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sábado, 7 de setembro de 2013

Os Evangelhos Apócrifos: Um estudo historiográfico.




            O presente texto não tem por objetivo diminuir de forma alguma a autoridade dos quatro Evangelhos Canônicos aceito pela maior parte das Igrejas cristãs pelo mundo. Mas, sim mostrar uma visão histórica e como tal uma análise firmada nesta de que estes livros que foram colocados fora do Cânon principal do cristianismo possa nos ensinar mais sobre aqueles que os escreveram e seus objetivos. É com essas bases que apresento aos amigos Construtores um texto que visa ampliar nossa visão sobre essa obra a muito envolvida em confrontos e diversas com bases teóricas.  Não é fácil definir o que são “evangelhos apócrifos”, bem como o que são escritos apócrifos em geral. Para simplificar a tarefa, pode-se dizer: “apócrifos” designa todos os textos que estão reunidos na coleção iniciada por Edgar Hennecke, e depois sob a curadoria de Wilhelm Schneemelcher, intitulada “Neutestamentliche Apokryphen”. Com essa definição do conceito, porém, estaríamos presos num círculo fechado, uma vez que a escolha dos textos para aquela coleção parte de uma determinada pré-compreensão do que seja “apócrifo”.

CHH

“A todas as grandes mentes que deram seu sangue para que a Justiça se cumpra no Universo.”

Maria Helena de Oliveira Tricca

 Nas edições até agora feitas dessa obra de referência, não houve mudança digna de nota quanto a seu conteúdo. Na primeira edição (1904) e na segunda edição (1924) constavam, por exemplo, os Padres Apostólicos: a primeira e a segunda Epístola de Clemente, as Epístolas de Inácio, de Policarpo, de Barnabé, a Didaché, o Pastor Hermas, Também nesse grupo de escritos trata-se de um corpus artificialmente organizado, que deve seu título, “Padres Apostólicos”, a uma edição do texto em 1672. A partir da terceira edição (1959), gradativamente começam a serem considerados entre os “Apócrifos do Novo Testamento” os textos de Nag Hammadi. Alguns textos eram acrescentados e depois tornavam a ser excluídos, tais como a Carta de Diogneto, os Ditos de Sextus (ambos somente na segunda edição) e as Odes de Salomão (na segunda e na terceira edições).

            Christoph Markschies, que iniciou uma reedição da valiosa coleção, sugere que se fale de “apócrifos cristãos antigos”. Com o termo “antigo” assinala-se a restrição à época da Igreja antiga, pois, de fato, a redação dos apócrifos prolongou-se até a Idade Média e a Idade Moderna, enquanto o termo “cristão” deve libertar o conceito de sua fixação ao Novo Testamento. Se com isso todas as dificuldades quanto à terminologia estão removidas, permanece uma questão em aberto. Além do mais, os escritos de Nag Hammadi, entre os quais se encontra o tão considerado Evangelho de Tomé, deverão ser excluídos da obra, para serem reunidos numa tradução própria.

            O termo “apócrifo”, para iniciar, provém do grego (απόκρυφος). Significa literalmente, “oculto”, “escondido”, “secreto”. Aplicado a textos do cristianismo primitivo, seu significado toma duas direções que, apesar de suas oposições, se mantêm inter-relacionadas:

            1) Com o conceito “apócrifo” designam-se revelações secretas, que não constam no conjunto das revelações geralmente aceitas, mas que, para determinados grupos, têm relevância bem maior do que os ensinamentos conhecidos e aceitos no ambiente eclesial. “Apócrifo” tem aqui um tomo positivo, sem reservas; com o mesmo significado, o termo também está presente em Clemente de Alexandria.

            2) Em contrapartida, os seguidores da Igreja Ortodoxa, defendendo um cânone escriturístico claramente delimitado, tomam a designação “apócrifo” como sinônimo de “falsificação”, “não-confiável”. No Decretum Gelasianum, uma lista canônica do século VI, o termo “apócrifo” aparece de maneira estereotipada, em referência a um grande número de escritos, com o significado equivalente a “herético”. Nega-se qualquer base de autoridade ao acervo escriturístico assim denominado.

            Em ambas as avaliações estabelece-se uma relação entre os escritos apócrifos e o cânone do Novo Testamento, que em seus elementos básicos estava estabelecido em fins do século III. Para uma parte dos assim chamados apócrifos, principalmente para os mais tardios, um fator que levou à sua produção poderia ser assim descrito: tomando como medida os escritos neotestamentários, tinha-se a intenção de complementá-los, levar adiante o processo de produção escriturístico e preencher supostas lacunas. Em parte pretendia-se também, diante deles, valorizar interesses teológicos próprios, adaptando-se, por isso mesmo, aos seus grandes gêneros literário: evangelhos, epístolas, atos de apóstolos, apocalipse.

