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domingo, 28 de dezembro de 2014

Sambaquis, Parte III: Sepultamentos nos Sambaquis e Conclusão - Relatório de Arqueologia.

Não deixe de ler a primeira e segunda postagens sobre o tema para ficar inteirado de todas as informações:



SEPULTAMENTOS NOS SAMBAQUIS 
              Quando durante as escavações os arqueólogos chegavam em profundidades que correspondiam aos primeiros sepultamentos, os arqueólogos encontraram covas com uma grande quantia de buracos de estacas que revelam o que um dia foi uma estrutura de madeira, hoje já decomposta, que demarcava o local onde estava o morto, na cova. Encontramos também grossas camadas de conchas que separam grupos de sepultamentos em níveis, algo que reflete sepultamentos de pessoas que não possuíam laços sentimentais com os sepultamentos anteriores, essas camadas de conchas são encontradas com dezenas de anos de diferença, o que explica a falta de laços com os antigos sepultamentos, pois o grupo atual desconhecia os indivíduos sepultados anteriormente.

              Ao serem escavados, alguns sambaquis revelaram que o sepultamento em si com conchas e objetos do morto e aonde algumas vezes são encontrados alimentos para o falecido ficava logo abaixo de onde havia ocorrido a cerimonia fúnebre devidos aos vestígios de oferendas e fogo ritual que foram encontrados acima do mesmo. Quando analisamos as práticas funerárias desenvolvidas pelos grupos sambaquianos, vemos desde o principio o desenvolvimento de uma hierarquização com base nos bens depositados juntos ao corpo na sepultura e também pelo modo como o corpo do individuo é tratado após a morte, pois indivíduos de status superior recebiam um tratamento de preparação de seus corpos antes do sepultamento em si. Embora alguns arqueólogos afirmam que não havia uma relação direta entre estes aspectos de tratamento, pois são verificados dois tipos de status: um é aquele que a pessoa adquiri com seus feitos durante o decorrer de sua vida e o outro é aquele que pode ser herdado de seus ancestrais.

              Os arqueólogos ao analisar os sepultamentos de jovens aonde são encontrados um tratamento diferenciado com deposito de artefatos lindamente pintados como esculturas em pedra e osso especialmente confeccionadas com motivos do cotidiano do seu povo denota um status herdado, pois alguém tão jovem não teria tido tempo de realizar algo significante para sua sociedade segundo os padrões e expectativa de vida de seu grupo.

Crânios de sambaquianos: 12. Crânios encontrados em sepultamentos em sambaquis, os indivíduos tinham entre 40 e 50 anos. Fonte: DUARTE, 1968, p.43.

              Nos sepultamentos os ossos humanos estão muitas vezes juntos com conchas os quais acabam como matéria-prima na construção moderna, uma falta de respeito com os povos que sepultaram seus parentes nessas estruturas denominadas Sambaquis. Se esses povos possuíam uma preocupação com o sepultamento provavelmente preocupavam-se com a vida pós-morte do sepultado o que nos remete que este individuo não foi simplesmente colocado ali.   Algo que se destaque nos sepultamentos em geral são os ossos robustos dos esqueletos encontrados que nos mostram que pertenciam a pessoas que realizavam atividade física de modo rotineiro com certeza relacionados a pesca e ao remar dos seus barcos, pois sabemos que os sambaquianos tinham barcos que os levavam até ilhas no litoral.
              Alguns corpos sepultados, devido a rituais religiosos tinham seus corpos pintados de vermelho com algum corante natural, isto é verificado nos ossos dos esqueletos que aparecem cobertos com este material. Conforme os sepultamentos iam ocorrem o sambaqui crescia no decorrer de centenas de milhares de anos, aliados ao acumulo de restos alimentícios e de utensílios era um verdadeiro monumento a vida e ao cotidiano desses povos que nos seu final culminava com seus próprios corpos os principais componentes destes maravilhosos monumentos aos seus grupos sociais.

Pobres que foram humildes e grosseiros, os homens dos sambaquis eram, no entanto, acompanhados frequentemente à sepultura de seus toscos utensílios de pedra e osso, de algum alimento como se verifica da omoplata duma anta ou dum veado, com frequência ao lado dos objetos, e até de restos humanos incompletos: crânio mais comumente, às vezes dentro de cerco de pedras brutas contornando os corpos. Daí o encontro duma pedra maior, atípica, ter-se tornado, a princípio, sinal de ossada perto, quando em trabalho de pesquisa em sambaqui. (DUARTE, 1968.p.103).

