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sábado, 30 de agosto de 2014

O Mundo Perdido da Velha Europa: o vale do Danúbio, 5000-3500 a.C.


    Antes da glória de Grécia e Roma, e até mesmo antes das primeiras cidades da Mesopotâmia ou dos templos ao longo do Nilo, havia no vale do Baixo Danúbio e ao pé das montanhas dos Bálcãs um povo à frente de seu tempo na arte, tecnologia e no comércio de longa distância.

      Por 1,5 mil anos, começando antes de 5000 a.C., eles cultivaram e construíram cidades de tamanho considerável, algumas com até duas mil residências. Eles dominavam a fundição de cobre em larga escala, a nova tecnologia da era. Em seus túmulos foram encontrados uma gama impressionante de adereços de cabeça e colares e, em um cemitério, a mais antiga grande coleção de artefatos de ouro do mundo.

      Os desenhos marcantes de sua cerâmica revelam o refinamento da linguagem visual da cultura. Até descobertas recentes, os artefatos mais intrigantes eram figuras onipresentes de "deusas" de terracota, originalmente interpretadas como evidência do poder espiritual e político das mulheres da sociedade.

     Segundo arqueólogos e historiadores, a nova pesquisa ampliou a compreensão dessa cultura há muito tempo ignorada, e que parece ter se aproximado do limiar do status de "civilização". A escrita ainda não havia sido inventada e ninguém sabe como o povo se chamava. Para alguns acadêmicos, o povo e a região são simplesmente a Velha Europa.

      A cultura pouco conhecida está sendo resgatada da obscuridade em uma exposição, "O Mundo Perdido da Velha Europa: o vale do Danúbio, 5000-3500 a.C.", que foi inaugurada no mês passado no Instituto para o Estudo do Mundo Antigo da Universidade de Nova York. Mais de 250 artefatos de museus da Bulgária, Moldávia e Romênia estão expostos pela primeira vez nos Estados Unidos. A mostra fica aberta até 25 de abril.

     Em seu auge, em torno de 4500 a.C., disse David W. Anthony, curador convidado da exposição, "a Velha Europa estava entre os lugares mais sofisticados e tecnologicamente avançados do mundo" e desenvolveu "muitos sinais políticos, tecnológicos e ideológicos de civilização".

       Anthony é professor de antropologia da Hartwick College, em Oneonta, Nova York, e autor de "The Horse, the Wheel, and Language: How Bronze-Age Riders from the Eurasian Steppes Shaped the Modern World" (o cavalo, a roda e a linguagem: como os cavaleiros da era do bronze das estepes eurasianas moldaram o mundo moderno, em tradução livre). Historiadores sugerem que a chegada de povos das estepes ao sudeste da Europa pode ter contribuído para o colapso da cultura da Velha Europa por volta de 3500 a.C.

     Na pré-abertura da exposição, Roger S. Bagnall, diretor do instituto, confessou que até agora "muitos arqueólogos não haviam ouvido falar dessas culturas da Velha Europa". Admirando a cerâmica colorida, Bagnall, especialista em arqueologia egípcia, comentou que na época "os egípcios com certeza não faziam cerâmica assim".

      O catálogo da mostra, publicado pela Princeton University Press, é o primeiro compêndio em inglês da pesquisa sobre as descobertas da Velha Europa. O livro, editado por Anthony, com Jennifer Y. Chi, diretora-associada para exposições, inclui ensaios de especialistas da Grã-Bretanha, França, Alemanha, Estados Unidos e dos países onde a cultura existiu.

      Chi disse que a exposição reflete o interesse do instituto em estudar as relações entre as culturas conhecidas e as "subapreciadas".

     Embora escavações ao longo do último século tenham descoberto vestígios de antigos assentamentos e estátuas de deusas, foi apenas em 1972, quando arqueólogos locais descobriram um grande cemitério do quinto milênio a.C. em Varna, Bulgária, que eles começaram a suspeitar que aquelas não eram pessoas pobres vivendo em sociedades igualitárias não estruturadas. Mesmo então, isolados pela Guerra Fria com a Cortina de Ferro, os búlgaros e romenos foram incapazes de transmitir seu conhecimento ao Ocidente.

       A história que agora surge é que agricultores pioneiros após aproximadamente 6200 a.C. se mudaram para o norte em direção à Velha Europa, vindos da Grécia e da Macedônia e levando trigo, sementes de cevada e sua criação de gado e ovelhas. Eles estabeleceram colônias ao longo do Mar Negro e nas planícies e colinas do rio, que evoluíram em culturas relacionadas, mas um tanto distintas, descobriram os arqueólogos. Os assentamentos mantinham contato próximo através de redes de comércio de cobre e ouro e também compartilhavam padrões de cerâmica.

       A concha Spondylus do Mar Egeu era um item especial de comércio. Talvez as conchas, usadas em pingentes e pulseiras, fossem símbolos de seus ancestrais egeus. Outros acadêmicos veem essas aquisições de longa distância como motivadas em parte pela ideologia de que os produtos não eram bens no sentido moderno, mas sim "valores", símbolos de status e reconhecimento.

       Notando a difusão dessas conchas naquela época, Michel Louis Seferiades, antropólogo do Centro Nacional para Pesquisa Científica, na França, suspeita "que os objetos eram parte de um círculo de mistérios, um conjunto de crenças e mitos".

       De qualquer forma, Seferiades escreveu no catálogo da exposição que a predominância das conchas sugere que a cultura possuía ligações com "uma rede de rotas de acesso e elaborados sistemas sociais de trocas - incluindo o escambo, a troca de presentes e a reciprocidade".

      Ao longo de uma ampla área que hoje é a Bulgária e a Romênia, o povo se assentou em vilarejos de casas de um ou múltiplos recintos, comprimidas dentro de fortificações. As casas, algumas com dois pisos, tinham suportes de madeira, paredes rebocadas com barro e chão de terra batida. Por alguma razão, as pessoas gostavam de fazer modelos de barro de residências com múltiplos pisos, exemplos dos quais estão em exposição.

     Algumas cidades do povo cucuteni, uma cultura posterior e aparentemente robusta no norte da Velha Europa, cresceram ao longo de mais de 320 hectares, o que os arqueólogos consideram maior do que qualquer assentamento humano da época. Mas as escavações ainda precisam encontrar evidências definitivas de palácios, templos ou grandes edifícios cívicos. Os arqueólogos concluíram que os rituais religiosos pareciam ser praticados nos lares, onde artefatos de culto foram encontrados.

    A cerâmica caseira decorada em estilos diversos e complexos sugere a prática de refeições ritualísticas nas residências. Travessas enormes em prateleiras eram típicas da "apresentação socializante do alimento" da cultura, Chi disse.

      À primeira vista, a falta de uma arquitetura de elite levou os acadêmicos a presumir que a Velha Europa possuía pouca ou nenhuma estrutura hierárquica de poder. Isso foi descartado pelos túmulos do cemitério de Varna. Nas duas décadas seguintes a 1972, os arqueólogos encontraram 310 túmulos datados de aproximadamente 4500 a.C.. Anthony disse que isso foi "a melhor prova da existência de uma posição social e política superior claramente distinta".

      Vladimir Slavchev, curador do Museu Regional de História de Varna, disse que "a riqueza e variedade dos presentes nos túmulos de Varna foi uma surpresa", mesmo para o arqueólogo búlgaro Ivan Ivanov, que liderou as descobertas. "Varna é o cemitério mais antigo já encontrado em que humanos foram enterrados com ornamentos de ouro", Slavchev disse.

