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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A historiografia e a memória social


História e memória social. Imagem: Comunicação Chapa Branca. 

Veremos no seguinte texto a ação da memória social dentro da historiografia e as implicações de seu emprego e as marcas da memória social nos eventos históricos. Diante da discrepância que emerge do confronto da historiografia com as fontes e vestígios produzidos pelos acontecimentos na história e as fontes e vestígios memoriais produzidos pelo evento em si. Buscando desse modo uma perspectiva de uma história social da lembrança. Essas disputas pelas representações do passado no âmbito da memória procedem pelas reflexões sociológicas, a memória tornou-se um conceito central na área das humanidades. Os historiadores, por seu turno, transformaram-a em fonte, submetendo-a a crítica e desconfiando de seu apelo à verdade em função da imensa subjetividade que ela carrega. Na historiografia, a reflexão sobre a memória social.

Mas, como podemos estudar existem outros diálogos possíveis, os quais nos apontam para a referida história social da lembrança, ou seja:

“O modo como cada sociedade organiza e reflete sobre o seu passado torna-se objeto de reflexão para o historiador.”
Noé Freire Sandes

As afirmações de Maurice Halbwachs nos faz compreender o quão importante é para nosso estudo, de que “a lembrança é, em larga medida, uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente e, além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora se manifestou já bem alterada.” Desse modo abandona-se aqui a perspectiva da lembrança bergsoniana (Doutrina do filósofo francês Henri Bergson, conhecido principalmente por Ensaios sobre os dados imediatos da consciência, matéria e memória.) como conservação total do passado, para concebê-la como um refazer e não um reviver. Mas, como afirma Halbwachs a representação da memória coletiva como um trabalho coletivo de construção da lembrança. Ele propôs uma definição sociológica da noção de memória coletiva em que assegurou que o indivíduo não se lembra sozinho, o que implica afirmar que o indivíduo volta-se para o passado sempre de acordo como olhar de seu grupo, ou melhor, de seus grupos, pois o indivíduo está inserido num contexto familiar social, nacional, político etc. Desse modo toda a memória é, por definição, coletiva e, portanto, ela impor-se-ia ao pensamento individual. Nessa direção, o sentido ativo do sujeito na história é diluído ou mesmo anulado pelas forças coletivas que passam a subsistir por si mesmas, reflexão marcadamente anti-histórica. Daí não podermos mais referendar sem restrições as posições durkheimianas (Émile Durkheim é considerado um dos pais da Sociologia tendo sido o fundador da escola francesa, que combinava a pesquisa empírica com a teoria sociológica.) da sociologia da memória de Halbwachs. De todo modo, vale ressaltar que o próprio texto de Halbwachs contém recursos de uma crítica que pode ser voltada contra ele. Trata-se do uso quase leibniziano (Gottfried Wilhelm Leibniz foi um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão.) da ideia de ponto de vista, de perspectiva, pois ele assevera:

“Se a memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrantes do grupo. De bom grado, diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda segundo o lugar que ali ocupo e que esse mesmo lugar muda segundo as relações que mantendo com outros ambientes.”

Maurice Halbwachs

Assim o próprio Halbwachs, ao afirmar a ideia de perspectiva individual, já dá margem para que a noção de quadro social não se estabeleça tão rigidamente.

            Através das críticas antropológicas da memória avaliamos de modo mais delimitado alguns problemas que os usos do conceito memória coletiva apresenta, quais sejam provocar a confusão entre as lembranças memorizadas e as lembranças narradas; reduzir a existência da memória coletiva com base em atos como comemoração, construção de museus, mitos, etc. Semelhantes atos não são suficientes para atestar a existência de uma memória coletiva.

“Ao afirmar que, se uma teoria é uma proposição em que há certo valor explicativo do real, não podemos verdadeiramente falar em teoria da memória coletiva, posto que ela não explica de que maneira as memórias individuais, que são as únicas atestadas biologicamente, podem se aglomerar para constituir uma memória coletiva.”

Joël Candau

Ainda que a perspectiva antropológica perceba a memória como uma faculdade individual, é possível distinguir duas formas de memória em que ela seja compartilhada: a protomemória e a metamemória.

Protomemória: é o que podemos chamar de memória hábito, que são saberes do corpo que se adquirem em ações cognitivas ao longo do mais precoce processo de socialização. É mais uma presença do passado que uma memória do passado. É um sistema inteiro de conhecimento que se revela automaticamente em determinados momentos.

Metamemória: é a representação que cada indivíduo faz de sua própria memória. É uma memória reivindicada. E, como ela é reivindicada, é a dimensão essencial da construção da identidade individual. Ao se tratar de usa forma coletiva, ela será por nós brevemente analisada neste estudo como a memória reivindicada pelo grupo, a memória que o grupo supõe ter. Ainda seguindo a abordagem da antropologia da memória nos estudos de Joël Candau, supomos que a metamemória coletiva ajuda o grupo a pensar-se como uma comunidade e contribui para modelar um mundo onde o compartilhamento da memória faz-se ontológico. É a partir dela que os representantes de um grupo creem compartilhar de um passado comum. É nesse sentido que ela estabelece a unidade simbólica do grupo, uma vez que ela representa o grupo como pertencente a um todo homogêneo e integrado.

Memória Social: para entendermos esta categoria, partimos da ideia de que existe um passado espacial e historicamente distante que se impõe à sociedade como memória social. Nessa direção, formula-se um projeto narrativo capaz de orientar o cidadão acerca do sentido temporal de sua comunidade. Nesse sentido adotamos o conceito de Memória Social atentos a, sobretudo, duas de duas propriedades: 

a) Ela é medida por leituras do passado disponibilizadas no espaço público por ampla rede discursiva. 

b) Lida com vetores de memória, em que se destacam a grande mídia e os textos destinados ao ensino de História. Como vetor, a memória transforma-se em meio capaz de ordenar a diversidade da experiência social.


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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.