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domingo, 10 de fevereiro de 2013

História, um acontecimento em si.




Construction History Society. Imagem: http://www.constructionhistory.co.uk/

Estava pensando em algo relevante para abordar no dia de hoje, e achei nada mais justo do que um blogue que trata da História, falar sobre as raízes que ligam o “nós humanos” com “nossas histórias de vida.” Pois todos somos sujeitos na História, todos, sem exceção alguma, pois nascemos, vivemos e durante essa vida produzimos ligações materiais e pessoais e isso nos torna humanos e então após um período morremos e deixamos um legado. Esse legado pode como os de alguns grandes homens da humanidade dos quais cito  nosso compatriota Alberto Santos Dumont perdurar para sempre ou enquanto formos à civilização que somos.

“No começo deste século, nós, os fundadores da Aeronáutica, havíamos sonhado com um futuro pacífico e grandioso para ela. Mas a guerra veio, apoderou-se de nossos trabalhos e, com todos os seus horrores, aterrorizou a humanidade.”

Alberto Santos Dumont

Nestas palavras vemos o homem histórico Santos Dumont, expressar sua insatisfação com o mal uso de seu maravilhoso invento. Muitas vezes esse é um fardo que os grandes ícones da história humana acabam carregando por décadas, séculos e quem sabe milênios após sua morte, devido a interpretações erradas de suas ideias e de seus inventos.

Outras pessoas aparentemente não deixam legado, pois após duas gerações são esquecidos em sua família. Mas será isso realmente uma verdade absoluta? Pois, ainda que seus bisnetos e tataranetos não se lembrem dele, não foi devido a ele que seus descendentes tornaram-se seres históricos capazes de criar suas próprias histórias de vida e inclusive fazer a diferença nas horas mais obscuras da história. Por isso eu sempre digo:

“Pode ser uma pequena fagulha de fogo em um pequeno pedaço de palha, mas trará suas consequências!”
Leandro Claudir

No inicio de minha vida estudantil e inclusive acadêmica, também considerava somente aqueles que deixaram seus nomes marcados na pedra ao longo de uma estrada muito movimentada, aonde todos poderiam ler e saber quem ele foi, e os seus grandes feitos para nossa vila, povo, nação etc. Mas nessa jornada em busca do conhecimento reconheci que haviam pessoas que seus nomes haviam sidos esquecidos, heróis e heroínas desconhecidos, mas mesmo que desconhecidos seus feitos não foram menores do que aqueles “escolhidos”, para serem lembrados por gerações sem fim.

Posso citar dentre esses nossos heróis anônimos, os heróis negros da Revolução Farroupilha, conhecidos como Lanceiros Negros, considerados nas palavras de Giuseppe Garibaldi:

“os maiores guerreiros de todos os tempos.”

Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi, foi herói da unificação italiana, que lutou ao lado dos Farrapos, e ainda disse mais a respeito de nossos Lanceiros Negros. Acompanhemos suas palavras:

“Nunca vi um corpo militar lutar com tanta bravura como os destemidos guerreiros chamados Lanceiros Negros, que lutavam sem armas de fogo, mas de posse de uma lança um pouco maior do que aquelas chamadas comuns.”

Giuseppe Garibaldi

Relembro aqui aos amigos que nós, brasileiros, não sabemos sequer o nome desses grandes guerreiros chamados Lanceiros Negros. Quando Garibaldi voltou para a Itália, levou um quadro no qual estavam os lanceiros negros e contou sobre sua bravura lutavam com lanças e não com armas de fogo. Agora faço uma pequena pergunta aos meus amigos leitores. Alguém sabe o que aconteceu quando terminou a Revolução Farroupilha com os bravos guerreiros chamados lanceiros negros? 
A Revolução Farroupilha prometia dar liberdade aos escravos que batalhassem a seu favor. Mas, no final de 1844, após nove anos em guerra, a província desgastada, e a guerra parecia perdida. Com o intuito de dar um fim ao conflito, na madrugada de 14 de novembro, foi dada a ordem, pelo poder imperial, para que tirassem as armas dos negros. Então, durante a madrugada, as tropas imperiais, entraram no Campo de Porongos, ( Conhecida como a "Surpresa dos Porongos", ocorreu na localidade de Porongos, hoje parte do município de Pinheiro Machado.  Ao final do combate o campo de batalha dos Porongos ficou juncado com 100 mortos farroupilhas.) e o corpo dos lanceiros negros, desprotegido, foi então dizimado.

Lanceiros Negros. Imagem: La Pampa Gaúcha.

Os lanceiros foram assassinados covardemente pelo poder imperial, porque entendiam que, se cumprisse o acordo firmado entre os farrapos e os negros, nós estaríamos, segundo eles diziam, acendendo a chama da liberdade, e todos os negros teriam que ser libertados. O que vemos foi que a partir daí houve um completo e total abandono pela historiografia aos nossos heróis (ainda que heróis para nós gaúchos e inimigos para o exército imperial) foram dizimados para que seu legado, seus nomes, seus feitos fossem esquecidos, pois não é isso que os vitoriosos fazem? Não são eles que escrevem a história?

Vejamos o que diz o escritor e jornalista inglês, George Orwell:

"A história é escrita pelos vencedores."

George Orwell
  
Se presumirmos  que a História que chega até nós através dos livros, revistas, periódicos e demais meios de informações é nada mais do que aquilo que interessava convir aos vencedores nas batalhas da vida, temos um grande problema em mãos.


O que me faz supor que talvez seguindo essa premissa nossos Heróis na realidade são os Vilões e os Vilões são os verdadeiros Heróis. Isso me faz pensar sobre Santos Dumont, e sua máquina mais leve que o ar que tinha por principio conduzir a evolução tecnológica ao passo de alcançarmos os céus, mas ela foi usada deverás muito mais para destruir vidas humanas do que para salvar! Então seria Santos Dumont um vilão, ou este é apenas um conceito arcaico para serem consultados pela Filosofia Histórica? E o que dizer dos Lanceiros Negros da Revolução Farroupilha? Seriam meros mercenários somente interessados em suas cartas de alforria e na promessa de terras vindas da República? Ou seriam homens lutando simplesmente para terem o direito de serem homens, livres, respeitados e honrados pela bravura demonstrada em campo de batalha por quase dez longos anos?

Não estou julgando a história, mas refletindo sobre nossos conceitos sobre quem somos como civilização. Talvez deveríamos nos preocupar não em manter a auréola santa sobre nossos heróis e nem colocar chifres em nossos vilões conforme aprendemos com a historiografia. Seria com certeza muito mais produtivo para o historiador escapar pela tangente na hora de rotular os personagens históricos, pois estamos falando de pessoas de outros tempos e culturas. Pessoas que não podem ser avaliadas segundos os parâmetros de nossa sociedade atual. Pois como nos diria Eric John Ernest Hobsbawm:

"Eles eram, homens de seu tempo e de seu espaço geográfico e social."

Eric John Ernest Hobsbawm

Acredito que com as palavras de Hobsbawm fechasse bem está pequena elucidação sobre as questões referentes à História como um acontecimento em si. E devido a essa razão está sujeita a muitas influências e com elas o julgamento futuro dos eventos passados, bem como sua interpretação.

Leandro Claudir, é Acadêmico de História pela Universidade Luterana do Brasil, Técnico em Informática pela QI Escolas e Faculdades. Habilitado em Liderança de Círculos de Controle de Qualidade Empresarial pelo Senai. Criador e Administrador do Projeto Construindo História Hoje.

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