    Mais de três mil peças de ouro foram encontradas em 62 túmulos, junto de armas e instrumentos de cobre, ornamentos, colares e pulseiras das apreciadas conchas do Egeu. "A concentração de objetos de prestígio importados em uma distinta minoria de túmulos sugere que posições superiores institucionalizadas existiam", observam os curadores da exposição em um painel que acompanha o ouro de Varna.

     Contudo, é intrigante que a elite não parecesse usufruir de uma vida privada de excessos. "As pessoas que quando vivas vestiam trajes de ouro para eventos públicos", Anthony escreveu, "voltavam para casas bastante comuns".

   O cobre, não o ouro, pode ter sido a principal fonte do sucesso econômico da Velha Europa, afirma Anthony. Como a fundição do cobre foi desenvolvida por volta de 5400 a.C., as culturas da Velha Europa exploraram os minérios da Bulgária e do que hoje é a Sérvia e aprenderam a técnica de alto aquecimento para extrair cobre metálico puro.
O cobre fundido, usado em machados, lâminas de faca e em pulseiras, se tornou uma exportação valiosa. As peças de cobre da Velha Europa foram encontradas em túmulos ao longo do Rio Volga, 1,9 mil km a leste da Bulgária. Os arqueólogos recuperaram mais de cinco toneladas de peças de locais da Velha Europa.

      Uma galeria inteira é dedicada às estatuetas, as mais familiares e provocantes peças dos tesouros da cultura. Elas foram encontradas em praticamente toda cultura da Velha Europa em vários contextos: em túmulos, santuários e outros prováveis "espaços religiosos".

     Uma das mais conhecidas é a figura em argila de um homem sentado, com os ombros curvados e as mãos no rosto em aparente contemplação. Chamada de "Pensador", essa peça e outra figura feminina comparável foram encontradas em um cemitério da cultura hamangia, na Romênia. Será que eles estavam pensativos ou de luto?

   Muitas das figuras representam mulheres em uma abstração estilizada, com corpos truncados ou alongados, de seios fartos e quadris largos. A sexualidade explícita dessas figuras convida interpretações relacionadas à fertilidade terrena e humana.

      Um grupo notável de 21 figuras femininas, sentadas em um círculo, foi encontrado no local de um vilarejo anterior aos cucutenis no nordeste da Romênia. "Não é difícil imaginar", disse Douglass W. Bailey da Universidade Estadual de São Francisco, o povo da Velha Europa "arrumando as figuras sentadas em um ou vários grupos de atividades em miniatura, talvez com figuras menores aos seus pés ou até mesmo no colo das figuras sentadas maiores".

     Outros imaginam as figuras como o "Conselho das Deusas". Em seus influentes livros de três décadas atrás, Marija Gimbutas, antropóloga da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ofereceu a hipótese de que essa e outras das chamadas figuras de Vênus eram representantes de divindades em cultos a uma Deusa Mãe que predominavam na Europa pré-histórica.

     Embora a teoria de Gimbutas ainda tenha seguidores ardorosos, muitos acadêmicos se conformam com explicações mais conservadoras e não-divinas. O poder dos objetos, afirma Bailey, não estava em qualquer referência específica ao divino, mas em "um entendimento compartilhado de identidade de grupo".

     Como Bailey escreveu no catálogo da exposição, as figuras talvez devessem ser definidas apenas em termos de sua aparência real: retratos representativos em miniatura da forma humana. Assim, "presumo (como é justificado por nosso conhecimento da evolução humana) que a habilidade de fazer, usar e entender objetos simbólicos como tais estatuetas é uma habilidade compartilhada por todos os humanos modernos e, portanto, uma capacidade que conecta você, eu, o homem, a mulher e a criança do Neolítico e os pintores paleolíticos das cavernas".

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Caso Richard Wagner


Odin e Thor ante o rei dos anões Hreidmar.

          O que significa, pergunta-se Wagner, que uma arte, como a música, tenha surgido com esse poder incomparável na vida do homem moderno? Não há necessidade tampouco de desprezar essa vida moderna ao ver que nela subsiste uma problema; pelo contrário, quando avaliarmos as forças poderosas que governam essa vida e quando evocarmos a imagem do indivíduo violentamente ávido de se elevar e que luta para adquirir a liberdade consciente e a independência do pensamento, é particularmente então que a aparição da música neste mundo parece um enigma. Como não dizer que em semelhante época a música não deveria ter surgido? Mas como então explicar sua existência? É um acaso? Certamente o aparecimento de um grande artista poderia ser furto do acaso, mas uma sequência de artistas como a história da música moderna apresenta, fenômeno que só se repetiu analogamente uma vez, na época dos gregos, induz a pensar que aqui não é o caso que reina, mas uma necessidade. Essa necessidade, aí está justamente o problema ao qual Wagner dá uma pergunta.

          Foi o primeiro que descobriu um mal difundido em todos os povos, em toda a extensão dos países civilizados; em toda parte a língua está afetada por uma doença e essa horrível doença pesa sobre toda a evolução da humanidade. A fim de captar o que mais se opõe ao sentimento, ou seja, o pensamento, a língua teve de galgar os degraus mais elevados que possam ser acessíveis e se afastar sempre mais da poderosa emoção que na origem era capaz de expressar sem esforço; esgotou-se nesse esforço desmedido, no curso do breve período da civilização moderna. Isso de tal forma que não pode mais preencher o papel pelo qual foi criada e que consiste em permitir aos homens sofredores se entenderem a respeito das necessidades mais elementares da vida.

      O homem em sua penúria não consegue mais se fazer compreender nem em se comunicar verdadeiramente com o outro por meio da língua; nesse estado em que tem obscuramente consciência, a língua; nesse estado em que tem obscuramente consciência, a língua se tornou um poder autônomo que aperta os homens com seus braços de fantasma e os impele para onde não querem ir. A partir do momento em que procuram se entender e se unir para uma obra comum, a loucura dos conceitos gerais ou mesmo das puras sonoridades verbais se apodera deles e, nessa impossibilidade em que estão para se exprimir, as criações coletivas de seu espírito levam por sua vez o sinal do desentendimento íntimo, na medida em que não correspondem mais a necessidades reais, mas somente ao nada dessas palavras e desses conceitos tirânicos; é assim que a humanidade acrescenta a seus outros males a submissão à convenção, ou seja, a um acordo entre as palavras e os atos que não correpondem a um acordo de sentimento. Do mesmo modo que as artes em seu declínio chegam a um ponto em que a proliferação mórbida dos meios e das formas adquira uma prepoderância tirânica sobre a alma dos jovens artistas e os reduz à servidão, assim também, no declínio das línguas, nos tornamos escravos das palavras; sob essa coação, ninguém ousa mais se mostrar tal como é nem se exprimir ingenuamente e muito poucos chegam a salvaguardar sua personalidade na luta contra uma cultura que julga afirmar seu sucesso não se colocando serviço de necessidades claramente sentidas, mas envolvendo o indivíduo na rede das “idéias claras e distintas” e ensinando-lhe a pensar corretamente; como se não houvesse um interesse qualquer para tornar o homem apto a pensar e a raciocinar corretamente, se não conseguiu primeiramente lhe ensinar a sentir corretamente!