            Nesse modo de ver, um aspecto, contudo, não recebe a devida consideração (e nesse aspecto a definição de apócrifos, em Walter Rebell, como concorrentes dos textos do Novo Testamento diz respeito somente a uma parte do todo). Alguns textos, cronologicamente muito antigos, por nós denominados apócrifos, só posteriormente se tornaram apócrifos (o que Dieter lührmann nos indica em sua obra). Isso que dizer que eles, em sua origem, pertencem àquela corrente mais ampla de produção literária do cristianismo primitivo preexistente ao processo de canonização, e por isso mesmo nem sequer se medem com o cânone e nem têm a intenção de por ele ser medidos.

            Recentemente, principalmente na pesquisa norte-americana (por exemplo, de Helmut Koester), mas não somente lá, trabalha-se com a tese de que alguns textos “apócrifos” não só seriam tão antigos, mas mesmo mais antigos ainda do que os escritos reunidos no Novo Testamento, e, conforme a expressão consequente dessa posição, teria sido utilizada pelos autores diretamente como fontes e possuiriam, por essa razão, importância central para a reconstrução das origens históricas do cristianismo. Também diante dessas posições avançadas, insustentáveis nessas suas formulações radicais, é recomendável uma atitude de precaução. Caso contrário, correr-se-ia o risco de substituir uma ideologia mais antiga, que estava convicta da supremacia do cânone, por outra, mais recente, que favorece uma literatura (e um cristianismo) “livre”, não canônica, não ortodoxa (por exemplo, John Dominic Crossan, no texto da capa da obra coletiva organizada por J. Millar, promete demasiado, afirmando: “tudo o que se precisa é fortalecer a busca pelo Jesus histórico”). Juízos globais aqui estão fora de lugar. Antes, em cada caso individual é necessário observar com a máxima atenção, para então elaborar a hipótese adequada. Se a impressão geral então, mesmo assim, tender para a posição mais antiga, ela não estará baseada numa intenção apologética. Esse resultado terá sido alcançado bem mais pelo trabalho designado nos textos.

            É necessário apresentar uma guinda metodológica de certa importância. Na comparação entre evangelhos “que se tornaram apócrifos” e evangelhos “que se tornaram canônicos” é necessário observar com mais atenção um fenômeno que somente a pesquisa mais recente constatou: o fenômeno da tradição “oral secundária”. Em muitos casos, aos textos escritos subjazem tradições orais que, ao lado desses textos, continuam a sua caminhada. Antes de tudo, porém, na Antiguidade, também materiais colocados por escrito são muitas vezes transmitidos oralmente. No caso dos evangelhos canônicos isso está claro – basta lembrar sua regular leitura na liturgia. As narrativas dos evangelhos canônicos passam para uma nova fase, isto é, para a tradição oral secundária, na qual novamente estão abertas à livre transformação e, antes de qualquer coisa, à acomodação harmonizadora das diversas versões. Por esse atalho, os evangelhos canônicos também poderão ter exercido influência sobre a redação de textos apócrifos.

            Na escolha de textos, teremos que proceder de modo programático, sem ceder demasiado às limitações provenientes dos problemas de definição e da situação das fontes. Isso significa, primordialmente, que também devemos levar em conta trechos escolhidos dos textos de Nag Hammadi. Critérios para uma análise mais ou menos detida de um texto (ou também para ignorá-lo) são idade, conteúdo, significado, grau de notoriedade e sua história posterior. As visões de conjunto, em parte sumárias, poderão incentivar as leitoras e os leitores e encetar ulteriores viagens de descobertas, num mundo fascinante e em parte por demais desconhecido dos Evangelhos Apócrifos.

CHH

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Você quer saber mais? 
KLAUCK, Hans-Josef. Evangelhos Apócrifos. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

APÓCRIFOS II: os proscritos da Bíblia/compilados por Maria Helena de Oliveira Tricca – São Paulo: Editora Mercuryo, 1992.

APÓCRIFOS III: os proscritos da Bíblia/ Tradução do alemão gótico por Ivo Martinazzo. Compilados por Maria Helena de Oliveira Tricca – São Paulo: Editora Mercuryo, 1995.

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Plínio Salgado.