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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O Genocídio Armênio, Parte I.


Armênios deportados em marcha.

O Genocídio Armênio, 1915-1923.

Em 1913 os Jovens Turcos ficam irritados com o fato de as grandes potências novamente se ocuparem da reforma e da Questão Armênia, ainda mais por esta estar sendo tratada de acordo com os interesses dos armênios, em consequência do entendimento entre Alemanha e Rússia. “Se vocês armênios não esquecerem estas reformas, algo acontecerá que fará os massacres de Abdul Hamid parecerem brincadeira de criança”.

Em novembro de 1914 o Império otomano entrou na I Guerra Mundial ao lado dos Poderes centrais (Tríplice Aliança). O ministro de guerra Enver Pasha desenvolveu um plano para cercar e destruir o exército russo do Cáucaso e Sarıkamış, para recuperar territórios perdidos para a Rússia após a guerra Turco-Russa de 1877-1878. As forças de Enver Pasha foram encaminhadas para a Batalha de Sarikamish e quase completamente destruídas. Retornando à Constantinopla, Enver culpou publicamente sua derrota devido aos armênios que viviam na região ao lado dos russos.


Jovem armênia morta no deserto de Alepo. 

O início do plano do genocídio começou com o desarmamento da população armênia. A dificuldade de se chegar a informações precisas do que estava acontecendo em terras vizinhas favoreceu um cenário em que o governo mentia um acordo com o governo armênio, e que as armas deveriam ser entregues nas igrejas para que fossem recolhidas. Algumas pessoas influentes faziam esse pedido ao povo, sobre o pretexto de que a Turquia entraria em paz com a Armênia se seus habitantes se desarmassem. Logo em seguida começou a completa censura aos serviços postais estrangeiros, estava cessada a comunicação no campo de batalha e na Turquia todas as cartas enviadas deveriam passar pela aprovação de um órgão do governo. No início a única forma de comunicar ao resto do mundo o que acontecia na Ásia Menor era por meio dos cônsules de outros países instalados na Turquia e Armênia, o que poucos anos depois também foi censurado pelo governo turco.


Soldados do Império Turco otomano enforcam cristãos armênios.

O Batalhão Trabalhista, 25 de fevereiro.

No dia 25 de fevereiro de 1915 o ministro de guerra Enver Pasha enviou uma ordem a todas as unidades militares dizendo que os armênios nas forças ativas otomanas deveriam ser desmobilizados e inscritos no desarmado Batalhão Trabalhista (em turco: amele taburlari). Enver Pasha explicou essa decisão como um “medo de que eles colaborassem com os russos”. Como de costume, o exército otomano descartou homens não-muçulmanos só entre 20 e 45 anos no exército. Os mais novos (15-20) e mais velhos (45-60) não-muçulmanos sempre foram usados como suporte logístico nos batalhões trabalhistas. Antes de fevereiro alguns dos recrutas armênios foram utilizados como trabalhadores (hamals), embora esses também acabariam assassinados.


Crianças nas marchas forçadas para fora da Turquia.

Transferindo recrutas armênios de campo ativo (armado) para passivo, o setor de logística desarmada foi um aspecto importante do subsequente genocídio. Muitos desses recrutas armênios foram executados pelas gangues turcas locais.

Eventos em Van, Abril de 1915.

Em 19 de abril de 1915, Jevdet Bey exigiu que a cidade de Van imediatamente entregasse-lhe 4.000 soldados sob o pretexto de conscrição. No entanto, era claro para a população armênia que seu objetivo era massacrar os homens aptos à guerra de Van para que não houvesse defesa. Jevdet Bey já havia usado seu decreto em vilarejos próximos, aparentemente para procurar por armas, o que se tornou um grande massacre. Os armênios ofereceram quinhentos soldados para e dinheiro para pagar a isenção para os outros em busca de ganhar tempo, entretanto, Jevdet acusou os armênios de uma “rebelião” e falou em sua determinação em “aniquilar” a qualquer custo. “Se os rebeldes atirarem um único tiro”, disse ele, “vou matar todo homem cristão, mulheres e [apontando para o joelho] toda criança até essa altura”.


Abril de 1915. armênios escoltados por soldados turcos marchando da cidade de Mamüret-Ul Aziz (Kharberd - Kharpert para os armênios, atual Elazığ) para um campo de prisioneiros. 

Em 20 de Abril de 1915 o conflito armado da Resistência de Van começou quando uma mulher armênia foi assediada e dois homens armênios que vieram socorrê-la foram mortos por soldados turcos. Os defensores armênios protegiam 30.000 residentes e 15.000 refugiados em uma área de cerca de um quilometro quadrado com 1.500 homens armados que eram abastecidos com 300 rifles, 1.000 pistolas e armas antigas. O conflito durou até que o General Yudenich (comandante do exército russo) fosse socorrê-los.

Detenção e Deportação de Armênios notáveis, Abril de 1915.

