), numeração essa gravada na parte frontal da armação e debaixo do cano. Os dois últimos algarismos do número de série são estampados em diversas outras peças, donde se pode julgar se as armas tiveram suas peças substituídas ou não.

Desde 1904 que uma comissão governamental já testava alguns exemplares da arma para o Exército, apesar de que consta que a Marinha também efetuou testes até mesmo antes do Exército, embora não tenham concretizado nenhuma aquisição.




Luger 1906 do Contrato Brasileiro, com uma caixa de munição Geco, de fabricação alemã (foto de coleção particular).

Do lado esquerdo do prolongamento do cano e bem próximo à esse, há a única marca de prova desta arma, um pequeno círculo com a letra “B” em seu interior, muito similar à mesma empregada pela D.W.M. em seus fuzís Mauser do Contrato Brasileiro de 1908. Sobre a câmara não há nenhuma gravação, seja ela de brasões ou de datas. O extrator possui a inscrição “CARREGADA” em seu lado esquerdo, visível quando da presença de um cartucho carregado.



  



Detalhes da indicação “CARREGADA” em português e do monograma intrelaçado da D.W.M. no topo do ferrolho.

A alavanca seletora da trava de segurança de empunhadura não tem indicações quanto à posição de estar a arma travada ou não. Quando na posição travada (alavanca para cima), uma pequena área debaixo da alavanca possui um acabamento polido. Como na maioria das Lugers 1906, a base do carregador é feita em madeira. Acredita-se que todas essas pistolas tenham vindo para o Brasil acompanhadas de seus coldres de couro e de duas ferramentas, uma pequena chave que também servia para facilitar municiar o carregador (um orifício desta chave encaixa-se num botão externo, existente no carregador) e uma vareta com ponta rosqueada e com um reservatório para lubrificante.




A Luger 1906 com seu ferrolho aberto e carregador municiado. Todas as Lugers, com exceções, possuem o carregador feito em chapa de aço estampada e sem acabamento. O pequeno botão recartilhado que se vê no trilho lateral  e que é preso ao levantador de cartuchos pode ser puxado para baixo, com o polegar, para facilitar o carregamento (foto de coleção particular).




Pistola Parabellum 1906 do Contrato Brasileiro e seu coldre de couro original (foto de coleção particular).

Esse autor teve, ao longo de mais de quatro décadas, a oportunidade de examinar diversos exemplares deste contrato, onde se tornou patente a maior presença dessas armas com numeração mais alta, geralmente acima do número 3.000, motivo esse para o qual ainda não se tem explicação. Dentre todas essas peças avaliadas, grande parte já havia sofrido reformas, principalmente reoxidações feitas pelo método de banho quente, sendo que originalmente esse processo era feito pelo processo a frio (veja nosso artigo sobre reforma e conservação de armas de fogo). Algumas delas apresentavam um estado geral bem ruim em contraste com outras, totalmente originais, em estado denominado de “mint condition“, ou seja, tal como na saída da produção na fábrica.




Pistola Parabellum do contrato brasileiro, mais uma em excelente estado, preservada em mãos de um colecionador brasileiro

Em seu artigo na publicação norte-americana Guns & Ammo, de 1971, o autor Ralph L. Shattuck, um dos maiores colecionadores de pistolas Luger do mundo, afirma que as pistolas do Contrato Brasileiro raramente são encontradas em bom estado, o que não é bem verdade por que, felizmente, eu mesmo já tive a oportunidade de examinar várias delas em estado muito bom, como a ilustrada na foto acima.

Acima, a marca de prova do contrato brasileiro, marca essa que não foi utilizada em mais nenhum outro contrato existente.

Na importante publicação de Charles Kenyon Jr. , Lugers at Random, edição de 1969, o autor informa em suas notas sobre essa variação que o maior número de série já encontrado nessas armas é o de 4.920. Entretanto, não deve ter chegado ao conhecimento do autor do livro mas eu tive a oportunidade de examinar até hoje, uma única arma que apresentava numeração superior à essa especificada na publicação.




A Luger do Contrato Brasileiro de 1906 no interior de seu coldre de couro – nota-se na parte interna do coldre o compartimento para se guardar a pequena chave e na parte externa frontal, bolsa que alojava a ferramenta de limpeza. (foto de coleção particular).




Fotografia onde se vê três ferramentas originais que acompanhavam a pistola – vareta rosqueada com um compartimento para graxa lubrificante, chave de fenda (que também era usada para facilitar a inserção de cartuchos no carregador) e um saca-pinos.

O autor Charles Kenyon também sugere, sem ter muita certeza do fato, de que tomou conhecimento de algumas pistolas desse contrato também existirem em calibre 9mm Parabellum, com canos de 4″ de comprimento, as quais não se sabe terem sido fornecidas originalmente ou se foram transformadas posteriormente em arsenal, aqui mesmo no Brasil.




