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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Breve relato sobre aspectos históricos na educação dos surdos.


Abade Charles Michel de L’Epée (1712-1789).
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Prof° Gaspar Scangarelli: professor de LIBRAS, Surdo, Formado de Educação Física na Ulbra e letras/LIBRAS na UFSC, pólo UFSM. Proficiência de LIBRAS pelo MEC.

            A História da Educação dos Surdos data de cerca de 400 anos, sendo que nos seus primórdios havia pouca compreensão da psicologia do problema, e os indivíduos deficientes eram colocados em asilos ou mortos, retirados do convívio da sociedade.

            No passado, os surdos eram considerados incapazes de ser ensinados, por isso eles não frequentavam escolas. As pessoas surdas, principalmente as que não falavam, eram excluídas da sociedade, sendo proibidas de casar, possuir ou herdar bens e viver como as demais pessoas. Assim, privadas de seus direitos básicos, ficavam com a própria sobrevivência comprometida.

            Na Roma não perdoavam os surdos porque achava que eram pessoas castigadas ou enfeitiçadas, a questão era resolvida por abandono ou com a eliminação física – jogavam os surdos em rio Tiger. Só se salvavam aqueles que do rio conseguiam sobreviver ou aqueles cujos pais os escondiam, mas era muito raro – e também faziam os surdos de escravos obrigando-os a passar toda a vida  dentro do moinho de trigo empurrando a manivela.

            Na Grécia, os surdos eram considerados inválidos e muito incômodo para a sociedade, por isto eram condenados à morte – lançados abaixo do topo de rochedos de Taygéte, nas águas de Barathere - e os sobreviventes viviam miseravelmente como escravos ou  abandonados só.

            O abade Charles Michel de L’Epée é uma pessoa muito conhecida na história de educação dos surdos, (1712-1789) conheceu duas irmãs gêmeas surdas que se comunicavam através de gestos, iniciou e manteve contato com os surdos carentes e humildes que perambulavam pela cidade de Paris, procurando aprender seu meio de comunicação e levar a efeito os primeiros estudos sérios sobre a língua de sinais. Procurou instruir os surdos em sua própria casa, com as combinações de língua de sinais e gramática francesa sinalizada denominado de “Sinais metódicos”.

            Abade Charles Michel de L’Epée fundou a primeira escola pública para os surdos “Instituto para Jovens Surdos e Mudos de Paris” e treinou inúmeros professores para surdos. O abade colocou as regras sintáticas e também o alfabeto manual inventado pelo Pablo Bonnet e esta obra foi mais tarde completada com a teoria pelo abade Roch-Ambroise Sicard.

            Em Hartford,1814, nos Estados unidos, o reverendo Thomas Hopkins Gallaudet (1787-1851) observava as crianças brincando no seu jardim quando percebeu que uma menina, Alice Gogswell, não participava das brincadeiras por ser surda e era rejeitada das demais crianças. Gallaudet ficou profundamente tocado pelo mutismo da Alice e pelo fato de ela não ter uma escola para freqüentar, pois na época não havia nenhuma escola de surdos nos Estados Unidos.

            Gallaudet tentou ensinar-lhe pessoalmente e juntamente com o pai da menina, o Dr. Masson Fitch Gogswell, pensou na possibilidade de criar uma escola para surdos.

Thomas_Gallaudet

            O americano Thomas Hopkins Gallaudet parte à Europa para buscar métodos de ensino aos surdos. Na Inglaterra, o Gallaudet foi conhecer o trabalho realizado por Braidwood, em escola “Watson’s Asylum” (uma escola onde os métodos eram secretos, caros e ciumentamente guardados) que usava língua oral na educação dos surdos, porém foi impedido e recusaram-lhe a expor a metodologia, não tendo outra opção o Gallaudet partiu para a França onde foi bem acolhido e impressionou-se com o método de língua de sinais usado pelo abade Sicard.

            Thomas Hopkins Gallaudet volta à América trazendo o professor surdo Laurent Clerc, melhor aluno do “Instituto Nacional para Surdos Mudos”, de Paris. Durante a travessia de 52 dias na viagem de volta ao Estados Unidos, Clerc ensinou a língua de sinais para Gallaudet que por sua vez lhe ensinou o inglês. Thomas H. Gallaudet, junto com Clerc fundou em Hartford, 15 de abril, a primeira escola permanente para surdos nos Estados Unidos, “Asilo de Connecticut para Educação e Ensino de pessoas Surdas e Mudas”. Com o sucesso imediato da escola levou à abertura de outras escolas de surdos pelos Estados Unidos, quase todos os professores de surdos já eram usuários fluentes em língua de sinais e muitos eram surdos também.

            Em 1864 foi fundado a primeira universidade nacional para surdos “Universidade Gallaudet” em Washington – Estados Unidos, um sonho de Thomas Hopkins Gallaudet realizado pelo filho do mesmo, Edward Miner Gallaudet (1837-1917).     
                            
            Em 6 até 11 de setembro de 1880 realizou-se Congresso Internacional de Surdo- Mudez, em Milão – Itália, onde o método oral foi votado o mais adequado a ser adotado pelas escolas de surdos e a língua de sinais foi proibida oficialmente alegando que a mesma destruía a capacidade da fala dos surdos, argumentando que os surdos são “preguiçosos” para falar, preferindo a usar a língua de sinais. O Alexander Graham Bell teve grande influência neste congresso. Este congresso foi organizado, patrocinado e conduzido por muitos especialistas ouvintes na área de surdez, todos defensores do oralismo puro (a maioria já havia empenhado muito antes de congresso em fazer prevalecer o método oral puro no ensino dos surdos). Na ocasião de votação na assembléia geral realizada no congresso todos os professores surdos foram negados o direito de votar e excluídos, dos 164 representantes presentes ouvintes, apenas 5 dos Estados Unidos votaram contra o oralismo puro.