Desde 1914 as autoridades otomanas já haviam começado um meio de propaganda para descrever armênios que viviam no Império Otomano como uma ameaça à segurança do império. Um oficial naval otomano descreveu o plano:

“Para justificar esse grande crime requisitamos material de propaganda cuidadosamente preparada em Constantinopla. Os armênios estão conspirando com o inimigo. Eles vão começar uma revolta em Istambul, matar os líderes do Comitê de União e Progresso e abrirão os estreitos (de Dardanelles, ao noroeste da Turquia)”.

Na noite de 24 de Abril de 1915 o governo otomano capturou e prendeu aproximadamente 250 intelectuais e líderes de comunidades Armênios, este evento ficou conhecido como Domingo Vermelho.

O Domingo Vermelho, 24 de Abril de 1915

As detenções começaram na noite de 24 para 25 de Abril, entre 235 e 270 líderes armênios da Constantinopla, sacerdotes, médicos, editores, jornalistas, advogados, professores, políticos, entre outros foram presos após uma instrução do Ministério do Interior. Em uma segunda “remessa” o número de presos subiu para aproximadamente 550.


Oficial turco exibindo um pão, para provocar crianças armênias famintas (1915).

A maioria das deportações era da capital. No fim de Agosto de 1915 cerca de 150 armênios com nacionalidade russa foram deportados da Constantinopla para Ancara e Mudshur.

- Genocídio Armênio?

                “Genocídio” segundo o Webster é a “deliberada e sistemática destruição de um grupo racial, político ou cultural.”. O Genocídio Armênio foi o período sombrio da história da Armênia. Entre 1915 e 1923 mais de UM MILHÃO E MEIO de armênios foram brutalmente mortos pelo Governo Turco Otomano.

"Um Genocídio não ocorre de forma aleatória. Ele é o fruto da intencionalidade deliberada de um governo, Estado ou instituição organizada – partidos políticos, por exemplo – que tenha meios para infringir uma minoria étnica, nacional, racional ou religiosa um estado físico ou mental de degradação. A definição passa impreterivelmente pela qualificação do extermínio daquele grupo específico, e não outro qualquer, pelas mãos dos que teriam o dever ético, moral e jurídico de protegê-los. E ainda, o Genocídio ocorre pela inação da comunidade internacional, que toma um papel passivo na prevenção e sanção dos crimes contra a humanidade. Destarte, a impunidade de um ato genocida incentiva outro. Perpetradores percebem que nada se faz aqueles que infringem minorias a condições degradantes. Cria-se uma espécie de jurisprudência genocida universal, onde um algoz perpetrador aprende e se legitima com e no outro. Para Peter Balakian, a sistemática ausência de punição aos responsáveis atua na psicologia social do grupo do qual os perpetradores pertencem, legitimando massacres e genocídios."

Conflitos Armados, Massacres e Genocídios. LOUREIRO, Heitor


Mapa representando as deportações.


Armênia: localização geográfica.

- Quem foi?

                 Os principais responsáveis pelo Genocídio foram os integrantes do partido Comitê União e Progresso, entre eles os Jovens Turcos. Entre os nomes mais influentes estão o ministro do interior Talaat Pasha (1915-1918) e Enver Pasha (1920-1923).

- Por quê?

                Armênios, turcos e curdos conviviam no território do Império Otomano na Ásia Menor. A Turquia, com o declínio do Império Otomano, começava a perder territórios invadidos na Europa e, com o início da 1ª Guerra Mundial, temiam perder também o território ocupado historicamente por armênios. Além disso, o território armênio era colocado entre a Rússia e Turquia, o que interessava a ambos pela posição estratégica de guerra.

- Como começou?

                 O Governo Jovens Turcos implantou a política do Pan-turquismo. O objetivo era implantar no território do Império otomano a raça puramente turco-descendente e limpar da região outros tipos de raça, em um discurso muito parecido com o que seria utilizado no Holocausto alguns anos depois.

- Como aconteceu?

                 No dia 24 de Abril de 1915, 250 líderes e intelectuais foram presos em Constantinopla. A partir de então tropas turcas invadiram cidades e obrigaram famílias armênias a deixarem suas casas em caravanas com destino a desertos, principalmente aos da Anatólia e Der-el-Zor. Centenas de milhares de armênios foram deportados de suas casas e suas cidades foram destruídas. Milhares morreram no caminho por assassinatos das tropas, milhares morreram executados em campos de concentração, milhares morreram queimados, milhares morreram enforcados, milhares morreram jogados amarrados ao rio Eufrates, mas muitos milhares morreram de inanição, a morte por total falta de água e alimento.

- Por que ninguém fez nada?

                A estratégia do governo turco era muito bem arquitetada. As mortes longe de casa, em locais de difícil acesso, a inanição e atestados de “mortes por causas naturais” além da censura aos meios de comunicação, dificultaram a exposição internacional do que estava acontecendo. Além disso, as potências européias estavam envolvidas na I Guerra Mundial, com a atenção desviada para este conflito, era o cenário perfeito.

- O que diz o governo turco?

               

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.