-

-

terça-feira, 24 de abril de 2012

Somos os verdadeiros Revolucionários*

Algo devemos afirmar confiantes: somos revolucionários. Poder-se-ia dizer revolucionários em vários sentidos, mas em um com maior força: somos contrários aos valores e o modo de proceder imprimidos pelo espírito burguês; é este espírito inimigo da tradição, inimigo de tudo que é superior em matéria de espírito. Quando um autodeclarado comunista imputa-nos o qualitativo de reacionários devemos gracejar, lançar-lhes a galhofa: “eis vós, amigos da antitradição, beneficiários das filosofias e do modo de proceder pós-revolução francesa; ressentidos, invejosos da burguesia, não são vós os materialistas par excellence? São vós que legitimais o status quo... vossa filosofia só é possível pelo contato com os valores burgueses; nós, ao contrário, nada temos a ver com isso.”
Devemos assim dizer, pois somos os verdadeiros revolucionários. O fato é que o modo de pensar, as atitudes adotadas pela esquerda – se devemos nos remeter ao conceito original -, são possibilitadas pelo modo de pensar burguês. E o fato é também que a esquerda pouco questiona esse modo de pensar, na verdade, o legitima. Ora, remetendo ao conceito original de esquerda e direita, i.e., a distinção entre jacobinos e girondinos, a própria burguesia, juntamente com a esquerda comunista devem ser consideradas segundo esse princípio, de esquerda; a última, sobremodo, por não fazer um corte radical para com os valores burgueses. Na verdade, sua revolução só se torna possível com estes valores, pois eles são necessários como condição para a “revolução”. Vejamos vários exemplos; não precisamos ir longe. Basta pensar no combate da esquerda a tudo aquilo que significa uma tradição, tal como o estudo do latim clássico, do grego clássico e das filosofias platônica e aristotélica, da patrística e escolástica, não é o mesmo combate travado pela burguesia? Uma vez que o estudo dessas línguas e o período filosófico remetem a uma época onde efetivamente a burguesia, entendida não como classe, mas sim como estado de espírito, ainda não dominava? Vejamos a ênfase que se dá ao inglês, língua tratada como universal, é a língua do mercado e da globalização; o mercado e o modo de pensar norte-americano são imprimidos aos mais distintos povos por meio desta língua. A academia, o comércio, a informática; possuem a maioria de seus termos em inglês.
Com efeito, não somente no que diz respeito à língua podemos ver esta característica. As práticas políticas contemporâneas e o consequente modo de fazê-la são beneficiados pelo Estado Moderno. No Brasil, sobremodo, há o fenômeno da esquerda reacionária. Isto significa que a nível de declaração de ideias, por assim dizer, temos uma “esquerda”, mas a nível de privilégios trata-se de uma classe que defende, para si, todos os tipos de regalias. Assim, do alto de seus postos de juízes, professores universitários, promotores de justiça e jornalistas opinam sobre o bem e o mal da sociedade brasileira; mas são eles reativos a qualquer mudança que possa significar um bem à população e uma relativa perda de seus próprios privilégios. Quando, nas eleições de 2010, houve a possibilidade do PSDB - que não se diferencia substancialmente do PT - subir ao poder, os reacionários da esquerda, temendo perder regalias, de forma desesperada, assinaram abaixo-assinados: era a reação! “Que continue o PT! O PSDB pode anular nossos privilégios”! E para quê sempre lutaram eles senão por privilégios?
O modus operandi contemporâneo de lutar pelo comunismo só se dá, num estado democrático, tendo em vista determinados direitos. A pressão que a “Sociedade Civil”, por meio dos movimentos sociais, exerce nas esferas estatais reivindicando “direitos” - o aborto é um desses “direitos” reivindicados - apenas é possível por meio da democracia, ela mesma lhes pressupondo; e só é possível numa democracia burguesa, utilizando-nos de termo ao gosto dos marxistas. A luta partidária e todo o lodo que enseja nos bastidores da política pluripartidária não seria possível num outro tipo de democracia; seria possível, é verdade, outra forma de corrupção, mas, como já afirmado, o modus operandi de luta eurocomunista que foi adotado no Brasil após o chamado regime militar é possibilitado pelo pluripartidarismo. Nele, a exemplo do que ocorreu na Itália, não é incoerente o alinhamento de pretensos democratas cristãos ao partido comunista. A política brasileira, prestemos atenção, está cheia destes exemplos. Pululam incoerências aqui e ali; não é vergonhoso ao PT seu alinhamento a Sarney e a Collor, antigos adversários.
Este é o modo de fazer política daqueles que se consideram revolucionários; isto se dá porque não o são de verdade; nós o somos... somos verdadeiros revolucionários. A nossa maneira de pensar a política diverge em todas as maneiras da atual, que é desprovida de qualquer maneira ética de fazê-la, os fins justificando os meios. A ética, ademais, como disciplina normativa e esfera “alargada” da moral, é aquilo que possibilita o bem-viver dos homens. Mas isto é algo perdido e esquecido pelo modo político moderno e contemporâneo, algo que nós, preocupados com o bem estar do homem, pensamos ser essencial.
Quando as feministas exigem o direito de “decidir sobre o próprio corpo” – o que podemos traduzir sacrifício da criança-, isto significa o retorno a algo que ocorria em um período pré-cristão, já que, em Roma, por exemplo, o feto era considerado parte do corpo da mulher.
Com efeito, as diversas leis que querem dar a terceiros o direito de decidir sobre a vida e a morte das crianças representam um atraso considerável; é fazer-nos retornar a um período bárbaro, pré-cristão. Ainda há a destruição da cultura por meio da negação daquilo de melhor que há, bem como a justificação de um modo de fazer política viciado, que é a maneira encontrada pela esquerda para reagir e fazer uma contrarrevolução.
*Rafael Sandoval - Presidente da FIB no Distrito Federal 
Copyright © construindohistoriahoje.blogspot.com. Este texto está sob a licença de Creative Commons Attribution-No Derivatives. Você pode republicar este artigo ou partes dele sem solicitar permissão, contanto que o conteúdo não seja alterado e seja claramente atribuído a “Construindo História Hoje”. Qualquer site que publique textos completos ou grandes partes de artigos de Construindo História Hoje tem a obrigação adicional de incluir um link ativo para “http://www.construindohistoriahoje.blogspot.com”. O link não é exigido para citações. A republicação de artigos de Construindo História Hoje que são originários de outras fontes está sujeita às condições dessas fontes.
 
Você quer saber mais? 

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.