        Quando, em seguida, numa humanidade assim alterada, chega tinindo a música de nossos mestre alemães, o que é que percebemos? Precisamente esse sentimento justo, inimigo de toda convenção, de toda barreira artificial, de toda desinteligência entre os homens. Essa música é retorno à natureza, pois, é na alma dos homens amantes que surgiu a necessidade imperiosa desse retorno e o que vibra em sua arte é a natureza mudada em amor. Pode-se admitir que essa e´uma das respostas que Wagner dá ao problema da significação da música em nosso tempo; mas tem uma segunda. A relação entre a música e a vida não é somente a de uma linguagem com outra espécie de linguagem, é também a relação do mundo sonoro inteiro com o mundo visual inteiro. Mas enquanto fenômeno visual e comparada com as manifestações anteriores da vida, a existência do homem moderno é de uma pobreza, de uma miséria extrema apesar de sua inenarrável confusão de cores que só pode satisfazer o olhar mais superficial.


Wilhelm Richard Wagner (1813-1883).

          Que nos demos ao trabalho de olhar um pouco mais de perto e analisar a impressão produzida por esse jogo de cores violentamente agitado. Não é semelhante ao cintilar e ao reflexo de inumeráveis pequenas pedras e fragmentos de pedras tomadas das civilizações passadas? Que vemos nisso além de luxo inconveniente, animação de comando, aparência afetada? Um traje feito de ouropéis multicoloridos para vestir aqueles que estão nus e tremendo? Uma dança falsamente alegre imposta aos que sofrem? Gestos de orgulhosa fatuidade exigidos de feridos graves?

     

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Ludismo: a Rebelião contra as máquinas


O medo do homem à máquina 

            O assalto às lavouras experimentais de transgênicos que se processam no Brasil de hoje e os protestos dos ambientalistas à engenharia genética em outras partes da mundo, particularmente na Europa, nos faz lembrar dos luditas, um movimento popular que surgiu na Grã-Bretanha entre 1811-1818, dedicado à destruição das máquinas e protestos contra a tecnologia.

Ludd ataca

"Sua obra de destruição não se atém a método nenhum/ O fogo e a água serve-lhe para destruir/ pois os elementos ajudam no seu designo.../ ele destruirá tudo de dia ou à noite/ e nada poderá escapar da sua sentença."

General Ludd's Triumph, 1812

            Certa vez, no ano de 1812, há quase dois séculos atrás, Mr. Smith, um dono de uma tecelagem no distrito de Huddersfild, no leste da Inglaterra, recebeu uma estranha carta assinada por um tal de "general Ludd". Continha pesadas ameaças. A sua fábrica em breve seria invadida e as máquinas destruídas caso ele não se desfizesse delas. Um incêndio devoraria o edifício e até a sua casa, se ele tentasse reagir. O nome Ludd era conhecido nos meios fabris desde que um maluco chamado Ned Ludd, uns trinta anos antes, em 1779, invadira uma oficina para desengonçar as máquinas a marteladas. A missiva não era brincadeira.
           
A chegada das máquinas
           
            Uns meses antes, nos finais de 1811, uma onda de assaltos aos estabelecimentos mecânicos espalhara-se pela região de Nottingamshire, uma antiga área ligada à criação de ovelhas e que desde o século 17 vira crescer por lá, espalhadas, pequenas empresas de fiação e tecelagem. A revolução industrial, com a rápida disseminação da máquina a vapor, como era de esperar, provocou ali uma radical mutação socio-econômica. Por todo lado novos teares e máquinas tricotadeiras embaladas pela nova tecnologia da energia à vapor, substituíram os antigos procedimentos das rocas de fiar. As reações não demoraram.

A Carta do General Ludd

"Possuímos informações de que você é um dos proprietários que têm um desses detestáveis teares mecânicos e meus homens me encarregaram de escrever-lhe, fazendo um advertência para que você se desfaça deles... atente para que se eles não forem despachados até o final da próxima semana enviarei um dos meus lugar-tenentes com uns 300 homens para destruí-los, e, além disso, tome nota de que se você nos causar problemas, aumentaremos o seu infortúnio queimando o seu edifício, reduzindo-o a cinzas; se você tiver o atrevimento de disparar contra os meus homens, eles têm ordem de assassiná-lo e de queimar a sua casa. Assim você terá a bondade de informar aos seus vizinhos de que esperem o mesmo destino se os seus tricotadores não sejam rapidamente desativados.."

Ass.: General Ludd, março de 1812


Outras Destruições
    
             Atacar e destruir máquinas é uma atividade bem mais antiga do que se supõe. Bem antes do desencadeamento do Movimento Ludita registraram-se, no princípio do século XVIII, ações depedradoras na periferia de Londres contra uma serra movida a água, como também contra uma tosquiadeira automática, inventada por um tal de Everet em 1758. O próprio Marx assinala (no cap. XIII, 5, d'O Capital) as rebeliões ocorridas em certas partes da Europa provocadas pela introdução de moinho de fazer fitas e galões. O que levava aquele gente humilde, geralmente cordata, a cometer tais atos desesperados? Medo e insegurança. Assustavam-se com a possibilidade das máquinas estreitarem ou suprimirem com o trabalho deles, além do receito sobrenatural ao novo tão comum entre as gentes.

O Movimento Ludita

"E noite trás noite, quando tudo está tranqüilo/ e a lua se esconde por detrás da colina/ Nós marchamos para executar a nossa vontade/ Com acha, lança ou fuzil/ Oh meus valentes cortadores/ Os que com um só forte golpe/ rompem com as máquinas cortadeiras/O grande Enoch dirigirá a nossa vanguarda/ Quem se atreverá a detê-lo?/ Adiante sempre todos homens valentes/ Com acha, lança e fuzil/ Oh meus valentes cortadores..."


- Canção ludita –
As modernas tecelagens, alvo dos luditas
           
            Os Luditas, porém, foram mais além dos quebra-quebras. Se bem que no seu princípio houve incursões antimáquinas espontâneas, tal como se deu em março de 1811, em Arnold, um lugarejo de Nottingham, onde um bando devastou 60 teares sob o aplauso de um multidão de desempregados, em Yorkshire, Leicestershire e em Derbyshire, regiões vizinhas, não se tratava mais de explosões irracionais, esparsas e desordenadas. Nos momentos seguintes, nunca tendo um líder só, foram pequenos grupos organizados e disciplinados, atuando segundo um plano, quem entraram em atividade. Estima-se que o seu número oscilou de três a oito mil integrantes, dependendo do distrito.

Os Esquadrões Luditas
            
            Liderados pelos assim apontados "homens de maus desígnios", usando máscaras ou escurecendo o rosto, os esquadrões luditas, armados com martelos, achas, lanças e pistolas, aproveitando-se para deslocarem-se à noite, vagavam de um distrito ao outro demolindo tudo o que encontravam, apavorando os donos das fábricas. O comandante da operação chamava-se de "General Ludd", com poder de vida e morte sobre os companheiros Em Nottingham revelou-se um tipo enorme, Enoch Taylor, um ferreiro que levava ao ombro uma poderosa maça de ferro batizada com o seu nome mesmo: Enoch. Bastava uma martelada daquelas para que a porta do estabelecimento viesse abaixo, enquanto que mais uma outra aplicada num engenho qualquer reduzia-o a um monte de ferro inútil.