Pistola 1906 do contrato brasileiro, mostrando a inscrição CARREGADA no extrator, com seu coldre de couro

A respeito do Contrato Brasileiro, há realmente algumas controvérsias e a mais intrigante delas é sobre a existência dessas peças em calibre 9mm. Em todas as publicações estrangeiras sobre Lugers, e o autor possui diversos exemplares de livros publicados sobre essa arma, somente há referência sobre o contrato de 5.000 peças, em calibre 7,65mm e com canos de 4″ 3/4. Porém, uma publicação nacional, especializada em armas, chegou a afirmar que esse contrato foi aumentado posteriormente em mais 500 armas, essas sim, fornecidas em calibre 9mm Parabellum. Essa hipótese não tem base nas publicações sobre Lugers existentes no exterior e nem respaldo documental nos anais do Exército Brasileiro. Dificilmente se encontram colecionadores e aficionados dessa pistola no Brasil que estão plenamente convencidos de que essas armas realmente existiram. Entretanto, nada impede de que possa ter havido aquisições posteriores de pistolas, ou pelo governo ou por órgãos policiais, fossem em número de 500 ou não, em calibre 9mm. Porém, essas pistolas seriam do padrão das P08 comerciais, com canos de 4″, com nada a ver com as originais 5.000 do contrato original.

Apesar de que essa publicação exibiu, inclusive, fotos da arma em questão, particularmente eu nunca as observei em mãos e contesto a afirmação de que realmente pertenciam a um adendo feito no mesmo contrato de 1908. Como nas pistolas Luger, a substituição do cano por outro é algo muito simples de se fazer, uma vez que eram rosqueados, e basta o uso de um cano de calibre 9mm montado numa arma originalmente em 7,65 para transformá-la nesse novo calibre, nada impediria que algumas das 5.000 Lugers do contrato brasileiro tenham tido seus canos trocados por outros em calibre 9mm, oriundos talvez de pistolas Luger P-08, utilizadas na II Guerra e trazidas em boa quantidade para cá; aliás, elas ainda são presentes por aqui, em grande número. Como as pistolas do contrato possuíam numeração serial nos canos, já observamos em alguns exemplares com canos de 9mm de que essa numeração, ou não existe ou foi remarcada, com claras evidências fraudulentas.

Abaixo, cópia de um boletim do Exército Brasileiro de Julho de 1912, destinado às instruções  de manuseio da pistola Parabellum. Nota-se que na tabela de características, exibem-se os dois calibres, porém, fica explícito ali que o Exército só as tinha em calibre 7,65mm.


Mais uma vez lembrando que a pistola Parabellum é uma arma em que os dois calibres para os quais foi projetada, o 9mm Parabellum e o 7,65mm Parabellum, possuem as mesmas dimensões no seu culote, e características de carga e energia muito similares, de forma que a simples troca do cano é suficiente para que funcione sem nenhum problema: os carregadores são exatamente os mesmos e nem é preciso substituir a mola recuperadora, por exemplo.

Alguns exemplares de pistolas do contrato brasileiro com canos em 9mm, ou vistos pelo autor ou em mãos de colecionadores são, inclusive, considerados como montagens e adaptações pelos próprios proprietários. Outro fato que corrobora para a não veracidade dessa informação é a de que todas essas pistolas do contrato que surgiram em calibre 9mm em mãos de colecionadores, possuem numeração serial dentro do parâmetro até 5000, o que contraria explicitamente o contrato em si, sendo que em algumas a numeração serial no cano é claramente remarcada, com punções diferentes do original.

Segundo o historiador Adler Homero da Fonseca, o maior especialista em história de armamento bélico brasileiro, o Brasil mantinha uma missão militar na Alemanha naquele período, de forma que deve ter sido ela a fazer a compra das pistolas junto à DWM. O relatório do ministro da guerra de 1902 tem um parecer sobre as ainda chamadas Borchardt-Luger. Em 1908 havia uma comissão de avaliação para executar os testes de pistolas automáticas, mas as pistolas Luger chegaram aqui até por volta de 1910, pois só foram encontrados documentos relativos aos dados de distribuição a partir daquele ano. O manual oficial da arma é de 1912, porém, o manual da Marinha já as menciona em 1905.


Coldre de lona, produzido aqui mas baseado nos produtos do fabricante britânico The Mills Equipment Co., fornecedor que era para o governo brasileiro, utilizado alternativamente no lugar do de couro; note o compartimento para o carregador.

Outra afirmação supõe que as 500 armas em 9mm faziam parte do mesmo contrato. Também não vejo muito sentido porque o Brasil, em 1906, ano em que o calibre 9mm Parabellum ainda era um ilustre desconhecido e ainda nem utilizado oficialmente na Alemanha, iria adquirir 4.500 exemplares de uma pistola em calibre 7,65mm e só 500 deles viriam utilizando os cartuchos de calibre diferente.

Se assim fosse, temos que concordar que se os seriais das 7,65mm iniciaram em 0001 e terminaram em 4.500, não deveria haver armas em calibre 7,65mm acima de 4.501, o que não é verdade, pois elas existem. Controvérsias à parte, o Exército Brasileiro acabou ficando com somente esse lote, muito pouco para suprir a maioria de suas unidades e provavelmente nem todas essas pistolas permaneceram muito tempo em serviço, tendo encontrado um ambiente mais propício à sua conservação nas mãos de alguns oficiais que as levaram para casa.

Oficialmente, a Parabellum ficou em serviço no Exército de 1906 até 1937; alguns historiadores afirmam que havia uma certa tolerância por parte do Exército, de forma que vários oficiais ainda continuaram  a utilizá-las como arma de porte até a década de 50.


Depois delas, até a adoção da Beretta em 1980, a única pistola semi-automática adquirida por contrato pelo Exército Brasileiro foi a Colt 1911, no ano de 1937.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.