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terça-feira, 16 de abril de 2013

Um estudo sobre o martírio de Integralistas.



Retrato dos 03 primeiro mártires da Acção Integralista Brasileira, Luiz Schroeder, Caetano Spinelli e Nicole Rosica . Imagem: Fonte: Revista Anauê!, n°. 02 , p.09, ano 1935.

Os primeiros mártires integralistas

O primeiro Mártires da Acção Integralista Brasileira era da cidade de Bauru - SP. O heroico camisa-verde tombou no dia 03 de outubro de 1934 após receber uma bala direcionada ao Chefe Nacional Plínio Salgado. Seus restos mortais, quanto ao monumento em sua homenagem, permanecem no Cemitério da cidade, inspirando os Integralistas da nova geração.

Da mesma forma que os outros rituais, as informações sobre as mortes de militantes em confrontos de rua também ocuparam um espaço privilegiado nos órgãos da imprensa integralista. Essa espécie de luto político que envolvia todo o conjunto do partido estava prevista nos "Protocolos Integralistas", pois todos os detalhes que envolviam o velório dos "camisas-verdes" estavam meticulosamente previstos.

Na verdade, a preocupação com os rituais que envolviam os mortos tinha um objetivo claro: deixar claro aos membros à morte como mártires desses milicianos da AIB. No que tange aos rituais fúnebres, os "Protocolos" apresentavam uma série de procedimentos que deveriam ser adotados, como, por exemplo, o caixão ser coberto pela bandeira do partido.[28] Haveria um momento em que um dirigente solicitaria um minuto de silêncio das pessoas presentes.

Na sequência, era realizada a chamada do nome do falecido. Os companheiros deveriam responder, ao mesmo tempo, "Presente!" O próximo passo era um dos mais interessantes, pois o dirigente que comandasse os trabalhos deveria proferir as seguintes palavras: "No integralismo não se morre! Quem entrou nesse movimento imortalizou-se no coração dos camisas-verdes".[29].

A ideia de imortalidade estava intimamente ligada aos casos de falecimento dos militantes. Ou seja: ao morrer, o integralista continuaria servindo ao movimento, só que, agora, com algumas peculiaridades: o espaço de organização no post mortem seria a chamada Milícia do Além. Seu comandante será Deus.

Se considerarmos que a maioria dos militantes era composta por católicos, podemos afirmar que essas liturgias tinham a finalidade de reforçar a fidelidade à causa, sobretudo através da insistência em destacar o papel daqueles que sacrificaram suas vidas pelo movimento.
Todo o esforço em publicar matérias na imprensa sobre os velórios, sepultamentos e homenagens visava algo como uma sacralização e uma demonstração de amor que mártir tinha pelo movimento.[30] A intenção clara do movimento era cristalizar - entre os membros do partido e, sobretudo, no público externo - uma imagem positiva em relação àqueles considerados mártires.

Essa intenção ficava clara ao observar que imagens de militantes mortos e feridos em combates de rua ocupavam os mesmos espaços nas publicações da AIB que cenas de desfiles, casamentos, sessões solenes e atividades de caráter social. As cenas de caixões, velórios, cadáveres e sepulturas eram divulgadas sem cortes ou censura pelos órgãos da imprensa verde. Os integralistas chegaram a compor um panteão de mártires.

Relação dos mártires Integralistas. Imagem: Monitor Integralista. Ano V. Vol. 22. 7/10/1937. p.3. 

Os conflitos que geraram os primeiros mártires integralistas ocorreram apenas em 1934, quando a organização estava prestes a completar dois anos de fundação. Uma explicação pode ser o fato de que somente a partir dessa data a AIB alcançou um nível de organização e um número de filiados que passou a incomodar seus opositores.

Outro ponto a se destacar é que o número de mortos cresceu com o passar dos anos: 1934, três; 1935, quatro; 1936, seis; e, 1937, sete. O crescimento do número de filiados e núcleos organizados foi acompanhando por uma escalada na quantidade de vítimas fatais. É importante destacar que 1937 - ano da campanha presidencial - foi o ano que registrou mais casos de falecimentos em combates de rua.

Militantes de quase todas as regiões do País tiveram o privilégio de compor o panteão de mártires. A diversidade regional dos integralistas que partiram como heróis para a "Milícia do Além" também serviu para reforçar o caráter nacional do partido. Isso porque não interessava se o mártir era do Norte ou do Sul. Todos passaram a ser reverenciados igualmente na imprensa integralista.