Um Quadro Insurrecional
            
           
            O pano de fundo em que o ludismo emergiu formou-se pelas dificuldades sofridas pelas exportações britânicas, decorrentes do bloqueio continental imposto em 1806 por Napoleão Bonaparte, e, em seguida, pelos problemas enfrentados com a obtenção do algodão para a as tecelagens, visto que em 1812 os ingleses estavam em guerra contra os Estados Unidos (o seu principal fornecedor). Naquele mesmo ano, no dia 11 de maio, algo raro na história política inglesa ocorreu: o assassinato do seu primeiro ministro Perceval, em plena Câmara dos Comuns, vítima de um malucão. O clima, pois, era de generalizada revolta em larga parte da Inglaterra, sendo que E.P. Thompson - um dos maiores historiadores da classe operária britânica - acredita que o movimento extrapolou seu objetivos originais, como assegurou um testemunho da época, ambicionando "derrubar o sistema de governo pondo em revolução o país inteiro". Esta foi a razão do Parlamento ter aprovado em Londres em 1812, apesar da eloqüente oposição de Lord Byron, a Frame Braking Act, que estabeleceu a pena de morte para quem destruísse as máquinas.
  
O Massacre de Peterloo

            Uns sete anos depois dos amotinamentos luditas, por volta de 1818-9, as coisas voltaram a se acalmar. A insurgência sofreria um rude golpe com a mobilização do exército e dos corpos auxiliares e com os enforcamentos coletivos que as autoridades submeteram os insurretos, como deu-se em York onde um dos líderes, George Mellor, subiu ao patíbulo com 13 companheiros. Repressão que atingiu sua culminância nos Massacres de Perterloo (uma paródia jocosa de Waterloo, porque deu-se no comando-geral do generalíssimo Duque de Wellington, o vencedor de Napoleão), quando 15 manifestantes foram mortos pelas tropas nas redondezas de Manchester. No dia 16 de agosto de 1819, no parque de Saint-Peter, uma multidão de umas 50 mil pessoas, reunidas num protesto, foi exposta a uma brutal carga de cavalaria que chocou a Grã-Bretanha inteira.
  
Marxismo e Ludismo       
            
            A literatura marxista a respeito do ludismo (E.P.Taylor, E.Hobsbawn, e o próprio Marx) procurou retirar a pecha de analfabetos ignorantes que o restante da população inglesa havia lançado sobre os inimigos das máquinas (tornando desde então o termo ludita algo pejorativo). Entenderam-no, o movimento, como um proto-sindicalismo, uma reação desculpável e natural contra algo que provocava o desemprego e o rebaixamento salarial. Além, claro, de ser uma contestação ao capitalismo, ainda que no quadro da grande transformação operada na transição do trabalho manual para o trabalho automatizado. Mesmo assim, não conseguiram evitar as óbvias associações do ludismo com o obscurantismo medieval, tão comuns a certos setores das classes populares. Marx, socorrendo-se de um tal de Andrew Ure (The Philosophy of the Manufactures, 1835), um teórico, defendeu a tese de que graças às ameaças dos trabalhadores é que os capitalistas, para reduzirem as pressões e as rebeldias, aceleravam as implementações tecnológicas, concluindo que a máquina era estruturalmente uma "potência hostil ao trabalhador" (O Capital, vol. I, cap. XIII, 5).

Estranheza ao Mundo da Técnica

            Ocorre que, como é sabido, toda a inovação tecnológica realmente profunda excita inevitáveis efeitos fóbicos de toda a ordem. Ainda que tendente à razão, o homem é um animal conservador, rotineiro e assustadiço. Na história, até bem pouco tempo, eram minorias insignificantes que viviam em cidades, e um número reduzidíssimo de pessoas é ligado diretamente às coisas da técnica e da mecânica. Grande parte da humanidade, como ainda hoje no Terceiro Mundo, vive perto ou à beira dos matos, sofrendo-lhe a inevitável influência psicológica.

Opiniões Controversas
            
            Lord Byron, o poeta, viu no ludismo a transgressão das normas. Algo assim como uma espécie de reforma religiosa - um luteranismo aplicado às fábricas. William Blake, outro poeta, entendeu-os como os instrumentos de uma revolta sagrada contra os dark Satanic Mills, os tenebrosos moinhos satânicos (o clima geral dentro das fábricas daquela época), nos quais as mulheres e crianças inglesas eram obrigadas a trabalhar em condições deprimentes. A romancista Charlote Brontë, no seu livro Shirley, de 1849, entretanto, não devotou-lhes simpatia. Além de assegurar a um master (um patrão), de nome Cartwright (nome de um inventor) o papel de herói resistente, frente a uma assalto de uma turba armada, disse que os chefes luditas "não vinham das classes operosas", vendo-os como gente "fracassada, decaída, um bando de endividados e desocupados, muitos deles entregues à bebida". Mas o pavor às máquinas não partiu só de gente iletrada.
  
A máquina como desumanização
           
            O filósofo Martin Heidegger, o mais significativo pensador alemão deste século, oriundo da Floresta Negra, irmanou-se a eles na sua tecnofobia, denunciando a mecanização como vil, interesseira, inclinada ao lucro e, pior, desumanizante. Aliou-se aos nazistas em 1933 na expectativa de que Hitler cumprisse o programa Blut und Boden, o do sangue e solo, um reacionário projeto de ruralização de desmecanização da Alemanha (nos quadros de Baumgartner, Wisser e Janesh, Junghanns, pintores nazistas, o campo aparece sem uma máquina sequer, toda a lavoura é orgânica). O pensador via a tecnologia como pertinente ao mundo moderno, levando-o à devastação da natureza, à massificação sufocadora da criatividade, à estandardização do comportamento e da cultura, à banalização da existência, provocando-lhe por fim uma doença quase que incurável.

Neoluditismo 
           
            Logo não é de se estranhar a ocorrência de periódicos assaltos em vários cantos do mundo contra laboratórios que fazem experiências biogenéticas, nem às lavouras transgênicas. Da mesma forma que os luditas ingleses atacaram nos começos do século XIX as máquinas, a tecnologia e o capitalismo laissez-faire então nascente, hoje, na transição do milênio, é um neoluditismo globalizado quem encabeça a vanguarda das ações antiliberais e anticientíficas.

Em "A revolução que vem", Ted Kaczynski esboçou o que ele via como os novos "Luddists" novos valores que irão libertá-los do jugo do actual sistema technoindustrial ":

    Rejeição de toda a tecnologia moderna - "Este é logicamente necessário, porque a tecnologia moderna é um todo em que todas as partes estão interligadas, você não pode se livrar das partes ruins, sem dar igualmente até aquelas partes que parecem boas."
  
     Rejeição do materialismo e sua substituição por uma concepção de vida que valoriza a moderação e auto-suficiência enquanto depreciativo a aquisição de bens ou de status.

    Amor e reverência para com a natureza, ou até mesmo a adoração da natureza.

    Exaltação da liberdade.

    Punição dos responsáveis pela atual situação. "Os cientistas, engenheiros, executivos de corporações, políticos, e assim por diante ..."

            Em 1990, Chellis Glendinning publicou suas "Notas em direção a um manifesto neo-ludita" no Utne Leitor , recuperando o termo ludita '. De acordo com Glendinning, neoluditas são "cidadãos do século 20 - ativistas, trabalhadores, vizinhos, críticos sociais e acadêmicos - que questionam a visão de mundo moderna predominante, que prega que a tecnologia desenfreada representa progresso ". Glendinning propõe destruir as seguintes tecnologias : tecnologias eletromagnéticas (isso inclui comunicações, computadores, eletrodomésticos e refrigeração), tecnologias químicas (isso inclui materiais sintéticos e medicina), tecnologias nucleares (isso inclui armas e energia, bem como o tratamento do câncer, esterilização e detecção de fumaça), engenharia genética (isso inclui as culturas, bem como a produção de insulina). Ela argumenta em favor da "busca de novas formas tecnológicas" que são locais em escala e promover a liberdade social e política. Glendinning então propõe os seguintes princípios para Neo-ludismo:

sábado, 16 de agosto de 2014

Palestina: a Terra, o seu Povo e a sua História, Parte II.


