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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quer comprar uma vírgula?

Uma vírgula? – perguntei eu, pasmo. E ele completou:

__Sim, uma vírgula para que continue a escrever seus textos, pois um homem sem vírgulas é um homem sem história.

A partir desse momento, meus olhos se abriram. Descobri que sempre usara a teoria dos pontos finais em minha história e não a teoria das vírgulas. Alguém me frustrava? Eliminava-o, colocava um ponto final no relacionamento. Alguém me feria? Anulava-o. Enfrentava um obstáculo? Mudava de trajetória. Meu projeto estava com problemas? Substituía-o. Sofria uma perda? Virava as costas.

Eu era um professor-doutor que usava os livros dos outros em minhas teses, mas não sabia escrever o livro da minha existência. Meus textos eram descontínuos. Quem elimina todos ao seu redor um dia será implacável consigo mesmo. E esse dia chegara. Mas infelizmente encontrei esse enigmático homem e entendi que é possível conviver, sem vírgulas, com cachorros, gatos e até com cobras, mas não com humanos. Frustrações, decepções, traições, injúrias, conflitos fazem parte do nosso cardápio existencial, pelo menos do meu e de quem conheço. E as vírgulas são imprescindíveis.

Eu vivia confortavelmente no anfiteatro da sala de aula e nos aposentos do meu pequeno apartamento, pago com meu mirrado salário de professor. Assim, eu, um especialista em Marx, uma socialista que sempre criticava a burguesia e exaltava os miseráveis da sociedade, passei a sentir na pele a dor da miserabilidade.

Comecei a seguir um vendedor de idéias que não tinha nada, a não ser ele mesmo. Marx ficaria perplexo com esse homem. Nem ele sabia o que era ser um proletário. Era um pensador teórico. Ao segui-lo, percebi que eu era um socialista hipócrita, defendia o que não conhecia. Sai, portanto, das fronteiras da teoria, tornei-me um andarilho no teatro da existência, um pequeno vendedor de vírgulas para os caminhantes libertarem a mente, reescreverem sua história, desenvolverem o pensamento crítico.

Ser zombado, debochado, taxado de maluco, lunático, desvairado, impostor estava entre os riscos menores de participar desse grupo. Os piores? Ser espancado, preso, considerado amotinador social, seqüestrador e terrorista. O preço de vender sonhos numa sociedade que asfixia a mente humana e deixou de sonhar era muito caro.

Mas nada era tão excitante. Os que participavam desse time não conheciam o tédio nem entravam em estado de angústia ou depressão, mas corriam perigos imprevisíveis e se metiam em incríveis confusões. E que confusões!

Você quer saber mais?

Cury, Augusto. O Vendedor de Sonhos: E a Revolução dos Anônimos. Editora Academia de Inteligência, São Paulo, 2009.

http://construindohistoriahoje.blogspot.com/search/label/PESSOAL

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"O Homem inventou a máquina. A máquina, agora, quer fabricar homens. E se um dia saírem homens do ventre das usinas, também os úteros das mulheres gerarão homens-máquinas, sem coração, sem afeto, meros aparelhos de produção..."

Plínio Salgado.