            Ao serem analisados devidamente, esses sepultamentos nos mostram em parte como eram as estruturas físicas desses povos paleo-americano, podemos encontrar ossos de crânios, com dentes muito fortes, desgastados pela areia dos mariscos ou pelo mastigo de raízes e outros alimentos duros, mas, incrivelmente, sem uma só cárie, algo incrível até para a atualidade. Verificaremos como eram realizados os rituais de sepultamento, uma área de estudo responsável pela escatologia. 


Mas embora grosseiros esses túmulos primevos não deixavam de insinuar outros túmulos toscos também, perfeitamente característicos e pequenos do Egito ainda selvagem, dos clãs e das tribos nilóticas, cujo culto dos mortos evoluiria para os megálitos, tipicamente documentados pelos menhires e dólmens de tantos sítios da Europa, da Ásia e da América, e também para as sepulturas coletivas do Egito nação, para as pirâmides faraônicas, possível estilização dos mastabas, cuja forma embora mais avançada atrai claramente as longínquas origens nos grosseiros amontoados de conchas mesolíticas. Das pirâmides e das tumbas, subterrâneas ou não, ao túmulo de Máusolo ou de Cleópatra, seria apenas uma questão de tempo. [...] Resumindo: estaria no sambaqui a forma primeva de um complexo sociológico iniciado em plena era totêmica? De um lado os ritos funerários, a sepultura do chefe e indivíduos diferenciados, o Panteão. De outro, as assembleias do grupo. Para decisões coletivas, combinações de guerra ou de paz; conselho dos velhos, característico das sociedades primitivas; ritos mágicos de caça, de pesca, de instituições sociais, nascimento, casamento, alianças; festejos, danças e cantos, refeições coletivas, comemorações de todo o grupo; refúgio para segurança noturna ou defesa contra as feras e os homens. Tudo se desenrolaria no sambaqui, como à influência de um mimetismo ou contágio sociológico das grutas pintadas do Magdalense, alguns milhares de anos antes. (DUARTE, 1968, p.104-5).

            Essa reflexão de Paulo Duarte me faz pensar até aonde poderiam ter ido os grupos sambaquianos senão tivessem desaparecido. Poderiam ter-se desenvolvido e aperfeiçoado suas tradições e culturas de modo que isto seria só uma questão de tempo? Algo que muitos arqueólogos respondem positivamente.


Sepultamento: Sambaqui Ilhote do Leste, Ilha Grande, RJ. Sepultamento. Fonte: WESOLOSKY, 2000 p.162.

Enquanto em outras culturas é comum uma certa separação do espaço destinado ao sepultamento, uma vez que o cemitério é visto como um lugar a ser ignorado e/ ou evitado, os construtores de sambaquis e acampamentos litorâneos criaram um vínculo espacial claro com seus mortos ao manterem as sepulturas na mesma área do sítio, e este fato deve ser considerado como o eixo principal de todo o padrão funerário estabelecido por estes grupos. (WESOLOSKY, Verônica. Práticas funerárias Pré-históricas do litoral de São Paulo. TENÓRIO, Maria Cristina (Org.) Pré-história da Terra Brasilis, Rio de Janeiro: UFRJ, 2000, p. 190-1).
  

CONCLUSÃO
            O relatório aqui apresentado visa expor de forma clara e extremamente curiosa esses grupos sambaquianos que habitaram os litorais do Brasil e expor de forma clara suas origens e motivos de existência. Vimos que alguns sambaquis chegam a ter mais de 6 mil anos de existência e que foram construídos grupos considerados não-indígenas, pois sambaquianos não eram índios. Entendemos que os sambaquis eram monumentos erguidos durante milhares de anos gerações e gerações de grupos que habitaram e utilizaram do mesmo em seu cotidiano como abrigo, cemitério e deposito de restos alimentares e artefatos. Sendo que os principais vestígios são os restos de conchas provindos de sua alimentação diária, além de ossos de mamíferos e peixes, incluindo também restos de tubarões e outros peixes que habitavam águas mais profundas.