Agar e Ismael.

“Entretanto, também compreendi o teu pedido a respeito de Ismael; e Eu o abençoarei e lhe darei muitos filhos e uma multidão de descendentes. Ele será pai de doze príncipes, e Eu farei que os descendentes dele sejam uma grande nação.”

(Gênesis 17:20)

“São estes os nomes dos filhos de Ismael, alistados por ordem de nascimen­to: Nebaiote, o filho mais velho de Ismael, Quedar, Adbeel, Mibsão, Misma, Dumá, Massá, Hadade, Te­má, Jetur, Nafis e Quedemá. Foram esses os doze filhos de Ismael, que se tornaram os líderes de suas tribos; ­os seus povoados e acampamen­tos receberam os seus nomes.”
(Gênesis 25:13-16)

“ (...) mas do filho da serva farei também uma grande nação, porquanto ele também é da tua raça!”
(Gênesis 21:13)

            Como prometido estou dando continuidade ao estudo sobre as origens dos povos que habitaram e habitam a palestina. Está postagem como a anterior tem por objetivo esclarecer as dúvidas diante dos conflitos atuais entre o Exército Israelense e o Hamas (que não representa os interesses do povo Palestino). Espero que possa contribuir para um melhor entendimento das origens e questões que envolvem a região à milênios. Caso você ainda não tenha lido, aconselho que leia antes a primeira parte desta serie de postagens sobre a Palestina, a qual você encontra nesse link: Palestina: a Terra, o seu Povo e a sua História, Parte II.

            Em termos de geografia, demografia, sociedade, economia e vida cultural, Jerusalém tem sido o centro da Palestina e o grande ponto de encontro de importantes corredores leste-oeste, norte-sul. De fato, desde os tempos das civilizações mais primitivas na Palestina, Jerusalém tem sido a parte mais importante e inseparável da Palestina. Assim, quem quer que controle Jerusalém fica numa posição de dominação sobre toda a Palestina. Nela localiza-se a raiz da turbulenta e conflituosa história da cidade de Jerusalém.

            Por volta do século XVIII a.C.., Abraão veio de Ur, no sul da Mesopotâmia, para a terra de Canaã. Ele se estabeleceu nas cercanias do Vale do Jordão. Visto que nem o Velho nem o Novo Testamento não haviam sido revelados durante sua vida, Abraão não era nem judeu nem cristão, mas um crente na unicidade de Deus. Ele é descrito no Gênese como tendo adorado “o mais alto Deus”. O Corão menciona que ele era um ‘submisso a Deus’, no sentido de ter entregue-se a vontade do Deus único. Assim, cristãos, muçulmanos e judeus ainda rogam por ele em todas as suas preces, como acreditam que Deus lhes exortou a fazerem. Agar, a concubina de Abraão, lhe gerou seu filho Ismael, de quem os atuais muçulmanos traçam sua descendência; entrementes, a sua mulher Sara gerou-lhe o filho Isaac, do qual os atuais judeus traçam sua linhagem. Abraão se mudou para um lugar perto de Hebron (al-Khalil), onde viveu pregando o monoteísmo. Quando morreu, Ismael e Isaac sepultaram-no na mesma cova onde sua mulher Sara fora sepultada. Seu filho Isaac gerou Jacó (Israel), que viveu na região de Harran (Aram).

            Por volta de 1.300 a.C..,  os doze filhos de Jacó partiram para o Egito. Eles se integraram aos egípcios e José, o mais jovem dos filhos de Jacó, casou com a filha do sumo sacerdote. Originalmente um pequeno grupo de pessoas, eles se multiplicaram e ganharam força durante várias centenas de anos no Egito, tornando-se os israelitas. Foi no Egito que Moisés, ‘o fundador do judaísmo e o mais eminente legislador e também profeta para as três religiões reveladas, nasceu e estudou filosofia egípcia, tornando-se letrado em todas as ciências dos egípcios. Moisés, juntamente com seu povo (B’nei Israel) deixaram o Egito por volta do século XIII a.C.. Vagaram durante 40 anos  no Sinai, e durante esse tempo ele recebeu a lei divina judaica no monte Sinai (Tur).

            Após a morte de Moisés, Josué assumiu a liderança dos israelitas e os conduziu para o oeste pelo rio Jordão até Canaã. A primeira cidade Cananéia que Josué conquistou foi Jericó, destruindo-a juntamente com seus habitantes. Depois, ele assumiu o controle de Yashuu’ (Bayt Ele), Likhish, e Hebron, embora os filisteus tenham bloqueado o avanço do povo de Moisés rumo à costa, na área entre Gaza e Jafa, enquanto os cananeus impediram-nos de conquistar Jerusalém.

            Nos 150 anos seguintes, os israelitas, filisteus e cananeus controlaram alternadamente, porções da área da moderna Palestina, com os cananeus (Jabusitas) controlando Jerusalém. Mas nenhum grupo foi capaz de consolidar o controle sobre toda a área. Houve numerosas lutas entre esses grupos, sendo que cada um mantinha sua própria cultura e sua própria independência.

            Por volta de 1.000 a.C., o rei dos israelitas, Davi, pôde subjugar os pequenos estados de Edom, Moab e Amon. Durante sete anos ele fez de Hebron sua capital, mas, depois transferiu o centro do poder para Jerusalém pelos últimos 35 anos de seu reinado. Depois dele, o poder passou para seu filho Salomão, que é famoso por ter erguido o lugar de adoração conhecido como o Templo de Salomão. Para os judeus, esse templo tornou-se o centro da vida religiosa e o símbolo básico de sua unidade. Tornou-se ainda um ponto de peregrinação emocional para o povo judeu.

            Com a morte de Salomão, seu reino foi dividido em dois: o Reino de Israel, ao norte, composto por dez tribos, com Samaria (Sabastia) como sua capital, e Reino da Judéia, ao sul, composto por duas tribos, com Jerusalém como sua capital. Lutas crônicas entre os dois estados e batalhas colocando-os contra os cananeus e os filisteus, caracterizaram esse período volátil da história do Oriente Próximo.

            Por volta de 720 a.C.. os assírios, sob o rei Sargão, destruíram o reino israelita ao norte. Em 600 a.C.. os babilônios, sob o comando de Nabucodonozor, conquistaram o reino israelita sudeste, destruindo o Templo de Salomão em aproximadamente 586 a.C.., Ciro, rei dos persas, foi capaz de conquistar o império babilônio (Mesopotâmia), prosseguindo em suas conquistas até que ocupou a Síria e depois a Palestina, incluindo Jerusalém, permitiu que os escravos de Nabucodonozor retornassem à Palestina, e o Segundo Templo foi concluído em 515 a.C.

            Quando o império grego floresceu (eles ainda governaram Jerusalém durante sete anos) a Palestina caiu sob o domínio do Egito (322-200 a.C..) e depois por um certo período sob o governo dos selêucidas da Síria de 200- 142 a.C.. Neste ano, o rei Antióquio IV, tinha danificado o Templo de Salomão forçou os judeus a renunciarem ao judaísmo e a abraçarem o paganismo grego.

