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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A primeira Humanidade foi politeísta; a segunda monoteísta; a terceira ateísta. Como será a quarta?


O “homem telúrico” de que fala Keyserling no seu estudo sobre a América Latina, está muito próximo, pelas suas raízes étnicas, do selvagem politeísta do Novo Mundo. É preciso não tomarmos o politeísmo de um modo superficial, segundo as expressões meramente formais dos totens e tabus.

Há qualquer cousa mais profunda na adoração dos fetiches: ela é, ao mesmo tempo, um sinal da revelação divina, e um índice de comunhão cósmica.

É a intercorrespondência entre os complexos psicológicos e o complexo cosmológico. Não é apenas na mitologia que devemos estudar a índole politeísta, mas no material lingüístico, nas raízes vocabulares, na analogia das imagens que estabelece íntimas correspondência entre o “concreto” e o “abstrato”.

Abaixo foto na revista ANAUÊ (edição outubro de 1937)

A raça brasileira e, de um modo geral, a sul americana, tem um sentido cósmico originado das fontes étnicas. Cumpre observar que as ondas imigratórias arianas e semitas, que se espraiam em nosso continente, não alteram a fisionomia profunda da alma americana. Assim como existe um meio físico, existe um “meio étnico” imperativo.

Essa origem próxima da Terra apresenta-nos como que a transposição de planos históricos, transladando as eras primitivas para o século da Máquina. A idade da pedra convive com a idade do rádio. O luxo moderníssimo de Copacabana é contemporâneo das malocas e tabas selvagens.

Isso, que não ter importância aparente, é um fator decisivo na massa social.

As idéias nítidas do espiritualismo cristão que nos trouxeram os jesuítas, logo após a descoberta, ganharam uma forte vitalidade, se impregnado do ingênuo espírito de uma raça cósmica. O cristianismo, como revolução espiritual profunda, é a religião por excelência destinada ao gentil. Em outras,zonas do globo, o gentio possuía já uma religião organizada: eram os romanos, os gregos, os gauleses, os germanos, os celtas, finalmente os mouros e os chineses. Na América, era o homem no politeísmo nascente, ainda não estilizado, por conseguinte, com um acúmulo de energia subjetiva poderosa. Através do processo de cruzamento étnico, de amálgamas sociais, sociais, o monoteísmo cristão absorveu as forças bárbaras e refulgiu numa expressão inédita. Se, para ser perfeito, o homem deve tornar-se uma criança, conforme afirmam os Evangelhos, a raça americana entra para o cristianismo em toda a inocência cândida de uma infância selvagem.

O estudo das manifestações religiosas das populações brasileiras, em que se mesclaram a mitologia tupi e os ritos africanos, revela-nos o formidável potencial de energia mística expressiva notadamente nos grupos sociais do nordeste. Há em nossa raça um notável poder religioso.

Essa fisionomia geral da “primeira humanidade”, a politeísta, tem uma profunda analogia com o estado de espírito da Era da Máquina, último estágio da “terceira humanidade”, a ateísta. O complexo cósmico, predominante naquela, é semelhante ao complexo subjetivo que nesta prepondera.

A conjunção dos dois fenômenos dá ao espiritualismo brasileiro uma força nova. O nosso cristianismo tem um sentido de humanidade profundo, uma delicadeza incomparável, que exprime, de modo eloqüente, o próprio temperamento de um povo.

Típica família Integralista

A influência que sobre nós exerceu a cultura do século XIX e o experimentalismo científico longe de apagar os traços caracterizadores da nossa personalidade espiritual, filtrou-se através das cátedras divulgadoras, abrindo imensas possibilidades ao nosso poder de pesquisas e ao nosso gênio inventivo, sem abalar o alicerce de nossa índole moral.

O materialismo grosseiro ficou, apenas, no litoral, em alguns aspectos das grandes metrópoles.

Uma unidade sentimental assombrosa fixa-se em todas as latitudes. Ela é a base sobre a qual assenta a nossa superioridade de vistas, a largueza de nossos gestos fraternos e hospitaleiros, nosso desprendimento altruísta. Nenhum povo é mais amável, mais coração-aberto. Eivado de defeitos de educação, esse caráter persiste em nossa gente, num vasto sentido de universalidade.

A extensão territorial da América Latina, o desdobramento dos horizontes, a origem próxima do nomadismo das tribos selvagens, tudo isso concorre para criar um espírito novo ao próprio conceito de propriedade. O desbravamento contínuo das florestas, os amplos latifúndios pastoris, a rarefação demográfica, criam no fundo de nosso espírito um desejo forte de cooperação humana e as correntes imigratórias de todas as raças que para aqui se dirigem encontram o meio moral propício aos caldeamentos fecundos.

Gustavo Barroso, Secretário Nacional de Educação Física, Moral e Cívica da A.I.B, entre outros Camisas-verdes, em Fortaleza.

