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domingo, 14 de abril de 2013

A formação e os rituais integralistas



Casamento Integralista. Imagem: Acervo Plínio Salgado. Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro.


O dia 7 de outubro de 1932 é considerado um dos mais importantes no calendário político dos integralistas. Nessa data, celebra-se a publicação do chamado "Manifesto de Outubro", primeiro documento assinado e lido publicamente pelos integrantes da Ação Integralista Brasileira (AIB). O local de tão singular evento foi o tradicionalíssimo Teatro Municipal de São Paulo.[1]

Os integralistas seguiam uma série de rituais e normas. Como exemplo, os militantes do partido deveriam estar sempre vestidos de camisas verdes com gravatas pretas: daí serem chamados de "camisas-verdes".

Tinha como símbolo a letra do alfabeto grego sigma (Σ), que na matemática é utilizada para realizar o cálculo integral, numa alusão à necessidade de integrar todos os brasileiros. Estavam organizados em milícias e realizavam desfiles e marchas de caráter militar. A palavra de origem tupi-guarani anauê era usada como saudação, que deveria ser feita com o braço direito estendido ao alto.

Os integralistas utilizavam as chamadas "bandeiras" ou "caravanas" integralistas, que tinham o objetivo de divulgar as ideias do movimento e, ao mesmo tempo, fundar núcleos da AIB. Sendo assim, em agosto de 1933 começou uma fase de pleno crescimento da AIB em nível nacional, intensificando-se, nesse período, o trabalho de propaganda e organização. Os principais dirigentes da organização partiram em caravanas para várias cidades e regiões do Brasil. Foi a partir dessas incursões que se deu a expansão da organização para além dos limites do Estado de São Paulo. Como veremos a seguir, outro importante instrumento de divulgação da organização foram seus rituais políticos.

No dia 23 de setembro de 1933, a população da capital paulista assistiu ao início de uma das cerimônias que se tornou uma das características marcantes da Ação Integralista Brasileira, a AIB. Naquela data, a população da cidade testemunhou um grupo de milicianos a marchar com seus uniformes verdes e bandeiras azuis, sob o comando de Gustavo Barroso. A partir desse primeiro desfile, onde houvesse um núcleo integralista, haveria uma cerimônia ou ritual da organização.[2]

Os momentos da vida dos militantes passaram a contar com ritos e símbolos que cumpriram a tarefa de padronizar e unificar as ações do partido, através da construção de uma mística do movimento.3 Os documentos da AIB previam que, em todas as fases da vida, os militantes deveriam contar com rituais específicos, tais como no batismo, no ingresso no partido, no casamento e até no velório.

É interessante destacar que, historicamente, em vários países e épocas diferentes, o Estado, movimentos e partidos políticos utilizaram uma série de rituais e comemorações no sentido de mobilizar os cidadãos em geral e, especialmente, os jovens e os estudantes. Novos feriados, cerimônias, heróis e símbolos do poder buscavam marcar esses momentos.[4]

A forma mais comum de celebração era a realização de desfiles e paradas públicas. Algo comum que, ao longo da história, as mais diversas sociedades foram incorporando às suas tradições nacionais.[5] Essa forma de comemoração e celebração seria herdeira dos desfiles triunfais das legiões da Roma antiga, das grandes procissões medievais, das apresentações militares dos exércitos de Napoleão pelo Arco do Triunfo, até chegar à sua forma mais moderna: a parada norte-americana.[6]

Durante a década de 1930, o país que realizou de maneira mais monumental comemorações cívicas foi a Alemanha. O grande número de cerimônias e comemorações realizadas na Alemanha durante esse período foi uma tentativa do Estado interpretar ou reinterpretar acontecimentos históricos marcantes, sobretudo tentando estabelecer uma ligação desses fatos com a sua nova história.[7]

A tarefa de comunicar crenças e valores para o coletivo é facilitada pela linguagem performática - importante característica dos rituais políticos. Nesse contexto, o ritual representa uma espécie de texto coletivo simbólico[11]que se expressa por meio de uma linguagem corporal.

