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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Os gauleses eram bárbaros?

Esse povo que não tomava banho, não conhecia as letras e até praticava sacrifícios humanos precisou ser conquistado por Roma para conhecer a civilização, certo? Errado!


Vercingetorix joga suas armas aos pés de César, óleo sobre tela, Lionel Noël Royer, 1899. Imagem: MUSEU CROZATIER, LE PUY-EN-VELAY.

O senso comum prega que os gauleses eram um bando de guerreiros frustrados, saqueadores e brigões até que Júlio César os transformou em um povo civilizado sob a égide de Roma. Embora estivessem divididos em comunidades que alimentavam disputas constantes, os gauleses obedeciam a instituições e costumes semelhantes. Recentes descobertas arqueológicas mostram uma civilização de características próprias.

A sociedade era formada por tribos, unidade basilar que reunia várias famílias. Elas eram lideradas por um rei, que se mantinha cercado de uma aristocracia guerreira no comando de uma plebe composta de artesãos, camponeses e escravos. Muito cedo trocas comerciais se estabeleceram através do Mediterrâneo, notadamente com os gregos.

Os gauleses praticavam a salga dos alimentos para conservá-los, em particular da carne de porco. Eles desenvolveram a agricultura usando uma espécie de ancestral da ceifadeira, uma grande caixa com rodas dentadas puxada por um boi, enquanto os romanos ainda se serviam de foicinhos. Eles inventaram o tonel, recipiente mais cômodo que a ânfora para o transporte e a conservação do vinho. O artesanato era, contudo, o domínio no qual sobressaíam. Embora suas peças de cerâmica sejam famosas, foi na ourivesaria e na produção de instrumentos de ferro que eles se tornaram mestres, como provam as fi velas e outros broches cuja produção demonstra uma real preocupação estética. Isso também é prova de bom conhecimento dos minerais e domínio das difíceis técnicas exigidas na sua extração.

Além disso, os gauleses deram grande importância à aparência e ao asseio. Adotaram as bragas, tipo de ancestrais da calça, e inventaram o sabão à base de cinzas e de sebo – embora fosse usado principalmente para lavar as longas cabeleiras típicas dos gauleses. Os druidas, que exerceram um papel primordial na sociedade gaulesa, praticavam a medicina, e a descoberta de escalpelos e lancetas em suas tumbas levam a crer que tinham noções de cirurgia. Eles se interessavam pelo cálculo, pela geometria e pela astrologia no intuito de determinar os locais de cultos e elaborar calendários.

Quando da conquista de César, em 52 a.C., havia um início de urbanização com as chamadas oppida, conjunto de habitações fortificadas que contavam com os serviços de limpeza das vias públicas.

A má reputação dos gauleses se deve a textos antigos. Os gregos tinham a lembrança do saque de Delfos em 279 a. C. e os romanos, da tomada de Roma pelos celtas em 390 a. C. Se os primeiros reconheciam suas qualidades guerreiras e os utilizavam como mercenários, os segundos, humilhados, atribuíram aos gauleses uma imagem de fanfarrões, desordenados no combate e saqueadores. Na verdade, os romanos consideravam tudo o que não era grego ou romano como bárbaro. E César, devendo tirar o máximo de prestígio possível de sua conquista, fizera o resto para deixar no imaginário coletivo traços que se prestam mais aos desenhos animados, como o clássico Asterix, do que à realidade histórica.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.