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sábado, 4 de maio de 2013

Joseph Stalin: o “Tio Joe” da Rússia. Parte III.



Joseph Stalin testando um fuzil de franco atirador Mosin-Nagant. Imagem: http://www.gazeta.ru/column/latynina/3360598.shtml

Chegamos a Terceira Parte de nosso estudo sobre Joseph Stalin e sua ideologia desumana, mas que foi alimentada pelo governo dos Estados Unidos durante toda a Segunda Grande Guerra Mundial. Fato este que os levou a criar a alcunha de “Tio Joe” para tornar o Homem de Aço Soviético um pouco mais amistoso aos olhos do povo estadunidense. Nesta parte de nosso estudo veremos a situação da população diante da estatização das fazendas e das indústrias, o antissemitismo de Stalin, os expurgos e os milhões de russos mortos devido à personalidade paranóide de Stalin ou será “Tio Joe”?

Gulags do inferno

A frase “inferno na terra” poderia muito bem ter sido cunhada para descrever a situação das fábricas estatais da Rússia Pós-revolução, quanto aos gulags (abreviatura de Glávnoie Upravliênie Láguerei, ou Administração Geral dos Campos), nenhuma descrição desta terra poderia traduzir a miséria que geravam. Em geral ficavam nas regiões mais áridas da União Soviética, como a Sibéria, onde a temperatura caía frequentemente abaixo de zero; mesmo assim, os prisioneiros tinham de viver em cabanas sem nenhum tipo de aquecimento e eram obrigados a construir estradas, canais e fábricas. Tinham de sobreviver com a mais magra das dietas, e o menor erro poderia custar-lhes a vida ou espancamento até a morte.

Para piorar as coisas, só uma parte mínima dos internos era realmente de criminosos no sentido antigo da palavra – os outros eram presos políticos. Milhares de médicos, professores, cientistas e artistas foram mandados para os campos de trabalhos forçados por se “oporem” ao regime e, se um membro de uma família fosse encarcerado, e eram  prováveis que outros parentes também fossem detidos e condenados.

Stalin o antissemita

Stalin também alimentava ideias antissemitas e, quando subiu ao poder, a pressão sobre os judeus aumentou. Eliminados dos postos de comando do regime, os judeus eram vítimas de uma vigilância implacável da polícia secreta. “É verdade”, escreveu Trótski a Bukhárin no dia 4 de março de 1926, “é possível que em nosso partido, em Moscou, nas células operárias, haja agitação antissemita sem impunidade?”

Mas Stalin não se importava com judeus ou até mesmo com seu próprio povo. Longe disso. Quanto mais mortes e destruição, tanto melhor, era o que parecia. “O maior de todos os prazeres”, disse ele certa vez a uma de suas vítimas, “é marcar o inimigo, preparar tudo, vingar-se inteiramente e depois dormir”. Para ele, o fim justificava os meios, e o que ele tinha em mente era submeter um povo inteiro à sua vontade apenas.

Os grandes expurgos

Entre 1933-1939, Stalin começou a expurgar o partido de todos os que haviam se oposto a ele nos últimos anos. Alguns eram inimigos de verdade, mas ele também começou a perseguir inimigos imaginários, deixando somente homens subservientes a seu redor, aqueles apavorados demais para levantar a voz ou dizer o que pensavam.


Corpos de várias pessoas mortas nos expurgos de Stalin e enterrados em grandes covas comuns. Imagem: http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=9975

Foi também durante esse período que Stalin começou a criar uma tropa de elite da política secreta, chamada NKVD ( Naródni Kommissariat Vnutriênnikh Diel, ou Comissariado do Povo do Interior). Em troca dos serviços prestados por esses capangas, ele dava apartamentos, casas de campo, carros e choferes, mas para que nenhum deles traísse sua confiança e para mantê-los na linha Stalin assassinava um punhado deles todo ano.

Em 1934, no décimo sétimo congresso do partido, mais de trezentos delegados estavam tão descontentes com Stalin que votaram contra ele para o cargo de líder do partido, apoiando Serguei Kirov (Líder do Partido Comunista de Leningrado). Stalin ficou arrasado, enfurecido  com o que considerava uma traição em massa, e, menos de um ano depois, Kirov foi assassinado em circunstâncias misteriosas, provavelmente por ordem de Stalin, embora não houvesse nenhuma prova que o ligasse a essa morte. Stalin assumiu o controle da investigação que se seguiu e imediatamente transformou dissensão no congresso do partido numa grande conspiração contra o Estado, conseguindo assim o pretexto de que necessitava para se livrar de mais oponentes.