Alexander Graham Bell (1847-1922).

            Entre os anos 1870 e 1890, o Alexander Grahan Bell publicou vários artigos criticando casamentos entre pessoas surdas, a cultura surda e as escolas residenciais para surdos, alegando que são os fatores o isolamento dos surdos com a sociedade. Ele era contra a língua de sinais argumentando que a mesma não propiciavam o desenvolvimento intelectual dos surdos.
            Um pouco antes (1857), o professor francês E. Huet, professor surdo com experiência de mestrado e cursos em Paris, e partidário de L'Epée, que usava o Método Combinado, veio para o Brasil, a convite de D. Pedro II, para fundar a primeira escola para meninos surdos de nosso país: Imperial Instituto de Surdos Mudos, hoje, Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), mantido pelo governo federal, e que atende, em seu Colégio de Aplicação, crianças, jovens e adultos surdos, de ambos os sexos. A partir de então, os surdos brasileiros passaram a contar com uma escola especializada para sua educação e tiveram a oportunidade de criar a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), mistura da Língua de Sinais Francesa com os sistemas de comunicação já usados pelos surdos das mais diversas localidades.


 Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Fundado em 26/09/1857.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                  
Edouard Huet

            Depois de vários fracassos cometidos na Educação de Surdos através do método oralista de ensino, em contraste com a eficácia do uso da LIBRAS e após diversos movimentos em todo o mundo a favor do uso da Língua de Sinais na Educação, foi que o Brasil oficializou a LIBRAS através da Lei 10.436 de 24 de abril de 2002; como instrumento de comunicação eficaz aos Surdos, surgindo então o Método Bilíngüe de Ensino, que envolve simultaneamente o uso de duas línguas: LIBRAS COMO PRIMEIRA LÍNGUA E A LÍNGUA PORTUGUESA COMO SEGUNDA LÍNGUA NO APRENDIZADO DOS ALUNOS SURDOS.

            Em 1960 Willian Stokoe publicou “Linguage Structure: na Outline of the Visual Communication System of the American Deaf” afirmando que ASL é uma língua      com todas as características da língua oral. Esta publicação foi uma semente de todas as pesquisas que floresceram em Estados Unidos e na Europa. 

            Hoje com mais 450 alunos se formaram o curso de letras/libras que vai valorizar a língua brasileira de sinais em nove pólos da UFSC e irão incluir o currículo de libras nas diversas instituições para divulgar a importância de LIBRAS para as pessoas ouvintes e acabar com preconceitos e barreiras.


 William Stokoe

CULTURA SURDA

            A cultura surda tem em seus fundamentos a importância do contato entre as pessoas surdas com a sua Língua de Sinais  com outros surdos, nós nos entendemos como uma comunidade surda, esta, sendo uma minoria, possui elementos que se diferem muito daqueles a quem chamamos de ouvintes, as pessoas que ouvem.

            Os surdos têm encontros em festas de associação onde fazem amizades e participam deste local para desenvolver sua autoestima, pois a maioria dos surdos provém de famílias ouvintes não usuárias da língua de sinais.

LÍNGUA DE SINAIS

            A língua de sinais é a forma de comunicação dos surdos. Embora muitas pessoas acreditem que fazer gestos, mímica ou dramatizações seja língua de sinais porque acha é limitada, não tem conhecimento, incapaz de transmitir idéias abstratas. Também há pessoas acreditam que a língua de sinais é o português feitos com as mãos, um conjuntos de gestos que interpretam as línguas orais, isso é mito.

            Embora cada língua de sinais tenha sua própria estrutura gramatical, surdos de pais diferente falam diferente línguas, como as pessoas ouvintes.

            Mas os surdos de países diferentes comunicam-se facilmente através gestos, classificação, icônicos, expressões faciais que se assemelham coisas representadas.

            A língua de sinais exige o contato com outros surdos que a utilizam, ou a realização de um curso formal para ser aprendida. Cada país tem a sua própria língua de sinais. A língua de sinais NÃO é universal. Dentro de um único país, há variações da língua por regiões, é o que chamamos de variações linguísticas.

            Ela é diferente em cada lugar do mundo, assim como as línguas orais e, por isso, em nosso país se chama Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS.  É reconhecida cientificamente, como um sistema linguístico de comunicação gestual-visual, com estrutura gramatical própria, oriunda das comunidades surdas brasileiras. É uma língua natural, formada por regras morfológicas, sintáticas, semânticas e pragmáticas próprias, diferente da Língua Portuguesa.

            A Língua Portuguesa, no caso do Brasil, é considerada a segunda língua dos surdos. Por isso a escrita dos surdos é diferente, eles aprendem a Língua Portuguesa como estrangeiros.

VARIAÇÕES LINGÜÍSTICAS

            Existem diversas comunidades surdas em diferentes regiões, onde, cada grupo possui o seu nível linguístico. Além de que cada grupo possuí um vocabulário específico, podendo ser culto ou coloquial dependendo do nível de ensino dos usuários, este aspecto também é semelhante à língua portuguesa que possui estas variações. Por isso o mais importante é conviver com os surdos a fim de se aprender mediante o contexto e buscar conhecimento destas variações linguísticas melhorando o seu desempenho no uso da LIBRAS.

Prof° Gaspar Scangarelli: professor de LIBRAS, Surdo, Formado de Educação Física na Ulbra e letras/LIBRAS na UFSC, pólo UFSM. Proficiência de LIBRAS pelo MEC.

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Plínio Salgado.