            Por volta de 63 a.C., depois que os romanos subjugaram os seldúcidas na Síria, o general romano Pompeu assumiu o controle sobre Jerusalém. Com a ajuda dos romanos, Herodes se tornou rei da Judéia no ano de 40 a.C. Seu reinado durou até a sua morte no ano 4 A.D. Durante esse tempo, o Templo de Salomão foi reconstruído em Jerusalém e houve a perseguição, o processo e crucificação de Jesus Cristo, depois do que, sobreveio a propagação da fé cristã.

            Na era de Tito, cerca de 70 A.D., os romanos infligiram aos judeus uma derrota devastadora. Tomaram Jerusalém e queimaram o templo judeu de uma vez por todas. Sob Adriano, várias décadas depois, os remanescentes finais da população judaica foram subjugados e expulsos da Palestina. Os romanos ergueram uma nova cidade sobre as ruínas de Jerusalém, a qual eles denominaram de Aelia Capitolina, com referência ao imperador Aelius Adrianus. Cerca de 395 A.D., Jerusalém tornou-se uma cidade bizantina e cristã. Mas emobora a Palestina e seus habitantes se tornassem uma parte do império bizantino política e religiosamente, a vida e a cultura dos cananeus locais permaneceram voltadas para Jerusalém.

            Após um breve período de controle pela Pérsia, no começo do século VII A.D. a Palestina e o resto da Síria saíram do jugo dos romanos e caíram na esfera do império árabe-islâmico. Jerusalém tornou-se a primeira direção das preces dos muçulmanos (qibla) –‘o primeiro dos dois qiblas’ – e a Palestina ‘os recintos que Deus abençoou’.

domingo, 10 de agosto de 2014

O Cérebro e a violência




            Qual é o determinante mais forte das nossas ações: a natureza genética ou a influência do ambiente? A questão era badalada nos anos 70, mas já há alguns anos a ciência deixou de se preocupar tanto com qual é o mais forte. Hoje se reconhece que ambos são importantes, e a pergunta da hora é outra: como e onde genética e ambiente se combinam para afetar nosso comportamento?

            O onde é certo: no cérebro. O como ainda é impreciso, embora boas hipóteses existam. Uma delas é apresentada em artigo publicado dia 2 de agosto na revista Science, que sugere como o comportamento violento, que tem um componente social sabidamente forte, também sofre importante influência da herança genética. A resposta está no produto de um gene que afeta a disponibilidade no cérebro de um neurotransmissor -- a serotonina.

            Manter o equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais é tarefa delicada, e as interferências são várias. Mesmo assim, geralmente o cérebro dá conta do recado sozinho. Ocasionalmente, no entanto, a balança cai desproporcionalmente para um dos lados, e os efeitos podem ser palpáveis. No caso da serotonina, a deficiência está ligada à depressão e falta de motivação. Já seu excesso leva a outro extremo: agressividade. O comportamento agressivo em humanos costuma andar de mãos dadas com um excesso de serotonina e da sua prima noradrenalina no cérebro. Além disso, camundongos em cujo genoma é deletado o gene que comanda a produção de uma enzima que decompõe excessos de serotonina ganham um 'superávit' permanente desse neurotransmissor em seu cérebro -- e os machos adultos ficam tão agressivos que brigam entre si, e chegam a ser difíceis de manipular por humanos.

            Como se chega a um excesso de serotonina? Uma maneira é a manipulação genética -- e não é preciso fazer com humanos o que cientistas fazem em laboratório com o genoma dos camundongos. A natureza se encarrega disso, criando variantes mais ou menos eficazes de enzimas que regulam a quantidade de serotonina disponível no cérebro, como a monoamina oxidase (MAOA) deletada artificialmente em camundongos. Uma variante especialmente ineficaz da MAOA foi encontrada em 1993 numa família holandesa, assolada por casos de agressividade impulsiva, incêndios criminosos, tentativas de estupro e exibicionismo. Todos os membros violentos da família eram completamente deficientes em MAOA -- o que leva a níveis elevadíssimos de serotonina no cérebro.

            Outra maneira de provocar um nível excessivo de serotonina no cérebro é por meio de maus-tratos na infância, como espancamento ou abuso sexual -- que são, aliás, grandes fatores de risco para o comportamento violento na idade adulta.

            A influência social, no entanto, não é tudo -- felizmente. Maus-tratos na infância são fator de risco, mas não sinônimo de violência futura: embora o índice de criminalidade adulta aumente em 50% entre crianças maltratadas, a maioria delas não se torna adultos delinqüentes ou criminosos. O que faz a diferença?

            A genética, segundo um estudo da equipe dos psicólogos clínicos Terrie Moffitt e Avshalom Caspi, do King's College London e da Universidade de Wisconsin. Os pesquisadores tiveram acesso a um estudo neozelandês que acompanha desde 1972 a saúde física e mental de mais de mil pessoas desde o nascimento. Para diminuir o número de variáveis, Moffitt e Caspi selecionaram 442 homens com os quatro avós caucasianos. Por um lado, estudaram sua tendência à violência, usando índices diferentes como sintomas de distúrbio anti-social e indiciamentos por crimes violentos. Por outro, analisaram tanto o registro de maus-tratos na infância quanto a variante da enzima MAOA produzida por cada voluntário.

            O resultado? Homens maltratados na infância tinham uma probabilidade dez vezes maior que os demais de cometerem crimes violentos desde que eles, além de terem sofrido maus-tratos severos, possuíssem uma forma pouco ativa da MAOA, que permite níveis elevados de serotonina no cérebro. No total, 85% desses homens severamente maltratados na infância e cuja MAOA é pouco ativa exibiram mais tarde comportamento violento. Dentre aqueles que possuíam a forma muito ativa, em comparação, maus-tratos na infância não aumentaram o risco de comportamento violento em adulto.

            O elo entre uma baixa atividade da MAOA -- e portanto um alto nível de serotonina -- e a predisposição à violência está provavelmente em estruturas do cérebro como a amígdala, que controlam o medo. Uma alteração permanente no equilíbrio da serotonina, causada pela conjunção entre maus-tratos e baixa MAOA, pode fazer com que a amígdala se torne permanentemente hiper-reativa a ameaças, reagindo desmesuradamente a um estímulo que de outra forma não evocaria uma reação violenta.

            Por fim, o simples fato de possuir a forma pouco ativa da MAOA não torna os homens violentos. A propensão à violência requer a conjunção no cérebro entre a genética -- a versão da MAOA que cada um possui -- e o ambiente -- no caso, na forma de maus-tratos na infância.

            Ah, sim. Há um terceiro fator nessa história. Não deve ser uma surpresa para o leitor descobrir, a esta altura, que o gene da MAOA fica no cromossomo X, presente em duas cópias nas mulheres, mas apenas uma nos homens. Como lembram os geneticistas, o mais forte marcador genético para a violência ainda é a presença de um cromossomo Y...

sábado, 9 de agosto de 2014

Erwin Rommel - Biography


Rommel studying maps during the battle at El Alamein

            Erwin Rommel was one of Germany’s most respected military leaders in World War Two. Rommel played a part in two very significant battles during the war – at El Alamein in North Africa and at D-Day. Rommel’s nickname was the ‘Desert Fox’ – a title given to him by the British.
  
            Rommel was born in 1891 in Heidenheim. During World War One, he distinguished himself in the German Third Army and he was decorated for his bravery and leadership. After the war, Rommel remained as an infantry officer and instructor. His chance for real military power came when Hitler, appointed chancellor in 1933, recognised his ability. By 1938, Rommel was a senior military figure in the Wehrmacht. His success in the campaigns of 1939 and especially the successful attack on Western Europe in 1940, lead to Hitler appointing him commander of the Afrika Corps in 1941. It was in the deserts of North Africa that Rommel found real success.