Do ponto de vista do meio físico, é a América Latina o teatro onde se verificará, da maneira mais promissora, o nascimento de um tipo novo de humanidade. “A zona intertropical” escreve Alberto Torres “é o berço do animal humano: foi em climas médios, ou cálidos, que se fixou o tipo mais perfeito do reino animal; aí floresceram as primeiras e mais luxuriantes civilizações e desejos dos homens de todas as regiões. Só o esgotamento do solo, a proliferação das populações, as incursões bárbaras e as guerras conseguiriam atravessar grandes massas de populações para zonas frias. É natural que o homem tente voltar para seu berço, sempre que aí encontre terras férteis e climas propícios à vida.

Em seu livro “Raça Cósmica”, o sociólogo mexicano José de Vasconcelos estabelece, para a “quarta humanidade”, para a civilização do futuro, o trecho da América compreendido entre as bacias do Amazonas e do Prata. É, mais ou menos, a opinião de Keyserling.

Cumpre ainda notar que a marcha das civilizações, desde os tempos históricos, realiza-se no sentido do Oriente para o Ocidente. Agora, que a decadência da civilização européia é proclamada pelos próprios pensadores do Velho Mundo, aproxima-se o dia da América Latina, uma vez que a América Anglo-Saxônica floresceu dentro da agonizante civilização da Europa.

Se apreciarmos o aspecto econômico do mundo, verificamos que a civilização da Terceira Humanidade, a ateísta, teve uma base na hulha e no petróleo. As indústrias desenvolveram-se e os capitais se acumularam nas regiões do globo onde esses combustíveis se encontravam em maior quantidade.

Conseqüentemente, a concentração do ouro nessas regiões do planeta. Dentro do espírito da crescente internacionalização do comércio, e subordinando-se o conceito do “meio circulante” aos padrões fixos e estáticos do ouro, a civilização da hulha e do petróleo produziu o desequilíbrio econômico do mundo, dividindo as nações em categorias de grandes capitalistas e industriais e povos coloniais e semi-coloniais. A América do Sul tornou-se uma semi-colônia. Nessa situação, os seus credores, para justificar a opressão e o latrocínio, divulgam a falsa teoria da superioridade racial. Esse tipo dólico-louro, que nos tempos em que a navegação nos “mares tenebrosos” dependia de heroísmo, não descobriram nenhuma terra, passaram a ter hegemonia dos mares já descobertos, quando o heroísmo foi substituído pela máquina a vapor. Então, para explicar os seus progressos, começaram a medir os crânios, proclamando a inferioridade dos povos morenos, inclusive da raça latina.

Acima: Camisa-verde o Sentinela da Pátria

Hoje, a aplicação da eletricidade vai derrubar definitivamente o orgulho das raças que se dizem superiores.


Contra essa cruel civilização, que já agoniza nos estertores das crises econômicas, levantar-se-á nova civilização. Depois da Humanidade Ateísta virá a Humanidade Integralista.

As crianças são nossa esperança para o futuro da Pátria.

É a “quarta humanidade”

Como um sol que vai nascer, ela já projeta seus primeiros clarões.

Uma nova luz se anuncia no mundo.

É a Atlântida que ressurge.

A nova civilização realizará a grande síntese.

Síntese filosófica. Síntese política. Mas, principalmente, síntese das Idades Humanas.

No Brasil, o homem arguto, cheio dos instintos percucientes que herdou de seus próximos avós selvagens, o “homem telúrico” de Keyserling, plasmado dentro dos puros sentimentos espiritualistas e cristãos, desfralda a bandeira do Sigma.

Essa bandeira afirma a suprema síntese e desdobra-se num largo sentido humano e universal.

Nascerá aqui o novo. Direito, a nova política do Estado Revolucionário, com finalidade moral prefixada. Não será certamente o Estado Totalitário, de um absolutismo absorvente, mas o Estado Integral, índice ele próprio das relações dos movimentos sociais. Nele, a “revolução” deixa de ser a desordem individualista, classista ou partidária, para ser o direito do espírito de intervir no desenvolvimento das forças materiais da sociedade, recompondo equilíbrios segundo um pensamento de justiça.

A lei deixará de ser o tabu rígido, a cristalização do direito despótico, para ganhar aquela plasticidade preconizada já remotamente no Evangelho, quando Jesus afirma: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (S. Marcos, Cap.II).

Lideres Integralistas

Partindo de uma concepção espiritual do Universo, o Novo Estado será, ao mesmo tempo, realista e prático. A contribuição experimental e científica do século XIX, o subsídio de conhecimentos naturais que advieram da Humanidade Ateísta, dará ao Estado Integral os elementos com que jogará no esforço contínuo de impor equilíbrios morais no mundo material, concebendo o Homem como uma criatura de Deus, e a Nação e o Estado como criaturas do Homem. A ciência não é renegada, mas passa a ser a servidora do Homem, em vez de ser o tirano que o subjuga.

Por isso que esse movimento que se processa nas vésperas do aparecimento do novo tipo de Humanidade, começa por uma obra de revisão do Passado, servindo-se de todos os elementos humanos para a realização da grande síntese.

Em meio ao tropel cambaleante de um mundo que morre, escutamos já nitidamente os passos da Quarta Humanidade.

Quer saber mais?

SALGADO, Plínio. A Quarta Humanidade. São Paulo, Ed. Das Américas, 1957.

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.