Essa prática já ficou perceptível no caso do primeiro militante morto em um combate quando atacado por comunistas opositores ferrenhos da AIB. O papel de primeiro mártir dos "camisas-verdes" pertence ao militante Nicola Rosica, [31] do Núcleo Municipal de Bauru, que morreu em 3 de outubro de 1934, vitima de um disparo de arma de fogo durante um conflito envolvendo militantes do movimento comunista da cidade. Poucos dias depois, a imagem do velório do militante circulou nacionalmente através do jornal oficial dos "soldados de Deus".

Na edição do jornal, pode-se observar que os militantes de Bauru seguiram todas as orientações dos "Protocolos Integralistas", pois as bandeiras do Brasil e da AIB cobriam parte do caixão.[32] Poucos dias depois, um conflito de proporções muito maiores voltou a ocupar as manchetes do jornal da AIB. Os trágicos resultados da chamada "Batalha da Praça da Sé" atraíram também a atenção da imprensa nacional, principalmente por conta do saldo final de cinco vítimas fatais.

O conflito envolveu integralistas que pretendiam realizar um desfile na região central de São Paulo e forças comunista que se mobilizaram para impedir a manifestação.[33] A escalada da violência e o aumento do número de mortos geraram muitas manchetes e fotografias nos jornais integralistas.

A imprensa verde reservou espaços generosos em suas publicações, não sobrando imagens de mortos, feridos e manchetes de natureza anticomunista. Os detalhes do desfile, do conflito, dos atos heroicos dos militantes da AIB e a relação dos mortos e feridos no conflito estiveram nas primeiras páginas do jornal A Offensiva.

O conflito da Praça da Sé marcou profundamente a trajetória dos integralistas. Foi algo como um batismo de sangue. Todos os personagens e fatos ligados à data de 7 de outubro de 1934 assumiram um teor sacro entre os militantes. O culto aos mártires que tombaram nesse enfrentamento de rua repercutiu por anos no interior do partido e gerou um conjunto de homenagens registradas em cartazes, reportagens especiais, fotografias e muitos nomes de escolas.[34].

Constantemente, as imagens e referências aos militantes que tombaram em conflitos de rua retornavam à imprensa da AIB. Seus exemplos eram apresentados como verdadeiros modelos de perfeitos militantes que, apesar de estarem na "Milícia do Além", continuariam "produzindo tantas centenas de milhares de companheiros".[35].

O culto aos acontecimentos da capital paulista originou um verdadeiro padrão de comportamento no interior da AIB. Tanto que, três anos depois do conflito da Praça da Sé, ainda havia homenagens na imprensa do partido. Uma edição da revista Anauê, de 1937, trouxe uma matéria que destacou a coragem dos integralistas que enfrentaram, sem demonstrar medo, os comunistas que praticaram um ato covarde em nome da hidra de Moscou.[36].

A reportagem prossegue destacando que os militantes não mediariam esforços ou poupariam sacrifícios em sua missão: edificar uma pátria baseada nos preceitos cristãos. Afirmava que "selariam com sangue a sua fé no integralismo". A revista destacou duas fotos. A primeira mostra um integralista ferido nas pernas que estava sendo carregado por um enfermeiro e outro camisa-verde.


Foto do corpo de Alberto Sechin, morto em conforto com comunistas. Imagem: Revista Anauê, Ano II, Nº5, Pl 1, 1936.

Entre as homenagens aos mártires produzidas pela imprensa da AIB, uma das mais interessantes foi uma gravura em preto e branco. Publicada em janeiro de 1936, era assinada por A.G. Gouveia e tinha como característica principal o tom dramático. O cenário era algo como um cemitério coberto por cruzes típicas de sepulturas.[38].

Contudo, a imagem que dominava a cena era uma mulher vestindo uma mortalha negra e em posição de saudação com o braço direito estendido. Sobre a figura feminina pairavam os sobrenomes dos mártires: Falcão, Guimarães, Rosica, Schroeder, Spinelli e Sechin. Embaixo do desenho, em letras grandes, estava à palavra "presente".

Apesar de ser apenas um desenho, a intenção da publicação era evidente: transmitir a ideia de perenidade apesar da morte. Não faltaram oportunidades para a imprensa da AIB reproduzir imagens impressionantes. O assassinato do militante capixaba Alberto Sechin, por exemplo, em 1935, ocupou um espaço de destaque na galeria de imagens fúnebres dos seguidores de Plínio Salgado.[39]. 


Ilustração em homenagem aos heróis integralistas que tombaram em combate. Imagem: Revista Anauê, Ano II, n. 6, p. 36, Jan. 1936.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.