 A campanha de terror que se seguiu culminou em julgamentos espetaculosos que duraram de 1936 a 1938, em que mais de mil delegados foram executados ou mandados para os gulags e quase todos os membros do Comitê Central forma fuzilados. Entre eles estavam líderes como Bukhárin e kámeniev, que foram torturados para confessar crimes ridículos antes de serem julgados e fuzilados. Além disso, entre 1934 e 1938, estima-se que pelo menos sete milhões de pessoas “desapareceram”, entre as quais os oficiais de escalão superior do Exército Vermelho (Stalin matou três dos cinco marechais, quinze dos dezesseis comandantes, sessenta dos sessenta e sete comandantes de corpos do exército e todos os dezesseis comissários), para não falar dos oficiais da Marinha Vermelha. Caminhões que ostentavam letreiros como “carne” ou “legumes e verduras” saíam carregados de vítimas, que eram despejadas em buracos cavados nas florestas próximas. As vítimas eram alinhadas ao lado dos buracos e fuziladas para que os corpos caíssem nos “túmulos”.

Ficava cada vez mais claro que Stalin gostava de saber exatamente como seus oponentes tinham morrido, e vários de seus homens de confiança faziam encenações para mostrar como as vítimas haviam implorado pela vida antes de serem fuziladas.

Com o passar dos anos Stalin foi se tornando cada vez mais cruel e cada vez mais paranoico, e até alguns daqueles homens e mulheres com os quais tinha tido, se não um contato pessoal íntimo, ao menos um grande companheirismo político, acabaram mortos. Ele não confiava sequer nos membros da própria família. Um grande número de membros de sua família foram executados por “traição” a ele ou ao Estado. A família dos companheiros políticos mais próximos também não estava a salvo.

Em 1939, o grosso dos expurgos políticos de Stalin já tinha sido feito, mas isso não significou o fim da morte e da destruição na Rússia. Apesar de ter assinado um tratado de não agressão com Hitler, que, na verdade, aprovava a invasão da Polônia pelos alemães.

A invasão nazista

No dia 22 de junho de 1941 o Führer lançou a Operação Barbarrossa e invadiu a União Soviética. Stalin foi pego de surpresa e, em virtude dos expurgos no Exército Vermelho e na Marinha Vermelha durante a década de 1930, suas forças armadas não tinham a liderança necessária para enfrentar aquele ataque. Por causa disso, o Exército Vermelho foi praticamente aniquilado pelos nazistas, que estavam mais bem treinados, mais bem equipados e mais bem dirigidos. Em menos de seis meses, quase 4 milhões de soldados russos tinham sido capturados, um número enorme se pensarmos o que só foram necessários 3 milhões de soldados alemães para isso.

Stalin foi implacável, atormentando seu próprio povo. Ordenando às unidades especiais da NKVD que seguissem a esteira das tropas russas, todo soldado surpreendido na tentativa de desertar era fuzilado pela polícia secreta. Stalin também fez saber que se algum membro das forças armadas decidisse se render ao inimigo, a família dele perderia as pensões do Estado, ou seria presa e executada.

Ascensão do Exército Vermelho

Em 1945, o Exército Vermelho estava em ascensão e fez as forças de Hitler recuarem tanto que, em maio, as tropas russas entraram em Berlim. Foi um grande momento, que seria estragado por Stalin, que, temeroso de que suas tropas se deixassem seduzir por ideias ocidentais, ordenou a todos os que estivessem voltando da Alemanha que fossem enviados aos gulags para reeducação.

Além disso, os cidadãos soviéticos repatriados para a Rússia que haviam sido detidos em prisões e campos de trabalhos forçados estrangeiros foram considerados traidores por Stalin e, assim que desembarcavam dos navios e trens, eram levados para grandes pátios onde eram executados, ou enviados para gulags. Família após família foi varrida da face da Terra, geração após geração.

Dividindo o mundo

O ocidente também não foi poupado do sofrimento, pois assim que a Segunda Guerra Mundial terminou teve início a Guerra Fria, que duraria quarenta anos, com a “Cortina de Ferro” descendo sobre a Europa Oriental. Todos os países ocupados pelos russos transformaram-se em “Estados-satélites”, governados por fantoches que prestavam contas diretamente a Stalin por cada decisão tomada. Stalin quis isolar a Rússia e os outros países do bloco oriental daquilo que ele considerava contaminação ocidental; seu sonho tinha se transformado em realidade. O destino da Rússia estava selado.

