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sexta-feira, 1 de junho de 2012

A destruição do Homem


"As intrínsecas questões políticas, de ordem internacional, que avassalam os povos e lançam as nações em perplexidade diante do dilema da paz e da guerra, originam-se de angústias sociais que parecem assinalar o período de transição em que a humanidade se esforça por adaptar-se a novas condições de vida, conseqüentes do desenvolvimento da técnica moderna". 

No fundo, o tema que serve de objeto às controvérsias dos dois mundos - o mundo ocidental e o mundo oriental, esse tema que se interpreta segundo dois critérios opostos (o do capitalismo burguês e liberal em contrapartida ao socialismo evolucionista ou revolucionário) é um tema cujas raízes se embebem num conceito de moralidade. 

A luta que se desenha nas assembléias das Nações é uma luta entre duas concepções de vida. Enquanto o capitalismo industrialista e comercialista pretende sobreviver à inexorável revolução social mediante a imposição de um critério liberal aos governos e a aplicação de processos que constituem uma espécie de tecnocracia, tudo baseado num conceito materialista do homem e da sociedade, o socialismo por outro lado sacode as estruturas da chamada civilização ocidental, servindo-se do espírito de revolta que leva ao desespero as multidões menos favorecidas no que concerne à distribuição dos bens terrenos. 

Ambos - o capitalismo e o socialismo - são intrinsecamente materialistas. A diferença entre um e outro está em que o primeiro não toma conhecimento de outros fins do homem e da sociedade, além dos meramente temporais, ao passo que o socialismo nega terminantemente quaisquer outros fins sociais ou humanos que não seja aqueles mesmos fins temporais de que o capitalismo cogita. Além dessa diversidade, cumpre notar que o materialismo capitalista não objetiva nenhuma finalidade moral, ao passo que o materialismo socialista preocupa-se com o ideal da justiça, trazendo, pois, um conteúdo moral, ainda que essa moral tenha caráter exclusivamente utilitário. 

Difícil, portanto, será as democracias capitalistas sustentarem-se no curso da atual transformação do mundo. O materialismo será destruído pelo próprio materialismo e essa civilização de que tanto nos orgulhamos - se não se embasar em alicerces espiritualistas e cristãos - não encontrará nenhum meio de manter-se. 

Analisando a fundo as estruturas da civilização ocidental, verificamos que elas se deterioram por motivos incontestavelmente morais. E a causa mais direta desse esboroamento reside na incapacidade do homem do nosso tempo em se afirmar na plenitude da sua virilidade.

Se os Estados não sabem ou não podem governar-se e se entregam ao fatalismo dos acontecimentos históricos internacionais, que diretamente influem no próprio teor de sua vida interna, esse fato não deve causar admiração numa época em que o mesmo homem também não sabe mais governar-se. 

A incapacidade de governo próprio em cada pessoa que constitui a coletividade nacional é uma conseqüência da inversão dos valores, com predominância de uma sensualidade grosseira, que leva o homem do nosso tempo à mais degradante situação de um comodista fatalista, o qual impede de rebelar-se contra as imposições crescentes de um industrialismo ganancioso. 

Mil instrumentos de dominação técnica amarram o homem dos nossos dias ao carro vitorioso da produção em massa. Falta a esse mísero ser do século XX a capacidade viril para quebrar as próprias algemas. Na classe média - onde se encontram aqueles que conduzem as massas proletárias pelos caminhos da revolução - agitam-se, bracejam, desesperam-se indivíduos cujos orçamentos domésticos são permanentemente deficitários. O aumento dos salários, a principiar pelos que vivem do erário público (senadores, deputados, ministros, secretários de Estado, diretores de repartição, chefes de seção, oficias do Exército e da Marinha, magistrados, professores, até aos contínuos de repartição e praças) determina inapelavelmente o recurso da inflação, de que decorre o encarecimento das utilidades. Empobrecido o Estado, a sua miséria reflete-se na exigüidade dos transportes, na deficiência das vias férreas, das estradas de rodagem, dos navios mercantes, o que por sua vez determina a decadência das zonas rurais pela falta de estímulo e de assistência à agricultura. Como conseqüência, temos os espaços vazios, a evasão dos campos, a superpopulação dos centros urbanos, o que vem agravar o custo de vida. 

Nessa situação de angústia, o homem da cidade é um desesperado; mas esse desespero eleva-se ao mais alto grau se considerarmos a tirania dos costumes burgueses, que forçam o chefe de família a curvar a cabeça diante das exigências da esposa, das filhas, as quais perderam completamente o bom senso cristão da vida, porfiando com a família do

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.