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domingo, 22 de julho de 2012

Coiotes do Pampa. A Porta de entrada de imigrantes ilegais.

 Imagem: Zero Hora. (clique na imagem para ampliar).
 
Itamar Melo e Rossana Silva*
Um produto novo foi incorporado à prática ancestral do contrabando na fronteira entre Brasil e Argentina: gente. Às 5h de terça-feira, dois homens foram presos em flagrante na estação rodoviária de Uruguaiana depois de passar irregularmente um coreano para o lado brasileiro.

Segundo a Polícia Federal, os novos chibeiros do Rio Uruguai fizeram ingressar no país, nas últimas semanas, uma leva de imigrantes clandestinos de países como Senegal, Nigéria, Peru e China. A quadrilha, que seria formada por brasileiros e argentinos, costumava fazer a travessia do rio durante a madrugada, de barco.

Em outras ocasiões, escondia o imigrante clandestino em um táxi e cruzava a fronteira pela ponte entre Uruguaiana e Paso de Los Libres. Conforme as evidências reunidas pela PF, o serviço oferecido pelos coiotes do pampa incluía recepção na rodoviária, hospedagem, travessia e envio para o destino final.

Imagem: Zero Hora. Dados: Ministério do Trabalho e Emprego. (clique na imagem para ampliar).



A investigação foi motivada pela crescente presença de estrangeiros surpreendidos sem papéis em Uruguaiana, verificada desde o final do ano passado. Vários foram encontrados pelos policiais nas imediações da rodoviária local ou em hotéis. Como não estavam regularizados, pagaram multa e receberam três dias para sair do país.

No dia 29 de março, auxiliada pelos depoimentos dos clandestinos, a PF prendeu, em casa, um brasileiro integrante da quadrilha. Na residência, o homem estava abrigando oito senegaleses. Dois deles em situação irregular.

Solto dias depois, o brasileiro foi preso de novo na operação realizada na manhã de terça-feira na rodoviária de Uruguaiana. Ele foi pego em flagrante com um comparsa argentino. Os dois estavam com um coreano que, momentos antes, haviam trazido de táxi da Argentina.

Brasil não é rígido em questões migratóriasO imigrante coreano pagou multa e foi liberado. Ele estava residindo em São Paulo e tem licença para permanência provisória no Brasil. Mesmo assim, decidiu ir a Buenos Aires e voltar de forma ilegal.

— Como são várias nacionalidades envolvidas, está claro que existe uma rota. Não é só por Uruguaiana. Há relatos de imigração ilegal em outras cidades. Mas a existência dessa quadrilha fez aumentarem os casos aqui — diz Ana Gabriela Becker, delegada da PF na cidade.

Os coiotes atuam principalmente nas rodoviárias, fazendo abordagem a estrangeiros barrados por falta de papéis. O Rio Grande do Sul não seria destino, apenas ponto de passagem. Os indícios são de que Uruguaiana funcionaria como entreposto para estrangeiros que vão de São Paulo a Buenos Aires ou fazem o caminho inverso.

Ana Gabriela investiga também se Passo Fundo faz parte do trajeto. Parte dos clandestinos cruza a fronteira para traficar drogas ou fazer contrabando. Outros fogem da pobreza e buscam oportunidade de trabalho.

— Eles entram irregularmente porque, depois que estão aqui, uma grande parcela consegue se regularizar. O Brasil não é rígido em questões migratórias — diz a delegada.

Uma prova disso são as falhas reconhecidas por Ana Gabriela na ponte entre Uruguaiana e Libres. Os coiotes passam com clandestinos porque faltam policiais federais e porque as abordagens são feitas por amostragem.

30% de estrangeiros irregulares no paísA imagem do Brasil como país em processo de enriquecimento e repleto de oportunidades é uma das razões para a chegada de novas levas de imigrantes. Muitos entram clandestinamente. Estima-se em 30% o percentual dos estrangeiros em situação irregular no país.

Segundo o sociólogo Jurandir Zamberlan, pesquisador do Centro Ítalo-Brasileiro de Assistência ao Imigrante (Cibai), o compromisso de ajudar nações africanas assumido pelo Brasil moldou a nova imagem do país. Senegaleses e nigerianos, por exemplo, costumam cruzar o Atlântico de navio em busca de trabalho.

Muitos desembarcam em Rio Grande, mas outros descem em Montevidéu ou Buenos Aires, e depois precisam seguir por terra até a fronteira — deparando com Uruguaiana no caminho.

No caso de chineses e coreanos, o habitual é ter parentes ou conhecidos atuando no comércio, no Brasil. Eles já vêm com contatos e possibilidade de trabalho. Os colombianos, em geral, deixaram seu país por causa da guerrilha, emigraram para outros países, incluindo a Argentina, e agora tentam a sorte no Brasil.

No caso dos haitianos, uma pesquisa de Zamberlan mostra que grande parte não estava em seu país à época do terremoto. Trabalhavam em países vizinhos — o que explica a entrada de alguns pelo sul do Brasil e não por regiões próximas ao Haiti.

Conforme o sociólogo, os irregulares em geral entram no país por conta própria. Quando têm ajuda de um “coiote”, quase sempre é o futuro empregador, interessado em manter a condição ilegal do imigrante, para poder controlá-lo, em uma situação de trabalho escravo. O Cibai, ligado à Paróquia da Pompeia, em Porto Alegre, presta auxílio aos imigrantes desde os anos 50. Zamberlan defende uma mudança da política brasileira:

— O Brasil tem de superar a criminalização do imigrante. Em vez de tratar com um órgão de repressão, ele deveria ser recebido por um órgão de desenvolvimento. O país precisa de trabalhadores, porque a taxa de crescimento da população caiu e não teremos mão de obra suficiente para tocar o processo produtivo — defende.

O crescimento econômico brasileiro, assim como a proximidade da Copa de 2014 e dos Jogos Olimpícos de 2016, também criou uma onda de imigração legal de profissionais altamente qualificados, fenômeno favorecido pela crise nos Estados Unidos e na Europa.

Nos três primeiros meses deste ano, o Ministério do Trabalho e Emprego concedeu 17.081 autorizações de trabalho a estrangeiros, 4 mil a mais do que no mesmo período em 2011. O crescimento tem sido constante: 42.914 de 2009, 56.006 de 2010 e 70.524 em 2011.

Entre os países que mais exportaram profissionais estão EUA, Grã-Bretanha, China e Alemanha. Engenheiros, executivos e arquitetos buscam chances em áreas de infraestrutura, comunicação e indústria de óleo e gás.

* itamar.melo@zerohora.com.br

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