Quarto Plano Quinquenal

Em 1946, Stalin iniciou seu quarto plano quinquenal, que, como antes, exigia uma produtividade cada vez maior dos cidadãos da Rússia. Ninguém conseguia atingir as metas e, a despeito de suas circunstâncias desesperadoras, apesar das ameaças feitas contra eles, os russos não se insurgiram contra seu líder; pelo contrário, cultuavam-no como se fosse um deus. Quanto pior Stalin tratava o povo, tanto mais este parecia respeitá-lo. Era como se Stalin fosse um deus e o stalinismo, um novo tipo de religião.

Stalin o Paranóico

Embora tudo parecesse estar de acordo com o gosto de Stalin, embora tenha conseguido vencer os alemães, embora tivesse livrado de todos os oponentes, ele estava cada vez mais infeliz e mais paranoico. Via inimigos onde eles não existiam e, a certa altura, empregou quinze pessoas para provar sua comida, pois tinha medo de ser envenenado. Suas aparições em públicos se tornaram cada vez mais raras.
Em 1949, outra onda de expurgos stalinistas varreu a nação e todos os suspeitos das menores transgressões foram executados.

Stalin e a paranóia antissemita II

As tendências antissemitas de Stalin também vieram à tona durante o ano de 1949, tanto em sua vida pessoal quanto no país como um todo. Em fevereiro de 1953, Stalin começou a construção de quatro enormes campos de prisioneiros no Casaquistão, nas regiões árticas e na Sibéria. A maioria dos pesquisadores acha que, fazendo um eco medonho à Solução Final de Hitler, esses campos provavelmente indicavam uma nova onda de terror, dessa vez dirigida exclusivamente contra os judeus, pois desde 1948, Stalin tinha avançado em sua campanha antissemita, fechando teatros, sinagogas, editoras e jornais judeus. Sua campanha também tinha como alvo médicos judeus, acusados de tentar envenenar os pacientes não-judeus ou de  matá-los na mesa de operação. Era paranoia levada ao extremo, especialmente quando, depois de fazer um check-up com seu próprio médico, o professor Vinogradov, e não gostando dos resultados, mandou prender o professor por ser um “agente do sionismo internacional”. Isso levou indiretamente à morte de Stalin, pois, quando ele teve de fato um derrame em sua casa de campo, os médicos que foram chamados a seu leito não conheciam seu histórico médico e não puderam fazer muita coisa para salvá-lo.



No dia 5 de março de 1953, às 21h50, Joseph Stalin o “Tio Joe” para os estadunidenses morreu, segundo alguns, por causa de uma hemorragia cerebral, e segundo outros, de envenenamento. Alguns choraram e lamentaram publicamente a perda do “Tio Joe”, como se ele tivesse sido o mais benevolente dos patriarcas; outros saudaram a morte dele como um milagre, pois durante seu governo aproximadamente 20 milhões de cidadãos perderam a vida, dos quais cerca de 14 milhões de fome; 1 milhão foi executado por crimes políticos e pelo menos 9 milhões, exilados ou encarcerados nos gulags.

Agora que chegamos ao fim de nosso estudo sobre Stalin, cabe a você leitor interpretar o lugar que Joseph Stalin vulgo “Tio Joe” merece ser lembrado no rol da história: como herói, ou como vilão? Fica um conselho aos meus leitores para que analise Stalin pelo seu tempo, pela realidade em que vivia, como e onde nasceu, como cresceu, qual sua formação, quais os métodos usados por ele para ascensão política e desse modo possam vocês por vocês mesmos realmente saberem quem foi Stalin pelo legado que ele deixou para seu povo.

Para entender melhor o assunto tratado não deixe de ler os textos anteriores:



04/05/2013

Leandro Claudir é Acadêmico de História pela Universidade Luterana do Brasil, Técnico em Informática pela QI Escolas e Faculdades. Habilitado em Liderança de Círculos de Controle de Qualidade Empresarial pelo Senai. Criador e Administrador do Projeto Construindo História Hoje. IBSN- 7837-12-38-10.

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Você quer saber mais? 

KLEIN, Shelley. Os ditadores mais perversos da História. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2004.





































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