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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Questões acerca do Pelagianismo. Parte I: Pelágio e a perfeita natureza humana.



Pelágio da Bretanha. Imagem: 
Gram Enciclopédia Rialp. Pelágio y Pelagianismo. Tomo XVIII. 


No decurso de dois mil anos o cristianismo passou por diversos acontecimentos que suporão poder abalar a unidade da fé cristã. Desde as grandes perseguições realizadas pelos imperadores pagãos de Roma aos grandes debates teológicos com supostas novas e singulares ideias sobre a interpretação das Escrituras Sagradas. Neste estudo em particular abordarei com vocês o surgimento e desenvolvimento do Pelagianismo e suas implicações no cristianismo do recentemente convertido mundo romano. Convido a todos que embarquemos nesse estudo histórico sobre os diversos ramos cristãos que desejaram assumir a frente da Igreja como um todo durante sua aurora.

Após o ano de 410 d.C, o Império Romano teve suas fundações abadas pela invasão dos Visigodos Arianos comandados pelo Rei Alarico, que destruíram e saquearam Roma. Neste ínterim as famílias nobres de Roma viram-se momentaneamente empurradas para as portas ao Sul do Império. E, como podemos ver, a chegada de milionários excêntricos causou grande agitação ao Norte da África Romana.

Pelágio, um homem que se mudara com seus vizinhos e parentes cristãos, levaria sua controvérsia que viria a lhe garantir uma reputação realmente internacional. Sabemos pouco sobre Pelágio, ele nascerá na província da Grã-Bretanha e havia indo para Roma, aonde pós os pés na Itália pela primeira vez em 383 d.C. Pelágio permaneceu em Roma aonde levava uma vida de um sério leigo batizado por mais de trinta anos.

Vivendo em uma cidade constantemente visitada por monges do leste do Mediterrâneo, Pelágio observava de perto as perturbações que as questões teológicas de todas as partes do mundo influíam na Roma Cristã. Acima de tudo, esse leigo e seus partidários teriam ouvido padres manterem a mente aberta a respeito de questões que um bispo africano teria passado a tratar como encerradas desde muito antes.  Pelágio em Roma, chegou ao apogeu num mundo em que os leigos cristãos cultos exerciam mais influência do que em qualquer época anterior.

Homens e mulheres leigos haviam se tornado apóstolos destacados do novo movimento ascético: eram os destinatários ilustres de cartas de Paulino de Nola, Agostinho e Jerônimo; suas concepções teológicas eram respeitadas, sua proteção era buscada e suas mansões eram postas à disposição de santos e peregrinos vindos do mundo inteiro. Pelágio havia se juntado a esses homens em discussões sobre São Paulo. Tais discussões tinham constituído a base de suas Exposições das Cartas de São Paulo, a fonte mais segura de suas ideias teológicas, e, dirigido-se a tais homens, ele havia aperfeiçoado uma arte idealmente apropriada para transmitir suas ideias – a difícil arte de escrever cartas formais de exortação. Essas cartas eram admiradas nos mesmo círculos que deviam ler Jerônimo e Paulino de Nola. As cartas de Pelágio se destacavam por ser “bem redigidas e diretas”, por sua “facúndia” e sua “acrimônia”.

Com efeito, passamos a conhecer Pelágio muito melhor pela qualidade literária de suas cartas, sobretudo pela acrimônia que deu o tom de todo o movimento pelagiano, do que o conhecêramos antes, pelas proposições teológicas em função das quais ele ganhou fama de herege.

Em suas cartas podemos ver uma declaração deliberada e fartamente divulgada de suas mensagens. Suas mensagens eram simples e apavorantes como o exemplo que se segue: “já que a perfeição é possível para o ser humano, ela é obrigatória.” Pelágio nunca duvidou, nem por um momento, de que a perfeição fosse obrigatória; seu Deus era, acima de tudo, um Deus que ordenava obediência sem questionamento.


Pelágio da Bretanha. Imagem: Gram Enciclopédia Rialp. Pelágio y Pelagianismo. Tomo XVIII. 

Um Deus que fazia os homens executarem suas ordens e condenaria ao fogo do inferno qualquer um que não cumprisse uma só dentre elas. Mas o que Pelágio estava interessado em defender, com fervor especial, era que a natureza humana fora criada para que se atingisse tal perfeição: “Toda vez que tenho de falar em ditar normas para o comportamento e a conduta de uma vida santa, sempre assinalo, antes de mais nada, o poder e o funcionamento da natureza humana, e mostro o que ela é capaz de fazer (...), para não dar impressão de estar desperdiçando meu tempo, chamando as pessoas e enveredarem por um caminho que elas considerem impossível percorrer.”

Pelágio dispunha-se a lutar por seu ideal e, no mundo gregário do baixo-império, nunca estava sozinho. Atraía protetores, dentre eles Paulino de Nola. Dispensava discípulos, especialmente os jovens de boa família que chegavam a Roma, como ele próprio, para fazer carreira como advogado na burocracia imperial.

Esse mundo singular, meio universidade, meio serviço público, era muito mais conhecido de Alípio, que vivera nele. A formação jurídica produzia debatedores habilidosos e excelentes especialistas em tática; levara os jovens sérios a se preocuparem sinceramente com os problemas da responsabilidade e da liberdade e, o que não é de surpreender, a se intrigarem com o Deus do Velho Testamento, cuja justiça, em Seus castigos coletivos e Seu “endurecimento” deliberado do coração dos indivíduos, estava longe de ser óbvia. Celéstio, que estava fadado a ser o enfant terrible do movimento, era justamente um desses jovens: rapaz de família nobre, cedo se impressionou com Pelágio; abandonou o mundo e escreveu cartas urgentes Sobre o mosteiro a seus pais.

Pelágio não tinha paciência com a confusão que parecia imperar a respeito da capacidade da natureza humana. Ele e seus adeptos escreviam para homens “que queriam mudar para melhor” Pelágio recusava-se a considerar que essa capacidade de autoaperfeiçoamento tivesse sido irreversivelmente prejudicada; ideia de um “pecado original”, capaz de tornar os homens incapazes de não pecar ainda mais, parecia-lhe totalmente absurda.

Continua...

Leandro Claudir

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Você quer saber mais? 


ANATALINO, João .Conhecendo a Arte Real: a maçonaria e suas influências históricas e filosoficas. São Paulo: Editora Madras. 2007.

BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.


ALTANER, B; STUIBER, A. Patrologia – Vida e Doutrina dos Padres da Igreja. 2ª ed. 
São Paulo: Editora Paulinas, 1972. 

CÂMARA, J.B. Apontamentos de História Eclesiástica. 3ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 
1957. 


CRISTIANI, M. Breve História das Heresias. São Paulo: Editora Flamboyant, 1962. 
GOMES, C.J. Antropologia dos Santos Padres. 3ª ed. São Paulo: Editora Paulinas, 1985. 

GRESHAKE, F.  Geschenkte Freiheit Einfuhrung in die Gnadenlehre. Heder: Freiburg 
Basel-Wien, 1981.  

JEDIN, H. Nanual de História de 1ª Iglesia. Tomo II. Barcelona: Editora Herder, 1980. 
DICIONÁRIO DE FILOSOFIA. Pecado. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1982. 

GRAM ENCICLOPÉDIA RIALP. Pelágio y Pelagianismo. Tomo XVIII. Madrid: Ediciones 
Ralp, 1989. 

REALE, G; ANTISERI, O.  História da Filosofia Antiguidade e Idade Média. vol. 1. 
Coleção História da Filosofia. São Paulo: Editora Paulinas, 1990.  
  























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Plínio Salgado.