            The nickname ‘Desert Fox’ was well deserved. Rommel was highly respected even by the British. Auchinleck, Rommel’s opposite until his sacking by Churchill, sent a memo to his senior commanders in North Africa, to state that it was their responsibility to ensure that their men thought less of Rommel as a ‘super military leader’ and more of him as a normal German commander.

"…(you must) dispel by all possible means the idea that Rommel represents anything other than the ordinary German general……….PS, I’m not jealous of Rommel."
Auchinleck

            Rommel’s fame in the desert rests on his success as a leader and also his uncompromising belief that all prisoners of war should be well looked after and not abused. One story told at the time was that Italian troops took from British POWs’ their watches and other valuables. When Rommel found out, he ordered that they be returned to their owners immediately. To many British ‘Desert Rats’, Rommel epitomised a gentleman’s approach to a deadly issue – war.

            Rommel knew that his options at the vital battles at El Alamein were limited. Montgomery, who succeeded the dismissed Auchinleck, had the advantage of Bletchley Park feeding him the battle plan Rommel was going to use. Rommel was also seriously starved of the fuel he needed for his attack on Montgomery’s ‘Desert Rats’. The second battle at El Alamein was a very fluid battle but the sheer weight of supplies that Montgomery had access to (amongst other equipment were 300 new Sherman tanks) meant defeat for Rommel. The defeat of the Afrika Corps was the first major setback for Hitler and the Wehrmacht. Hitler ordered Rommel to fight to the last man and the last bullet. Rommel had far too much respect for his men to obey this command and retreated. The Germans left North Africa in May 1943. Despite this refusal to obey Hitler’s command, Rommel did not lose favour with Hitler.

            In February 1944, Rommel was appointed by Hitler to be commander of the defences of the Atlantic Wall. Rommel’s brief was to ensure that Western Europe was impregnable.

            He took full responsibility for the Northern French coastline. The beaches at Normandy were littered with his anti-tank traps which were invisible at full-tide. As it was, the planning at D-Day meant that Rommel’s defences were of little problem to the vast Allied attack. At the time of D-Day, Rommel commanded the important Army Group B.

            On July 17th 1944, Rommel was wounded in an attack on his car by Allied fighter planes. The attack took place near St. Lo.

            Rommel was implicated in the July 1944 Bomb Plot against Hitler and the Gestapo was keen to interview this famous military commander. Hitler was keen to avoid the public show trial of his most famous general and it seems that a 'deal’ was done. Rommel died ‘of his wounds’ on October 14th 1944. He was given a state funeral. But it seems that he committed suicide to a) save himself from a humiliating show trial and b) it seems that Hitler promised that his family would not be punished for Rommel’s indiscretions if he died ‘of his wounds’.

            What impact Rommel would have had on the Allies drive to Germany after D-Day is difficult to speculate. However, the sheer odds against the Wehrmacht and Luftwaffe post-June 1944 were such that this famous commander would have been unable to hinder the Allies progress.

"He was a daring and much-admired general, his personality and his fate creating an enduring legend denied to many orthodox, and ultimately more successful, commanders."
Alan Palmer

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Michel Foucault - Biography

Michel Foucault

            Michel Foucault was a French philosopher or more specifically a historian of systems of thought, a self-made title created when he was promoted to a new professorship at the prestigious Collège de France in 1970. Foucault is generally accepted as having been the most influential social theorist of the second half of the twentieth century. He was born on October 15, 1926, in Poitiers, France, and died in Paris in 1984 from an AIDS-related illness. As an openly homosexual man he was one of the first high-profile intellectuals to succumb to the illness, which was at the time still most unknown. However, it would appear that he knew he had AIDS and he reportedly was not afraid to die as he sometimes shared with his friends his thoughts of suicide. Yet, he continued working relentlessly until the end, spending the last eight months of his life working on the last two volumes of The History of Sexuality, which happened to come out just before he died in Paris at the hospital on June 26th 1984. He is buried at the Cimetière du Vendeuvre in Vienne, in the Rhone-Alpes Region, not far from Poitier the city where he was born.

            Foucault’s father was a surgeon, and encouraged the same career for his son. Foucault graduated from Saint-Stanislas school having studied philosophy with Louis Girard who would become a notorious professor. After that Foucault attended the Lycée Henri-IV in Paris, then in 1946, equipped with an impressive academic record he entered the École Normale Supérièure d’Ulm, which is the most prestigious French school for humanities studies. Fascinated by psychology he received the equivalent of a BA degree in Psychopathology in 1947. In 1948, working under the famous phenomenologist Maurice Merleau-Ponty, he received another BA type of degree in Philosophy. In 1950 he failed his his agrégation (French University high-level competitive examination for the recruitment of professors) in Philosophy, but succeeded in 1951. During the 1950s he worked in a psychiatric hospital, then from 1954-58 he taught French at the University of Uppsala in Sweden. He then spent a year at the University of Warsaw, and a year at the university of Hamburg.

            Through his impressive career Foucault became known for his many demonstrative arguments that power depends not on material relations or authority but instead primarily on discursive networks. This new perspective as applied to old questions such as madness, social discipline, body-image, truth, normative sexuality etc. were instrumental in designing the post-modern intellectual landscape we are still in nowadays. Today Michel Foucault is listed as the most cited intellectual worldwide in the humanities by The Times Higher Education Guide. This is not so, however if we consider the field of philosophy alone, and that in spite of it being the discipline Foucault was largely educated in, and which, it is safe to say he might have identified with the most. This is probably because Foucault’s definition of philosophy focuses on the critique of truth and does so by conceiving it as inextricable from a critique of history. This is because according to him, it makes philosophy a much richer discipline. Linking philosophy and history, however is considered by many as irreconcilable with the generally accepted definition of philosophy as being independent of it.

            In 1959 Foucault received his doctorat d'état under the supervision of Georges Canguilhem, the famous French philosopher. The paper he presented was published two years later with the name Folie et déraison: Histoire de la folie à l'âge classique (Madness and Unreason: History of Madness in the Classical Age, 1961). In this text, Foucault abolished the possibility of separating madness and reason into universally objective categories. He did so by studying how the division has been historically established, how the distinctions we make between madness and sanity are a result of the invention of madness in the Age of Reason. He does a reading of Descartes' First Meditation, and accuses him of being able to doubt everything except his own sanity, thus excluding madness from his famous hyperbolic doubt.

            In the 1960s Foucault was head of the philosophy departments at the University of Clermont-Ferrand. It was at this time that he met the philosophy student Daniel Defert, whose political activism would be a major influence on Foucault. When Defert went to fulfill his volunteer service requirement in Tunisia, Foucault followed, teaching in Tunisia from 1966-68. They returned to Paris during the time of the student revolts, an event that would have a profound effect on Foucault's work. He took the position of head of the Philosophy Department at the University of Paris-VII at Vincennes where he brought together some of the most promising thinkers in France at the time, which included Alain Badiou and Jacques Rancière. Both went on to become leading thinkers of their generation, and both have taught at EGS. It was also in 1968 that he formed, with others, the Prison Information Group, an organization that gave voice to the concerns of prisoners.