Em um ritual político, cada gesto corporal cumpre uma determinada finalidade no sentido de transmitir uma "verdade" que deve ser assimilada por todos.[12] Mais do que isso, a repetição gestual[13] é um elemento que explicita a unidade e a aceitação das diretrizes do partido. Levantar o braço, desfilar, repetir uma saudação, enfim, significa mais que simples ações físicas. Representa estar enquadrado e em sintonia com as ideias e ideais do partido.

No Brasil, visando atingir de maneira uniforme o conjunto da militância, coube aos integralistas a criação e implementação de uma série de ritos e cerimônias. No intuito de cumprir tal tarefa, foi criado um conjunto de documentos que passou a nortear nacionalmente os "Soldados de Deus".

Conhecidos como "Protocolos e Rituais Integralistas", eram constantemente atualizados pela imprensa verde, especialmente nas edições do Monitor Integralista. Os protocolos registravam todas as regras de comportamento dos integralistas, tais como uso de uniformes e de símbolos e procedimentos durante as cerimônias.

Os integralistas usavam fartamente cerimônias, rituais e celebrações como instrumento de arregimentação de novos adeptos e unificação dos antigos filiados. Tais solenidades cumpriam uma dupla função: uma interna e outra externa.[15]Sem dúvida, no plano interno, a finalidade mais destacada era a transmissão de participação política.

A edificação dos rituais só foi possível porque a massa de filiados que participava das cerimônias o fazia de forma organizada e controlada. Ou seja: havia roteiros pré-estabelecidos, que determinavam o papel de cada elemento no cenário. Esses roteiros eram os chamados Protocolos, e previam cada detalhe sobre as solenidades e símbolos dos "camisas-verdes".

A obediência durante os desfiles era um sinal de fidelidade com as diretrizes traçadas pela direção nacional. O cumprimento de tais orientações acabava indicando o grau de comprometimento do filiado com o partido. Em suma, para se criar um sentimento de unidade.

Nesse universo, das mais destacadas armas de identidade coletiva dos integralistas foi a letra grega sigma maiúscula.[16] Esse símbolo ocupou lugar de destaque no movimento, juntamente com a saudação com o levantamento do braço direito acompanhado da palavra "Anauê". Entre os militantes era comum uma única saudação. Já o brado de três "anauês" era restrito ao chefe nacional.[17] As palavras "Deus, pátria e família" compunham o lema dos seguidores de Plínio Salgado.

Como dissemos anteriormente, o uniforme verde foi outra marca ímpar dos integralistas. Tal vestimenta deveria ser usada obrigatoriamente durante as reuniões, desfiles e cerimônias do partido.[18] O fardamento - símbolo maior da uniformização da AIB - deveria acompanhar o militante em todas as suas atividades, até mesmo durante as viagens. Em caso de falecimento, o integralista seria sepultado com seu uniforme.

De maneira semelhante aos outros símbolos, os Protocolos estabeleciam as cores e dimensões da bandeira dos "camisas-verdes". As cores escolhidas foram o azul - significando a dimensão nacional da organização - e o branco - que representava a paz que marcaria a pureza e sinceridade do movimento.[19]

Como se observa, cada passo e ação dos militantes eram meticulosamente planejados para envolver todos os filiados. Até os recém-nascidos poderiam ser batizados seguindo as instruções dos Protocolos. Previa-se que, depois do batismo religioso tradicional, os filhos dos militantes passariam por um rito que representaria o primeiro contato com o partido.

Nos casamentos dos militantes, também estavam previstos atos no civil e no religioso. Em ambos, a utilização do uniforme era obrigatória para noivo, padrinhos e convidados. As noivas trajariam seus vestidos portando as insígnias. Durante os atos no civil e no religioso, o dirigente mais graduado do núcleo deveria estender o braço e dizer, em voz baixa, que o chefe nacional estava presente.[20]

Importante mencionar ainda as marchas, desfiles e hinos da AIB que, semelhantemente a outros momentos da vida partidária, também estavam previstos nos Protocolos. Todos esses rituais contribuíam para reafirmar, na prática, os ideais do partido. Ou seja: entre os integralistas havia um permanente estímulo à ação.

Das manifestações da AIB participavam todos os militantes, independentemente da idade, do sexo, da condição financeira, do grau de instrução... Enfim, sem distinção de qualquer natureza. No meio da massa que desfilava pelas ruas do país desapareciam, momentaneamente, as diferenças e as particularidades.


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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.