-

-

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Átila, o Huno: um animal político.

Talvez o maior paradoxo da imagem do líder “bárbaro” seja o de que, em verdade, ele era melhor diplomata do que general de guerra.


 Átila e suas hordas invadem a Itália e as artes, Eugène Delacroix, c.1843, óleo sobre tela, Palais Bourbon.

O rei sabe quem ele mantém ao seu redor. Culto, fala latim e grego. Ele prova ser um debatedor habilidoso e conduz seus homens com mão de ferro e luvas de pelica. Bem longe daquilo a que o termo “bárbaro” remete. Tendo escrito um século após a morte do rei dos hunos, o historiador Jordanes oferece uma imagem ambígua do monarca: “Átila amava a guerra, mas era capaz de controlar sua própria violência”. Sem negar seu gosto pela conquista e pelas pilhagens, ele lembra que Átila era também um animal político que se servia, muitas vezes, de meios sutis.

Governar consiste, em primeiro lugar, em saber se cercar. Para receber os melhores conselhos, Átila reuniu ao seu redor uma corte tão numerosa quanto original. Ela era composta por hunos nobres, como o seu braço-direito Onegésio ou um certo Berik, que possuía um vasto comando territorial, mas também por chefes dos povos germânicos, seus aliados, aos quais Átila atribuía extensas responsabilidades. Entre eles, o ostrogodo Teodomiro, pai daquele que viria a se tornar o rei Teodorico, o Grande, conquistador da Itália.

Átila deixava o comando de seus exércitos nas mãos dos bárbaros, mas incumbia os romanos das tarefas administrativas. Assim, dois de seus secretários sucessivos tinham o mesmo nome, Constâncio – o primeiro era gaulês, o segundo, italiano. Sob sua influência, a corte empregou um pequeno corpo de intérpretes. Quanto à chancelaria real, esta foi confiada a Orestes, um aristocrata da província romana da Panônia. Após a morte de Átila, Orestes retornou ao território romano, recebendo importantes funções militares até assumir o controle do Império, em 475.

MESTRE DAS ARMAS PSICOLÓGICAS Se Átila parecia ter talento para detectar personalidades notáveis, seu círculo heterogêneo não deixava de ser um produto do acaso. Seu bobo da corte, Zercon, era um mouro, anão e poliglota, que pertencera a um general romano até ser “tomado” pelos exércitos hunos. Os prisioneiros de guerra que demonstravam talentos especiais se beneficiavam de um tratamento diferenciado. O prisioneiro romano Rusticius escapou da escravidão por ser capaz de escrever cartas diplomáticas.


 Átila chegou a acampar diante das enormes muralhas de Constantinopla e  planejava outra campanha contra a capital bizantina quando a morte o surpreendeu, no início de 453.

Átila governava sua corte com um misto de doçura e violência. Aqueles que ele queria bajular ganhavam presentes, elogios, tinham lugares preferenciais à mesa e recebiam até mesmo a promessa de ricos casamentos. Eventualmente, alguns de seus auxiliares eram encarregados de partir em delegações a Constantinopla. Eles podiam estar certos de uma grande recepção e de voltarem carregados de presentes. Por outro lado, Átila era implacável com traidores. Assim, mandara crucificar seu primeiro-secretário, suspeito de desviar um lote de cálices preciosos. Incutir o terror era útil ao rei: enquanto Bizâncio tentava subornar sua corte na tentativa de assassiná-lo, o complô acaba sendo denunciado por seu conselheiro Edika tamanho o seu medo da retaliação, caso o plano desse errado.

No que concerne às legações estrangeiras, Átila mostrava-se um interlocutor hábil. Os embaixadores recebiam uma enxurrada de insultos ou de adulações; no decorrer da discussão, o rei os ameaçava da pior das mortes, antes de assegurá-los de que, a seus olhos, eles eram sagrados. Desconcertados, os diplomatas se viam em uma posição frágil para conduzir as negociações. Átila se aproveitava também de qualquer oportunidade para usar suas armas psicológicas. Seus visitantes retornavam cobertos de presentes suntuosos mas, ao longo do caminho de volta, eram obrigados a assistir ao suplício de homens culpados de traição.

Em matéria de política externa, era um oportunista. Suas relações com o Império Romano do Oriente tinham um único objetivo: conseguir o máximo de riqueza. Na maior parte das vezes, ele se contentava em recolher tributos: para isso, multiplicava as missões diplomáticas, ameaçava seus interlocutores, exigia que as disposições dos tratados anteriores fossem respeitadas... E se porventura o pagamento dos impostos fosse interrompido, ele não hesitava em recorrer à guerra. Violenta e breve, esta não terminava com uma conquista, mas com um acordo financeiro mais favorável do que o anterior.

Resta saber se a diplomacia de Átila era realmente eficaz. Ele parece ter subestimado os recursos que o império podia recolher. Na verdade, os tributos pagos não arruinavam Constantinopla, tampouco prejudicavam seu potencial militar. As repetidas exigências dos hunos e suas múltiplas depredações acabaram exasperando, porém, a opinião pública bizantina. Átila terminou contribuindo assim para que adeptos de métodos mais duros chegassem ao poder. Em 450, Marciano subiu ao trono, fazendo da eliminação dos hunos a primeira meta de seu reinado.