            In The History of Sexuality, Volume 2: The Use of Pleasure, one of his last far-reaching works he wrote: "[W]hat is philosophy today–philosophical activity, I mean–if it is not the critical work that thought brings to bear on itself?". Foucault is here practicing the very kind of critical questioning he is hinting at. It is a sort of reflective movement of thought that challenges the all-too-often uncritical tendencies of philosophical thinking, especially when it fails to see that it is itself part of what needs to be critiqued. In this light, Foucault is not simply stating something to be accepted or refuted, for that too would lead to complacent thinking. On the contrary, in his very use of language here and elsewhere there is a clear opening for something other, perhaps even unknown, which is made possible in part through a challenging use of the questioning mode.
            Foucault’s project, then, should not be confused with traditional history and needs to be wrestled with. He helpfully continues: "In what does it [philosophy] consist, if not in the endeavor to know how and to what extent it might be possible to think differently, instead of legitimating what is already known?" Significantly, he is questioning the very discourse of philosophy as an established tradition whose tendency towards rigidity needs to be interrogated. Foucault’s re-defining of "philosophical activity" characterizes what philosophy needs to be today if it is to do more than simply perpetuate the status quo. There is thus in a very real sense a political and ethical level to Foucault’s work. This is to varying degrees evident in all of his corpus, hence the appeal many critical thinkers still find in his research today.

            Foucault always endeavors to write what he calls a "history of the present" and in spite of the apparent contradiction it is a critical move that has political reach. Because what matters today has roots in the past, a history of the present is a productive space for critical thinking. In Foucault’s own words: "The game is to try to detect those things which have not yet been talked about, those things that, at the present time, introduce, show, give some more or less vague indications of the fragility of our system of thought, in our way of reflecting, in our practices." Early on he refers to such history in terms of archeology and later as his research become more directly political, as genealogy, taking his cue from Friedrich Nietzsche.

            His numerous archaeological, or epistemological studies recognize the changing frameworks of production of knowledge through the history of such practices as science, philosophy, art and literature. In his later genealogical practice, he argues that institutional power, intrinsically linked with knowledge, forms individual human "subjects", and subjects them to disciplinary norms and standards. These norms are produced historically, there is no timeless truth behind them. For him truth is something that is historically produced. Foucault examines the "abnormal" human subject as an object-of-knowledge of the discourses of human and empirical science such as psychiatry, medicine, and penalization.

            Foucault published The Order of Things in 1966, which immediately became a bestseller in France, perhaps surprisingly given the level of complexity of the book (arguably his most difficult to read). It is an archeological study of the development of biology, economics and linguistics through the 18th and 19th centuries. It is in this book that he makes his famous prediction at the end that "man", a subject formed by discourse as a result of the arrangement of knowledge over the last two centuries, will soon be "erased, like a face drawn in sand at the edge of the sea." Less poetically and in the same book: "As the archeology of our thought easily shows, man is an invention of a recent date. And one perhaps nearing its end."

            Foucault's book Archaeology of Knowledge was published in 1969. As with The Order of Things, this text uses an approach to the history of knowledge inspired by Friedrich Nietzsche's work, although not yet using Friedrich Nietzsche terminology of "geneaology", and this is a rare major work for Foucault that does not include a historical study per se. Because what Foucault is really after in this book is the question of archeology as a method of historical analysis. This attitude to history is based on the idea that the historian is only interested in what has implications for present events, so history is always written from the perspective of the present, and fulfills a need of the present. Thus, Foucault's work can be traced to events in his present day. The Order of Things would have been inspired by the rise of structuralism in the 1960s, for example, and the prison uprisings in the early 1970s would have inspired Discipline and Punish: The Birth of the Prison (1975). Discourses are governed by such historical positioning, which have their own logic, which Foucault refers to as an "archive". Archeology, Foucault explains, is the very excavation of such archive.

            In 1975 with the publication of Discipline and Punish: The Birth of the Prison, his work begins to focus more explicitly on power. He rejects the Enlightenment's philosophical and juridical interpretation of power as conceptualized particularly in relation to representative government, and he introduces instead the notion of power as "discipline" and takes the penal system as the context of his analysis, only to generalize it further to society at large. He shows this kind of discipline is a specific historical form of power that was taken up by the state from the army in the 17th century, which spread widely across society through institutions. Here he begins to examine the relationship of power to knowledge and to the body, which would become a pivotal Foucaultian move in his future research. He argues that these institutions, including the army, the factory and the school, all discipline the bodies of their subjects through surveilling, knowledge-gathering techniques, both real and perceived. Indeed, the goal of such exercise of power is to produce "docile bodies" that can be monitored, and which lead to the psychological control of individuals. Foucault goes as far as arguing that such power produces individuals as such. In maping the emergence of a disciplinary society and its new articulation of power, he uses the model of Jeremy Bentham's Panopticon to illustrate the structure of power through an architecture designed for surveillance. The design of Bentham's prison allows for the invisible surveillance of a large number of prisoners by a small number of guards, eventually resulting in the embodiment of surveillance by the prisoners, making the actual guards obsolete. The prison is a tool of knowledge for the institutional formation of subjects, thus power and knowledge are inextricably linked. The rather controversial conclusion of the book is that the prison system is actually an institution whose purpose is to produce criminality and recidivism.

            During the 1970s and 1980s Foucault's reputation grew and he lectured all over the world. In 1971 he was invited to debate Noam Chomsky in on Dutch television for The International Philosophers Project. It gave rise to a fascinating debate, which has been published several times since then. Chomsky argued for the concept of human nature as a political guide for activism while Foucault argued that any notions of human nature cannot escape power and must thus first be analyzed as such.

            During the later years of his professorship at the Collège de France he started writing The History of Sexuality, a major project he would never finish because of his untimely death. The first volume of the work was published in 1976 in French and the English version would follow two years later, entitled The History of Sexuality Volume I: An Introduction. However, the French title was much more indicative of what Foucault was after: "Histoire de la sexualité, tome 1 : La Volonté de savoir", which translates as The History of Sexuality Volume I: The Will to Knowledge (a newer edition is simply named The Will to Knowledge). It is an amazingly prominent work, maybe even his most influential. The main thesis of the work is to be found in part two of the book called "The Repressive Hypothesis" where Foucault articulately explains that in spite of the generally accepted belief that we have been sexually repressed, the notion of sexual repression cannot be separated from the concomitant imperative for us to talk about sex more than ever before. Indeed, according to Foucault it follows in the name of liberating so-called innate tendencies, certain behaviors are actually produced. With the contention that modern power operates to produce the very behaviors it targets, Foucault attacks here again the notion of power as repression of something that is already in place. Such new notion of power has been and continues to be incredibly influential in various fields.

            His last two books, the second and third volumes of the history of sexuality research, entitled The Uses of Pleasure and The Care of the Self respectively, both relate the Western subject's understanding of ourselves as sexual beings to our moral and ethical lives. He traces the history of the construction of subjectivity through the analyses of ancient texts. In The Uses of Pleasure he looks at pleasure in the Greek social system as a play of power in social relations; pleasure is derived from the social position realized through sexuality. Later, in Christianity, pleasure was to become linked with illicit conduct and transgression. In The Care of the Self, Foucault looks at the Greeks' systems of rules that were applied to sexual and other forms of social conduct. He analyses how the rules of self-control allow access to pleasure and to truth. In this structure of a subject's life dominated by the care for the self, excess becomes the danger, rather than the Christian deviance.

            What Foucault made from delving into these ancient texts, is the notion of an ethics to do with one’s relation to one’s self. Indeed the constitution of the self is the overarching question for Foucault at the end of his life. Yet the point for him was not to present a new ethics. Rather, it was the possibility for new analyses that focused on subjectivity itself. Foucault became very interested in the way subjectivity is constructed and especially how subjects produce themselves vis-à-vis truth.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.