            Verificamos que através de estudos os grupos sambaquianos tem origem nos primeiros habitantes da América que aqui chegaram a 10 mil AP e se estabeleceram nos litorais sul-americanos com cultura material própria e que denota grande habilidade com artefatos feitos de ossos e pedra. Na análise dos sítios sambaquianos do Sul do Brasil descobrimos que os primeiros datam de 3 mil AP e que em SC no Sambaqui de Jabuticabeira-II existem mais de 43 mil sepultamentos. Por meio dessa complexidade vemos que os grupos que habitavam o litoral brasileiro eram organizados em estruturas sociais hierarquizadas com redes de troca entre outros grupos, e com uma população alta se comparada com outros grupos e que eram sedentários. Não eram simples agrupamentos humanos, mas existia uma estrutura cultual envolvida em suas relações diárias entre si e o mundo que os rodeia. Possuidores de uma indústria lítica aonde eram preparados machados, armas (incluindo pontas de flecha e outros), moedores e outros artefatos como um grande número de artefatos lascados e lascas de quartzo. Registraram-se raspadores, furadores, pontas-de-arremesso triangular, facas, quebra-cocos, percutores, talhadores e alisadores. Não podemos esquecer é claro dos zoólitos, que são esculturas feitas de osso ou pedra com a forma dos animais das regiões onde habitavam, alguns zoólitos tem forma de animais marinhos, aves e raramente, mas existem alguns com forma humana. Mas a característica mais marcante dessa cultura sambaquiana é o hábito de acumular todas essas coisas é o que diferencia seu grupo de tantos outros que ocuparam o território brasileiro. Eles consideravam os restos alimentares como material construtivo e os acumulavam, dia a dia, erguendo uma plataforma que, com o passar do tempo, mais se destacava na paisagem.

            Esse costume de acumular restos alimentares e usa-los para erguer construções não é um costume que deva ser entendido segundo a visão pratica, pois se relaciona com o prestígio dos moradores de cada local em relação aos vizinhos.  Os sambaquis eram locais de moradia, sabemos disso, pois, são encontrados diferentes artefatos e nos mostram sua relação com o cotidiano desses povos e sua vida. Outro indicio importante é que nunca foi encontrado outro local de habitação dos povos sambaquianos além do sambaqui em si. Mesmo realizando muitas atividades do dia-a-dia no próprio sambaqui os seus construtores exploravam muito todos os locais nos arredores do sambaqui.

Autor: Leandro Claudir. Criador e administrador do Projeto Construindo História Hoje e Acadêmico de História.

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REFERÊNCIAS

CADASTRO NACIONAL DE SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS, sítio RS-LN-19: Capão Alto, sambaqui localizado no município de Xangri-lá/Rio Grande do Sul. Disponível em: http://www.iphan.gov.br/sgpa/cnsa_detalhes.php?11993. Acessado em 13 de nov. de 2014.
CUNHA, Manuela Carneiro da Cunha. Os mortos e os outros. São Paulo: Hucitec, 1978.
DUARTE, Paulo. O sambaqui visto através de alguns sambaquis. São Paulo: Instituto de Pré-história da Universidade de São Paulo, 1968. p.100-105.
FERREIRA, C. C.; TORRES, F. R.; BORGES, W. R. Cubatão: Caminhos da História. Cubatão: do autor, 2007.
GASPAR, Maria Dulce. Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
GASPAR, Maria Dulce. Os ocupantes Pré-históricos do litoral brasileiro. TENORIO, Maria Cristina (Org.) Pré-história da Terra Brasilis. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.
SCHMITZ, Pedro Ignácio. Pré-história do Rio Grande do Sul: arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil 2º Edição. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 2006.
WESOLOSKY, Verônica. Práticas funerárias Pré-históricas do litoral de São Paulo. TENÓRIO, Maria Cristina (Org.) Pré-história da Terra Brasilis, Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.
Sambaqui Figueirinha I. Disponível em:
Sambaqui Figueirinha II. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sambaqui#mediaviewer/File:Figueirinha_II_Areia.JPG> Acesso em 10 de nov. de 2014.
Modelo de estratificação das camadas de um sambaqui do litoral sul catarinense, no Brasil. Disponível em:
Sambaqui MAE-USP. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sambaqui,_MAE-USP_(2).JPG> Acesso em 11 de nov. de 2014.
Zoólitos. Disponível em: <http://atmosferasapiente.blogspot.com.br/2013/08/sambaquis-arqueologia-no-litoral.html>. Acessada em 11 de nov. de 2014.
Rara escultura de pedra em forma humana: Disponível em:
Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville/MASJ. Disponível em:


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Plínio Salgado.