O saque de Aquileia (imagem) ocorreu em 452 e foi realizado pelos hunos sob a liderança de Átila.

Átila parecia mais confortável com os romanos ocidentais. Sem escrúpulos, ele acolhia em sua cor te personalidades contrárias às autoridades vigentes. Como Eudoxo, um líder dos camponeses gauleses que se rebelou contra a carga tributária e passou para o lado dos hunos em 448. O rei criou laços também com a princesa romana Honória, irmã do imperador Valentiniano III. Ela se ofereceu ao rei huno em casamento. Seu “esposo” reivindicou então direitos sobre o Império do Ocidente.

HÁBEIS NEGOCIAÇÕES COM BÁRBAROS Mais uma vez, a diplomacia de Átila, ainda que inventiva, mostrou certas limitações. Em 451, sua ignorância do terreno e a falta de apoio local o levaram a liderar uma campanha infeliz na Gália. No ano seguinte, na Itália, ele negligenciou os principais objetivos políticos ou militares e suas tropas saquearam o vale do Pó. Vendo suas forças minadas por uma epidemia, ele concordou em negociar com uma delegação imperial conduzida pelo papa Leão I, o Grande. Essa negociação, mal documentada, não se revelou necessariamente desfavorável a Átila, que era ameaçado pelo imperador oriental. Mas ela tampouco compensou os esforços empreendidos.

Por outro lado, Átila teve alguns sucessos notáveis nas suas relações com outros bárbaros, especialmente com os povos germânicos. Foi assim que conseguiu manter sua hegemonia nesse misto de tribos que constituíam seu império. Ele estabeleceu relações vantajosas também com reis distantes, especialmente com Genserico, rei dos vândalos, novo soberano da África do Norte, mas não conseguiu manipular os francos e os visigodos da Gália. Esses ficaram do lado romano durante a sangrenta Batalha dos Campos Cataláunicos.

O paradoxo de Átila não seria, em última análise, o de ser melhor diplomata do que conquistador? Pois, enquanto, no seu papel de chantagista, ele triunfava, inquietante e sedutor, quando tentava exibir todo o seu poder, era detido pelos acasos da guerra.

BRUNO DUMÉZIL é escritor e especialista em Idade Média.

COPYRIGHT © 

Copyright © construindohistoriahoje.blogspot.com. Você pode republicar este artigo ou partes dele sem solicitar permissão, contanto que o conteúdo não seja alterado e seja claramente atribuído a “Construindo História Hoje”. Qualquer site que publique textos completos ou grandes partes de artigos de Construindo História Hoje tem a obrigação adicional de incluir um link ativo para http:/www.construindohistoriahoje.blogspot.com.br. O link não é exigido para citações. A republicação de artigos de Construindo História Hoje que são originários de outras fontes está sujeita às condições dessas fontes e seus atributos de direitos autorais.

Você quer saber mais? 


(COMUNIDADE CHH NO DIHITT)

(COMUNIDADE DE NOTÍCIAS DIHITT)

(PÁGINA NO TUMBLR)

(REDE SOCIAL ASK)

(REDE SOCIAL VK)

(REDE SOCIAL STUMBLEUPON)

(REDE SOCIAL LINKED IN)

(REDE SOCIAL INSTAGRAM)

(ALBUM WEB PICASA)

(REDE SOCIAL FOURSQUARE)

(ALBUM NO FLICKR)


(CANAL NO YOUTUBE)

(MINI BLOGUE TWITTER)

(REDE SOCIAL BEHANCE)

(REDE SOCIAL PINTEREST)

(REDE SOCIAL MYSPACE)

(BLOGUE WORDPRESS HISTORIADOR NÃO MARXISTA)

(BLOGUE LIVE JOURNAL LEANDRO CLAUDIR)

(BLOGUE BLOGSPOT CONSTRUINDO PENSAMENTOS HOJE)

 (BLOGUE WORDPRESS O CONSTRUTOR DA HISTÓRIA)

(BLOGUE BLOGSPOT DESCONSTRUINDO O CAPITALISMO) 

 (BLOGUE BLOGSPOT DESCONSTRUINDO O COMUNISMO) 

(BLOGUE BLOGSPOT DESCONSTRUINDO O NAZISMO)

 (BLOGUE WORDPRESS CONSTRUINDO HISTÓRIA HOJE)

(BLOGUE BLOSPOT CONTATO)

 (REDE SOCIAL FACEBOOK CONSTRUINDO HISTÓRIA HOJE)

(REDE SOCIAL FACEBOOK LEANDRO HISTORIADOR)

(REDE SOCIAL GOOGLE + CONSTRUINDO HISTÓRIA HOJE) 

(MARCADOR DICAS DE LEITURA) 

(MARCADOR GERAL) 

(MARCADOR PESSOAL) 

(MARCADOR ARQUEOLOGIA) 

(MARCADOR ÁFRICA)

(MARCADOR ANTIGUIDADE)

(MARCADOR PERSONAGENS DA HISTÓRIA) 

(MARCADOR HISTÓRIA DO BRASIL) 

(MARCADOR FÉ) 

(MARCADOR COMUNISMO) 


LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.